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    Toca-disco

    As rosas não calam
    Flávio Aguilar
    21/10/2008


    (Foto: Tons do Brasil)


    No dia 11 de outubro, sábado, vi o Jornal Nacional dedicar seu último bloco a Cartola. Passei os canais e assisti à lembrança, também bela, feita pelo telejornal da Rede TV, de cujo nome não me recordo. Imagens raras, a música brilhando, o sorriso do mestre.

    No dia 11 de outubro, comemoramos o centenário do nascimento de Cartola. Mas comemoramos como num dos seus sambas: com a dose necessária de melancolia.

    Se tenho motivos para surpreender-me e emocionar-me com o espaço que Cartola ganhou na televisão, normalmente submetida ao instantâneo e ao banal, também posso sentir o peso da dúvida: esperaremos mais cem anos?

    Chorar pelos dias que hoje vivemos e ter veleidades pelo passado ideal é exagero. O Brasil que criou esse Cartola lindo, poeta simples, já era um pouco assim, amargo, na sua mocidade. Nosso, hoje, consagrado compositor viveu no ostracismo boa parte da vida, para, em seus últimos anos, viver a glória merecida e ser, por fim, sepultado como o grande artista que foi.

    A mínima chance que Cartola teve, já passando de seus 60 anos, soube aproveitar bem. Não fez nenhum esforço descomunal, fez o que para ele era simples: cantar as canções que mantivera silenciosas por tanto tempo. Essa chance, essa mísera oportunidade, não sei se hoje seria dada a ele.

    Poetas como Cartola não são, ainda, esquecidos. Mas são cada vez menos vividos. O memorialismo é insuficiente para preservar a beleza da cultura de um povo. Eu não sei, eu gostaria, como seria bom passar numa esquina qualquer e ouvir acordes dissonantes, despretensiosos, chegando até mim vindos de quem os construiu. Onde estão nossos inventores? Até as estátuas, um dia, viram pó.

    No entanto, o culto a gênios como Cartola, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Baden Powell, Lupicínio Rodrigues e tantos outros deve ser constante. A valorização da música brasileira é elementar em um país que pouco valoriza sua arte – e cada vez mais valoriza o supérfluo.

    Canções como “O Mundo é um Moinho” (mp3 abaixo, na voz do próprio Cartola) emocionam até hoje e devem continuar encantando as gerações que virão. O segredo está na carga que essas obras contêm: a proximidade que sentimos da dor e da emoção do poeta, a cadência tipicamente brasileira. De alguma forma, sentimos que somos forjados de versos como esses; que esses versos foram forjados com a beleza que tentamos manter.





    * Faixa extraída do CD “Cartola - 1976” (Marcus Pereira/s.d.)

    flavioaguilar@gmail.com



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