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    Para que servem os fantasmas dos amigos


    Hoje o fantasma do meu amigo veio me visitar. Eu estava saindo do Uber e não senti nenhuma presença assustadora, daquelas de arrepiar os pelos mais recônditos, nem ouvi meu nome sussurrado do além. Nada disso. Continuei atravessando a rua (será que olhei para os lados?), pensando o que eu pensava no caminho para casa: não aguento mais ouvir falar no maldito coronavírus.

    Não me leve a mal. Não tenho nada contra nem a favor do coronavírus. Quero dizer, o fato de ele (ou ela – não sejamos machistas!) matar algumas pessoas, sobretudo os mais velhos, me deixa um tanto apreensivo. Por outro lado, eu o compreendo. O coronavírus, coitado, vive numa crise de identidade danada. Não sabe nem se é um ser vivo. E por aí andam dizendo que ele nada mais é do que um punhado de material genético envolto numa proteína – o que evidentemente o chateia.

    Pensava eu, no caminho para casa, em todas as implicações da atualíssima pandemia de coronavírus. Não na economia ou na política. Quero dizer, também. Mas pensava principalmente no espírito humano, ou o que resta dele. Como as pessoas encararão o futuro depois do coronavírus? E o passado também – por que não? Será o coronavírus o fenômeno a despertar o lado mais nobre do ser humano? Ou será tão somente uma tragédia à qual sobreviveremos e que terá servido apenas para alimentar nossa soberba?


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    Enfim, essas coisas que a gente pensa numa corrida de quinze minutos de Uber, enquanto consulta as redes sociais.

    Bati a porta do carro com medo de irritar o motorista e ser mal avaliado e me arrastei pela rua de paralelepípedo. Estava cansado, exausto mesmo, desejando que o coronavírus tivesse outro efeito que não o comprometimento das vias áreas: que ele acabasse com a capacidade humana de ser monotemática. Não precisava ser para sempre. Por uns quinze minutinhos ao menos. Só até eu recuperar o fôlego.

    Estava quase chegando do outro lado da rua quando o fantasma resolveu se manifestar. Assim sem querer e muito discretamente, como fazem os melhores fantasmas. Lembrei do amigo morto e a simples lembrança foi uma iluminação. Parei para ter certeza de que não enlouquecia, respirei fundo e me vi subir os poucos lances de escada embriagado com minha condição de ser vivo no meio do caos.

    De repente, o coronavírus deixou de ser uma partícula semiviva no meu sapato existencial para se tornar um milagre tão admirável quanto um arco-íris inesperado uma tarde de verão.

    Porque, se por um lado o coronavírus e o pânico que o acompanha dão corpo a um fenômeno psicossocial horrível e vulgar, barulhento mesmo, por outro o coronavírus, pânico, essa torrente de notícias e mentiras e piadas e incertezas, e até meu cansaço ali já diante do elevador são uma prova inegável e inconteste de que eu estou respirando, as sinapses estão em polvorosa e, caramba!, nesse Universo ainda sou mais do que uma mera lembrança.

    Estou vivo e meu amigo fantasma não está. Eu queria que ele estivesse. Talvez ele quisesse estar. Se estivesse vivo, em vez de se fazer presente apenas como uma (necessária) recordação, meu amigo viveria comigo essa avalanche de palavras e imagens e dados e opiniões e disse-me-disses do coronavírus. Eu o imagino me ligando num dia qualquer, hoje e agora mesmo, só para compartilharmos achismos que não levam a lugar nenhum. Sinto na voz e no sotaque carregado até seu medo. E cansaço. Talvez ele até dissesse que pretendia passar o fim de semana isolado de tudo, só para não ouvir falar dessa ou de qualquer outra coisa insuportável.

    Meu amigo, hoje reduzido à condição de fantasma, não pode ouvir falar de coronavírus. Nem das estripulias do governo. Nem das reações raivosas ou ternas das pessoas ao que quer que se escreva nas redes sociais. Nos últimos anos, meu amigo não pôde ouvir falar de várias coisas que, acredito, teriam despertado seu interesse, como aquele filme e aquele livro e todas as polêmicas que surgissem num domingo para desaparecer numa segunda-feira.

    Porque meu amigo é um fantasma, um espírito, uma recordação, um anjo – em essência, um morto. E, lá do Céu onde o imagino vigilante e risonho, ele em segredo me inveja imerso no caos enquanto se banqueteia na perfeita ordem da não-existência.

    Já eu, que ainda há pouco cedia à mistura mortal de enfado & cinismo para me referir ao coronavírus, cheguei em casa, sentei-me no sofá, liguei a televisão num telejornal qualquer e agora estou aqui alternando apreensão, indignação, alegria, impotência e raiva sem consequência.

    Me deliciando com o caos que só rejeito quando esqueço que ele é apenas mais um sinônimo para “vida”.

    - Texto originalmente publicado no blog do autor.


    paulo polzonoff jrPaulo Polzonoff Jr.

    Jornalista, crítico literário, tradutor e escritor, autor de "Manuel Bandeira" (2006) e "O Homem que Matou Luiz Inácio" (e-book, 2016).



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