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    Coleção Tipos Raros - Iberê Camargo: Um Homem Valente


    Dono de uma das obras mais fortes - se não a mais forte - da arte brasileira, Iberê Camargo (1914-1994) foi, acima de tudo, livre. Pintou o que quis, sem aderir a modismos e a movimentos da cultura nacional, característica que realmente faz dele um tipo raro. Neste romance de "fricção" (um atrito entre invenção e realidade), Nilma Lacerda parte das telas mais marcantes e também dos textos memorialísticos e ficcionais deixados por Iberê para recriar a sua trajetória inquebrantável, possibilitando aos leitores uma imersão num universo de busca de expressão artística e de reflexões morais e existenciais que poderiam ser as de todos nós.

    Lançado em novembro de 2022, Iberê Camargo: Um Homem Valente [Fricções] é o primeiro volume da coleção Tipos Raros, projeto da Editora Mínimo Múltiplo.

    Prefácio de Adriana Calcanhotto, texto de orelha de Silviano Santiago, apêndice de Lucas Colombo, pintura da capa feita por Theo Felizzola sobre fotos de Luiz Eduardo Achutti, fotografia do miolo cedida por Luiz Eduardo Achutti. 192 páginas.

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    Leia trechos:


    Do Capítulo Um


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    "A pintura desobriga das metáforas. Metáfora, esta coceira na ponta da expressão. Os dedos de um escritor: caçadores de tigres nos arredores de um dos palácios da Rajmata de Jaipur. Eles não têm a cor, como os caçadores não dispõem de armas efetivas. A realeza se diverte com o espetáculo em que os homens usam lanças toscas, sem poder de morte, e gritos, para acuar os tigres. É ordem da Rajmata que as armas de fogo só entrem em cena no último momento, tiradas de um dos baús sobre o dorso do elefante branco. O risco é real e se estende aos nobres. Por isso mesmo é que são tão disputados os convites para participar das caçadas em Jaipur.

    A pintura desobriga da metáfora e a viagem só pode ser pintada com um traço, um caminho cor de terra. No máximo, uma estrada verdolenga. Os escritores têm um dicionário à disposição, e é às nossas tintas que eles recorrem para dar o tom de um cenário, um lugar. A viagem, fronteira viva.

    As fronteiras, esta necessidade a transpor. Por isso, têm que ser desenhadas. E depois marcadas com cancelas, guaritas, uniformes. A vida, um tabuleiro de rotas de viagens. Mesmo ao redor de nosso quarto, viajamos. Um dia, ganhamos a bicicleta, e anunciamos à família: – Vou levar minha bicicleta para conhecer o mundo.

    Antes da bicicleta, os carretéis.

    A última gaveta do armário, logo abaixo da que ficava com as roupas de dormir, era cheia de caixinhas de papelão, invólucros de sabonete, potes vazios, carretéis, uma miscelânea de coisas simples que serviam de brinquedo. Uma economia e tanto, ouvia de vez em quando alguém dizer. E bom para ocupar as mãos, secundava outra voz. Para mim, nem uma coisa nem outra. Mesmo quando eu já era maior e podia avaliar o alcance dessas intenções pedagógicas sempre considerei: nem economia, nem ocupação. Era a vida que nos davam nos carretéis vazios. Sei bem disso: tive que pintá-los."


    Do Capítulo Oito

    "Molhei o pincel na tinta amarela, passei no papel. Não era felicidade, e era uma coisa extraordinária que estava acontecendo na minha vida. Molhei de novo o pincel na tinta, passei no papel e o sol bateu no chão da campanha, o grão de milho chamou a galinha pro cocho. O amarelo da saia mais bonita da minha mãe e da cor da luz no lampião quando tem óleo novo, esse amarelo corria macio no papel, com ele eu podia representar tudo o que via amarelo, que presente o homem havia me dado.

    Pintei até encontrar de novo o branco polido do pires. Meu coração ia aos pinotes, a mão campeava firme o papel. Virei para dizer obrigado ao homem, sabendo que obrigado era pouco. O homem já estava dormindo, deitado na cama de armar que meus pais tinham para essas eventualidades. Não ousei incomodá-lo.

    O susto da primeira têmpera! O susto com a revelação de que se é capaz de pintar. O susto de um dia não ser mais capaz de pintar.

    Essa revelação que é como o nome da gente dito uma segunda vez, uma segunda vez e mais claro do que a primeira: a gente sabendo para o que é que a gente está no mundo. A gente sabendo que tem um destino, um destino e não só uma vida, não só um ciclo biológico, uma tarefa social: nascer, crescer, estudar, conseguir um emprego, casar, ter filhos, ser respeitável, ficar velho, morrer. Não. Para muito mais a vida nos é dada. Precisamos fazer muito mais do tempo que nos é dado, das obrigações que damos a nós mesmos como uma camisa de força que a humanidade foi inventando e aperfeiçoando a cada nova revolução. Nascer, e pintar!"


    Do Capítulo Quatorze

    "Tempo de voltar a trabalhar. Carreguei a tela de cores. Não eram aquelas, não era nenhuma daquelas cores que eu queria. Raspei tudo. Botei cor de novo. Raspei. Quantas vezes botei e raspei cor, botei e raspei. De novo, a tinta na tela, de novo a tinta no chão. Encomendei mais tinta, fiquei com medo de que me faltasse tinta. Branco, amarelo, preto, vermelho. Um ocre puxado a pele. Roxo puro, também. Isso para o chão. No céu, cinza e roxo, por que as levezas de amarelo, por quê? Continuei, não estava em condições de discutir. Continuei. Uma vontade de me deitar com a terra, abraçar a terra. Cavar a terra com as mãos, enfiar os braços nela, abraçar um corpo feito de terra, virar terra eu mesmo.

    Tatu reapareceu lá em casa, podíamos dar alguma ajuda a ela? Perdeu o emprego na tevê, ia ser despejada e havia dias em que não comia. Dei um dinheiro, perguntei se posaria para mim. No dia seguinte, foi ao ateliê. A tinta era dor, minha mão era dor, a cor era dor. Disse a Tatu que era para deitar no chão. Ela deitou. Eu pintei. No vento e na terra. Pintei de novo, Tatu merecia um pouco de serenidade na vida, diluir as inscrições da falta de memória. Ficaram No vento e na terra I, No vento e na terra II."

     

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