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    Celular, modos de usar


    Eu me dei conta de que o celular estava tomando demais o meu tempo quando meu filho, que tem um ano e meio, largou a bola, seu brinquedo favorito, e começou a querer brincar com o meu smartphone. Imagino que, na cabecinha dele, aquele aparelho com luz intermitente deva ser algo fabuloso, pois seu pai está vidrado nele por horas. O que tem de tão legal e divertido ali?, ele pensa. Certamente, algo muito melhor que ficar chutando uma bola.

    Meu pequeno ainda não sabe concatenar frases, mas sabe como mexer em um smartphone. Imita seus pais, seus avós e todo mundo à sua volta, apertando os botões e passando o indicador por toda a tela. Um sinal dos tempos. E um sinal um tanto preocupante. Não sou o único pai angustiado. Para se ter uma ideia, Bill Gates, fundador da Microsoft e um dos "culpados" por disseminar esse vírus tecnológico em escala global, não permitiu que seus filhos tivessem celular antes dos 14 anos.

    O smartphone e seus conteúdos atraentes, persuasivos, nos distraem do que realmente acontece à nossa frente. Comigo foi assim. Afinal, eu deveria estar me divertindo com meu filho e com aquela bola - que me divertiu por toda a infância, uma infância sem celular. Essa culpa de pai ausente, mesmo estando fisicamente presente, me fez buscar a quase utópica desconexão. Falo em utopia porque, atualmente, no Brasil, temos mais celulares do que pessoas: já são 215 milhões de aparelhos, para uma população de 211 milhões (ou seja, 102% de celulares em relação à população). Os números confirmam que estamos diante de uma realidade - virtual - inescapável. Ficar imune aos áudios, imagens, mensagens, publicações que esses aparelhinhos disparam parece um desejo quase impossível de se realizar.


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    Sou jornalista, portanto o smartphone é, para mim, também uma ferramenta de trabalho. Não tenho como abandoná-lo, nem sou ingênuo a esse ponto, pois correria o risco de me tornar mais um na lamentável estatística de 12,5 milhões de desempregados no país. Contudo, tenho me esforçado para usá-lo de forma racional e conforme sua verdadeira funcionalidade: ser apenas um dispositivo, e não uma extensão da minha vida. Eu quero e tenho que controlar essa conectividade, não o contrário. Um estudo da Google, realizado nos EUA, atestou que, em média, as pessoas checam cerca de 150 vezes o celular durante o dia. Devo estar próximo disso - ainda estou no início da "desintoxicação" - e me nego a achar essa postura normal.

    O celular como é hoje, um minicomputador com milhares de funcionalidades e possibilidades, existe há 12 anos - a primeira geração do iPhone foi lançada em 29 de junho de 2007. Esse aparelho “esperto” – tão esperto que - já consome sozinho cerca de três horas do dia dos brasileiros. Somos o quinto lugar no ranking global de tempo despendido. Voltando ao meu próprio exemplo. Em um dia apenas, eu passei duas horas e trinta minutos - com 67 checagens ao aparelho - interagindo ou utilizando o celular, conforme o aplicativo Moment, que monitora acessos. Para quê tanta informação? Não tenho como acumular esse entulho de dados, textos, imagens, vídeos, interações. O resultado é uma crise de atenção. Estou constantemente disperso em futilidades notificadas em "tempo real". No fim do dia, só resta a exaustão física. Do que li, vi e interagi resta pouca coisa.

    Algo que foi criado para ajudar e facilitar está atrapalhando e dificultando minha rotina, como todo vício faz. Preciso assumir essa dependência e buscar o tal uso consciente do celular. Se não fizer nada para mudar, já imagino essa conversa em 2025:

    - Pai, como era a vida antes do Google?

    - Não sei, filho, joga no Google e vê.

    Lógico que esse diálogo entre duas pessoas hiperconectadas é uma brincadeira, mas confesso que um dos sintomas que a dependência digital tem me causado é o esquecimento. Até mesmo de como era vida antes da tecnologia. Lembram-se dos dicionários, das enciclopédias, de ter que perguntar para alguém como chegar a algum lugar, das televisões sem controle remoto, de só ficar sabendo das coisas um tempão depois? Pois é...

    Outro problema, mais grave, é a consequente falta de tempo. Junto dele, as desculpas esfarrapadas para não escrever (esse texto, por exemplo), ler um livro, passear com a família, ir ao mercado, limpar a casa, visitar alguém. É desolador se dar conta disso. Uma vida que se esvai, atrelada a um aparelho de 15 centímetros, que cabe no bolso.

    Por sorte, meu filho está me trazendo de volta à realidade e às coisas simples, as que realmente fazem a diferença. Ficarei bem melhor assim, com ele - e o mais longe possível do celular.


    lucas barrosoLucas Barroso

    Jornalista e escritor, autor de "Virose" (2013), "Um Silêncio Avassalador" (2016) e "Um Gato Que Se Chamava Rex" (2018).



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