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    Entrevista - Rosane de Oliveira

    Página 10 ampliada
    Lucas Colombo e Leandro Schallenberger
    12/09/2008


    (Foto: clicRBS)


    Nós pensávamos em uma maneira de contemplar a temática “Eleições 2008” no Mínimo Múltiplo. Já publicamos alguns textos a respeito, como este do Flávio. Mas queríamos mais. Entrevistas? Boa. Com os candidatos a prefeito? Não. Seria mais do mesmo. Eles já falam no intragável horário eleitoral e já dão entrevistas aos jornais. Seria melhor conversar com alguém sobre política brasileira, mesmo. Sobre política, assim, de um jeito ‘holístico’, digamos (palavra pretensiosa, ‘holístico’...). Que tal a Rosane de Oliveira, colunista de política do principal jornal do estado, a Zero Hora? Boa idéia.

    E lá fomos nós conversar com ela. Entrevista marcada para as 16h30min. Leandro mandando ver ao volante, pela Avenida Ipiranga. Lucas ao lado dando palpite. Chegamos. Anunciamos nossa chegada ao recepcionista, que ligou para a moça do quarto andar, que avisou a Rosane, que nos pediu para subir. Subimos. Atravessamos a redação e entramos na sala da autora da “Página 10”. Mesa repleta de papéis, computador e dois telefones, que tocaram quatro vezes durante a entrevista. “Desculpem, hoje à tarde eu estou sendo minha própria secretária eletrônica”, brinca Rosane. Gravador ligado, falemos de política brasileira. Esta mesma, tão generosa com os piadistas, tão apreciada por quem curte um $$ e tão irritante para nós, cidadãos com um mínimo de consciência de que as coisas por aqui deveriam ser bem melhores. Falemos também de crítica política e de educação. Maltratada educação brasileira. “O ensino no Brasil, hoje, é de quinta categoria. Os alunos não aprendem, os professores não ensinam...”, comenta a jornalista. Pois é. Enquanto não tivermos uma população educada, não adianta defender voto facultativo. “Se o voto for facultativo, quem irá votar? Os mais conscientizados? Não. Quem faz curral eleitoral hoje, sendo voto obrigatório, fará quando não for obrigatório também. Isso se muda com educação, não com o fim da obrigatoriedade”, completa Rosane. A gente concorda. E você, leitor?

    Quarenta e cinco minutos depois, nos despedimos. O que conversamos nesse tempo, você lê aqui.


    Lucas – Uma deputada dança no plenário da câmara comemorando a absolvição de um colega mensaleiro. Uma ministra recomenda aos brasileiros que relaxem e gozem. O prefeito do Rio de Janeiro cria uma secretaria especialmente para a irmã, depois de o STF proibir o nepotismo no país. Um candidato a prefeito de São Paulo – aquele de sempre – contrata uma banda para acompanhá-lo nas ruas e abafar as vaias que ele recebe. A pergunta é a seguinte: a política brasileira ainda tem jeito?
    Rosane – (risos). Eu acho que tem. Se eu acreditasse que não, mudaria de ramo – pediria para trabalhar no Campo e Lavoura, talvez... Estou nessa área há muito tempo, e meus parentes sempre perguntam como eu agüento trabalhar no meio de tanta sujeira. Mas eu acho que tem jeito, sim, e é por isso que eu acredito em eleição. Infelizmente, as pessoas, por acharem que não tem jeito, que política é uma chatice, é sujeira, vão deixando que os ruins prosperem. Mas minha esperança é sempre essa: se mais gente se engajar, se mais gente ‘se tocar’, as coisas vão melhorar.

    Lucas – O Millôr Fernandes já escreveu que o Brasil é um país condenado à esperança. O brasileiro sempre acha que não há muito o que fazer agora porque só no futuro as coisas serão diferentes. Tem muita gente que diz: “ah, essa sujeira toda é comum, o Brasil tem 500 anos de corrupção, de confusão entre público e privado... seriam necessários mais 500 anos até que esse quadro se revertesse”. Este tipo de pensamento é um absurdo: mudança tem que ser agora, já. Não é?
    Rosane – Claro, não dá pra esperar 500 anos. Penso o contrário: se cada um fizer a sua parte, se o Ministério Público fizer a sua parte, se o judiciário fizer, se eu e vocês fizermos, há chance de melhora. Nós estamos vendo algumas pessoas por aí tendo que se explicar, que nós pensamos que nunca veríamos. Porque ultimamente algumas instituições estão funcionando muito bem, obrigado. Outras, nem tanto. Mas temos que esperar esta evolução de todas. Eu, por exemplo, nunca fui a favor dessa idéia de que “os gaúchos são melhores que os outros”, ou “passando o (Rio) Mampituba, nada presta”...

    Lucas – Nós vamos perguntar sobre isso...
    Rosane – É? Eu sempre me atravesso nas perguntas dos outros... Mas enfim: eu sempre achei essa idéia uma grande bobagem. Estes escândalos que estamos vendo aqui no estado até têm um aspecto ‘didático’ legal, que é o de provar que nós também temos problemas. Infelizmente, talvez tenhamos demorado mais que os outros para colocá-los em público. Bom, vou parar de me adiantar às perguntas (risos)...

    Leandro – Mas esta é uma pergunta: até pouco tempo atrás, gaúcho achava que, eticamente, era superior aos outros estados. Que o Rio Grande do Sul tinha um padrão diferenciado de gestão pública, que nossos políticos eram mais centrados, mais respeitosos com a coisa pública...
    Lucas – E o próprio povo também se considerava o mais politizado do país...
    Leandro – Pois é. Isso tudo tem caído por terra, não?

    Rosane – Gaúcho “se acha” muito, sim. Eu sou gaúcha, mas concordo que o povo daqui se acha...

    Lucas – Nós também (risos).
    Rosane – Pois é. Não gosto disso. O que acontece: por “se achar”, fica aquilo de “ah, nós somos melhores mesmo, então tudo bem...” Esta idéia se criou, e talvez por isso nós tenhamos procurado menos descobrir irregularidades – as nossas instituições, digo. Não estou falando de “nós”, porque, às vezes, as pessoas perguntam: “cadê o jornalismo investigativo?” Bem, nós não temos poder pra quebrar sigilo bancário, telefônico, fiscal... Certas coisas, a gente só sabe com investigações maiores. E hoje há, verdadeiramente, por parte dos órgãos responsáveis por investigar, uma disposição que não havia no passado, talvez até por essa idéia do “somos melhores”. E sim, se compararmos com alguns outros estados, nós temos uma população que ficou mais anos na escola, que lê mais, e isso nos dá condições de compreender melhor as coisas – ou deveria ter dado. Mas não foi suficiente. Então, acho que hoje estamos mais realistas, sabendo que não somos essa maravilha toda. Mas temos condições de, como sociedade, melhorar isso, e nesse caso transparência é fundamental.

    Lucas – No horário eleitoral, só vemos candidatos despejando chavões, promessas vazias e distorções de fatos e estatísticas para se favorecerem. Quando o debate político no Brasil atingirá a maioridade?
    Rosane – Eu me apavoro vendo horário eleitoral. Mais pelos candidatos a vereador, nem tanto pelos candidatos a prefeito. Eles dizem coisas sem pé nem cabeça. Vêm com aquele discursinho, como tu disseste, repleto de chavões. Pra mim, o mais famoso dos clichês é aquele: “eu vou lutar por uma sociedade mais justa e mais humana”.

    Lucas – “...e mais igualitária” (risos).
    Rosane – É... (risos)

    Leandro – E agora os candidatos falam muito em ‘criatividade’ também...
    Rosane – Ah, criatividade... Tem de tudo um pouco. E, na prática, a gente não vê. Eu ainda acredito que vereador deve ser escolhido pelo trabalho na comunidade, não pelo que fala na TV. Outra coisa: sempre fui contra a idéia de mandatos coincidentes. Essa história de que se gasta muito com eleição, que o país pára a cada dois anos, e que o melhor é fazer tudo junto: eleger prefeito, governador, senador... Se for assim, nós não vamos debater as cidades. Do jeito atual, nós, bem ou mal, debatemos as questões da cidade. Eu adoro a ‘cidade maravilhosa’ que nos mostram a cada quatro anos: cidade sem nenhum problema, e se houver algum será resolvido a partir de janeiro do próximo ano, porque tanto a situação, quanto a oposição têm soluções para tudo. Infelizmente, acho que nós, gaúchos, temos um defeito de fábrica: não cobrar tanto as promessas. A gente fica relembrando aqui as promessas feitas pelos candidatos, mas o eleitor não tem esse hábito. Ele não cobra do seu vereador, até porque nem se lembra em quem votou. Vocês viram aquela pesquisa que saiu recentemente? As pessoas não lembram em quem votaram! Então, vão cobrar de quem? E é esse espírito de cobrança que eu queria ver mais. Algumas pessoas se dão a esse trabalho, em relação a deputados. Mandam e-mails, enchem o saco deles, cobram... Isso é que tínhamos de fazer. Mas não se tem muito, ainda, este hábito de cobrar. Por que eu acredito que há futuro? Porque se os deputados e vereadores se sentirem cobrados, eles serão obrigados a melhorar. Quanta coisa já se impediu no Congresso por conta da pressão popular? Lembro quando propuseram aquele aumento de salário: as pessoas inundaram as caixas de e-mail dos deputados com reclamações, e eles tiveram de recuar. Nós precisamos aprender a usar mais esses instrumentos que a tecnologia oferece para sermos mais atuantes na cobrança.

    Lucas – E as cobranças que as oposições deveriam fazer? Algo que eu percebo hoje, no Brasil, é uma crise nas oposições. A oposição ao governo Lula, por exemplo, é muito fraca...
    Rosane – Concordo contigo. É totalmente desqualificada.

    Lucas – Sim. E oposição ao Serra, em São Paulo, também praticamente não existe. Também não se ouve falar da oposição ao Sérgio Cabral, no Rio. Aqui no RS também já tivemos oposições mais aguerridas do que a atual. A que se deve esse esmorecimento? Deve-se àquela lição dos marqueteiros: “quem bate muito, fica antipático perante o povo”?
    Rosane – Acho que não. É porque agora ninguém é mais ‘virgem’ nesse negócio. Antigamente, eles diziam: “eu sou oposição, eu sei como fazer, quando eu chegar lá vocês verão a diferença, tudo vai mudar, vai acabar a corrupção”. Agora, todos já passaram pelo governo. Então, nem se tem muito discurso. O cara diz: “quando eu chegar ao poder, não haverá mais isso”. E aí o outro do lado dele diz: “meu irmão, quando tu estiveste lá, como foi o teu comportamento?...” Então, todo mundo agora já passou pelo poder e, não tendo solucionado os problemas que prometeu solucionar, perdeu a moral para criticar. Isso deixou a oposição mais engessada. Outra coisa que engessou foi essa fragilidade ideológica, essa fragilidade dos partidos. Como o partido “A” pode criticar o “B” aqui em Porto Alegre, se ali em Canoas eles estão juntos? Hoje, não se tem moral para cobrar, porque se permite todo tipo de aliança. O próprio governo Lula contribuiu muito pra isso. Que partido não está no governo Lula hoje?

    Lucas – Não está porque não quer.
    Rosane – Não está porque não quer. E a oposição é totalmente incompetente, porque sempre viveu agarrada ao poder. Vamos pegar o caso do DEM, por exemplo – que eu prefiro chamar de PFL, porque continua com cara de PFL –; que partido é esse? O DEM viveu sempre no poder, não tem prática de oposição. Estão totalmente perdidos, tontos. O PSDB também não sabe fazer oposição, porque já nasceu para um projeto de poder – e o conquistou, ficou oito anos. Os dois juntos, então, não sabem o que fazer, pegam qualquer bobagem e acham que aquilo vai causar a maior repercussão do mundo. Batem, batem, batem naquilo, e o Lula lá em cima... A oposição não sabe se comunicar com o povo.

    Leandro – Coisa que o Lula faz muito bem.
    Rosane – Ele faz com maestria. Não digo que tudo que o Lula faz é correto, pelo contrário, tenho grandes restrições a muitas coisas que o governo dele faz, mas ele se comunica muito bem com a população, sim. Ele fala a língua das pessoas. E aí a oposição fica achando que esse caso do grampo da Abin vai repercutir, vai atingir o Lula... Não vai. Até porque está todo mundo de saco cheio de corrupção. Isso não é legal, mas as pessoas pensam “ah, tem mais é que grampear mesmo!...”. Toda esta falta de sintonia faz o Lula surfar numa onda de popularidade que eu nunca vi presidente nenhum surfar.

    Leandro – E a questão do financiamento de campanhas? Eleger-se é muito caro, e os candidatos sempre aceitam contribuições de empresas. O financiamento público seria uma solução para acabar com essa “troca”, esse “eu te patrocino e depois te cobro”?
    Rosane – Eu gostei do tempo verbal que tu usaste: futuro do pretérito. Seria. Sou tentada a achar que sim. Acaba-se com esse negócio de que o empreiteiro financia campanha esperando algo em troca. Acaba-se com a história de que o candidato pede um pouco mais do que precisa, aí depois sobra dinheiro e ele faz um investimentozinho para resolver sua vida. Ótimo. Por outro lado, pergunto: como isso pode funcionar, se ninguém garante que não haverá uma soma do público com o privado? Que além desse ‘público’, que todos nós pagaremos, não haverá também um ‘privado’, pra aumentar os recursos? Outra: quem garante que os candidatos só recebem dinheiro pra financiar campanhas? Tem gente que recebe porque é corrupta, mesmo. Estes, então, vão continuar recebendo, pra defender os interesses daquele seu financiador, que não é o de campanha, é o financiador da sua boa vida. E há outras controvérsias: como será usado o financiamento público? Vai dividir uma quantia entre os mil e poucos candidatos? O partido dará mais dinheiro aos candidatos com mais chances, e menos aos outros? Será voto em lista? Voto em lista é uma idéia interessante de fortalecimento dos partidos, mas, por outro lado, ela traz embutida uma idéia perigosa: a de ficarmos sempre com os mesmos políticos. Quem gerenciaria a lista é quem administra a máquina. Então, não nos livraríamos nunca de certos políticos.

    Lucas – A mídia tem apontado um desencanto do eleitorado com a classe política, como falamos há pouco. Mas eu me pergunto: de certo modo, este ‘desencanto’ não é bom? Não é saudável que haja um ceticismo em relação aos políticos, que os eleitores não embarquem em qualquer discurso que eles ouvem?
    Rosane – Há um lado bom, e outro extremamente perigoso. O bom é este: sendo mais céticos, seremos mais vigilantes. Não engoliremos qualquer papo, ficaremos mais alertas. Mas tenho medo de que isso vire o fio, e daqui a pouco as pessoas comecem a achar, por falta de conhecimento, que bom mesmo era no tempo da ditadura. Muita gente pensa que naquela época não havia corrupção. E quem viveu aquele período sabe que não era assim. Isso se deve muito à enorme deformação que há nas nossas escolas hoje. Meu filho tem 17 anos, está terminando o ensino médio, e não tem noção real do que foi a ditadura. Tudo passa muito batido nas escolas. E ele está numa escola boa, de qualidade. Os amigos dele freqüentam escolas do mesmo nível e estão no mesmo grau de desinformação. Para daqui a cinco anos, um menino desses achar que democracia é uma droga porque todos roubam é um passo. Porque falta esta memória, este contato com o passado. A escola não faz o papel de mostrar que a pior das democracias é melhor que qualquer ditadura. Ainda não inventaram nada melhor do que democracia. Me assusto quando saem essas pesquisas do tipo “você prefere a ditadura ou a democracia?” As pessoas, sem nenhum preparo, nenhuma noção, respondem: “ditadura”. Porque há essa idéia de que, se a imprensa não divulgava corrupção, é porque não havia. Não se divulgava porque não era permitido! Com a censura, tudo passava. Nós nos chocamos aqui no estado com o Detran, com os 44 milhões desviados. Mas quanto foi desviado naquelas grandes obras do período militar? Quanto foi na Ponte Rio-Niterói, por exemplo, em valores de hoje? Não temos noção dessas coisas. Meu medo é de que fiquemos tão críticos, que acabemos chutando a classe política sem ter o que pôr no lugar.

    Leandro – E o voto obrigatório? Sabemos que falta conscientização aos eleitores, que não temos uma população educada para exercer o direito do voto, embora existam campanhas televisivas, por exemplo, que tentam estimular as pessoas a votar com consciência. Em alguns lugares do país, o voto ainda é barganha, troca de favores. É o caso do Rio, onde há lugares em que os políticos não conseguem entrar, porque neles o voto é uma moeda de troca. O voto facultativo não seria uma solução para tudo isso?
    Rosane – Eu acho que voto facultativo não muda nada. O problema é anterior a esse: é educação. Enquanto não tivermos educação, tanto faz. Se o voto for facultativo, quem irá votar? Os mais conscientizados? Não. Quem faz curral eleitoral hoje, sendo voto obrigatório, fará quando não for obrigatório também. Quem garante que esses caras que fazem seus currais nas favelas do Rio, por exemplo, não “encherão as kombis”, como se diz, para levar o eleitor pra votar? Isso se muda com educação, não com o fim da obrigatoriedade. No presente, não ia mudar nada. Prefiro que se deixe obrigatório, e que a gente só saia disso depois que tivermos mudado o outro lado. Senão, combateremos as conseqüências, sem atacar as causas.

    Leandro – É educação na escola, como você falou antes. Começa lá.
    Rosane – É, é deixar o aluno mais tempo na escola. Mais anos na escola e mais tempo durante o dia para as crianças. E também não é só questão de quantidade de horas, mas de qualidade de ensino. Hoje, as crianças saem da escola sem saber o mínimo. Estes testes internacionais mostram que nossos dados são absurdos, horríveis. E não só na escola pública, também na escola privada. Nós temos uma educação que se deteriorou, e isso começou lá na época do regime militar, tempo em que tanta gente diz que a educação era melhor. Que é isso... Foi na ditadura que se acabou com várias coisas que havia e se instalou esse ensino de quinta categoria que temos hoje, em que os alunos não aprendem, os professores não ensinam...

    Leandro – Era outra realidade, também. Naquele tempo, eram menos alunos, e tal... Mas é como você disse: foi quando se acabou com uma série de coisas.
    Rosane – Acabou-se com qualquer referência. Eu peguei essa época de transição, estou falando com conhecimento de causa. Pessoas mais velhas do que eu comentam que, na escola, estudavam francês, latim... Eu não tive nada disso. Quem pegou a transição, pegou os professores sem saber ainda pra onde ir. Até acho que, hoje, alguns aspectos melhoraram. A minha filha, na sétima série, está aprendendo coisas que eu nunca aprendi, porque simplesmente meus professores estavam perdidos. O ensino atual é de má qualidade porque começou a ser estragado lá atrás. E isso não é algo que se resolva assim, num piscar. Acho que uma das melhores coisas que o governo Yeda fez foi instituir uma avaliação dos alunos – e quando eu falo isso me acusam de ser defensora da Yeda... Como pode o Cpers (Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul) se recusar a que os meninos sejam avaliados na escola? Tem que saber se estão aprendendo ou não. Eles dizem que não se pode avaliar os alunos porque os professores ganham mal. Bom, se pensarmos assim, nunca saberemos em que patamar está a educação no Brasil. O governo federal também tem instituído vários mecanismos bons de avaliação. O ENEM, por exemplo, eu acho maravilhoso. Tem que saber que estes garotos estão saindo da escola sem aprender. Ou aprendendo menos do que deveria, sem saber escrever direito...

    Lucas – Pode ter certeza de que muita gente entra na faculdade sendo analfabeto funcional.
    Rosane – Eu tenho certeza absoluta disso.

    Leandro – Inclusive jornalistas...
    Rosane – Inclusive jornalistas...

    Leandro – Eu e o Lucas viemos conversando sobre isso...
    Rosane – Uma vez, eu estava conversando com uma professora que corrige provas de vestibular, e ela disse: “tu não acreditas no que tu lês nos textos”. Eu disse: “não, isso não pode ser assim...” Aí ela me mostrou as redações... eu não acreditei no que eu vi.

    Lucas – As pessoas pensam que é invenção do Jô Soares... (risos)
    Rosane – Pois é!... Os textos eram um negócio assim que... sinceramente, minha filha não teria feito uma redação daquelas quando ela estava na terceira série. E eram pessoas que passaram no vestibular! Neste caso, era uma faculdade de educação, além de tudo. Isso já faz uns quatro ou cinco anos. Imaginem: hoje estas pessoas devem estar dando aula (risos)! Era uma faculdade dessas que têm muitos cursos com vagas sobrando, então todo mundo passa no vestibular. É essa educação que estamos oferecendo à atual geração.

    Leandro – E atualmente há esse tal de EAD, Ensino à Distância, que também é uma fábrica de dinheiro...
    Rosane – Acontece muita falcatrua com esse ensino à distância, sim. Há muitas deformações. Uma faxineira de escola, por exemplo, tem um avanço na carreira, ganha cerca de 30% a mais, quando conclui um curso superior, mesmo que depois continue sendo faxineira. Então ela faz um curso à distância em que ela tem uma única aula presencial, aos sábados. No ‘resto’ do curso, ela não precisa nem ligar o computador, como deveria ser. Recebe umas apostilas para ler em casa, faz uns trabalhinhos, e no final ganha um diploma!...

    Leandro – É o cúmulo do absurdo. Existe uma proliferação de escolas e faculdades em EAD hoje em dia, que não temos nem idéia...
    Rosane – E não é só graduação. Pós, também. Hoje em dia, há a indústria da pós-graduação... É um absurdo.

    Lucas – Mas vamos adiante nas perguntas...
    Rosane – Vamos. Educação é um assunto fascinante, poderíamos conversar a tarde inteira...

    Lucas – Bom, vamos falar um pouco de jornalismo político, então. Um assunto delicado, mas inevitável: alguns imaturos acusam a Zero Hora de ser antipetista. O que você responde a essas pessoas?
    Rosane – Esta é uma fama profundamente injusta. Quando vou a faculdades e ouço isso dos estudantes, eu os desafio a me mostrar, por A+B, que nós fazemos uma cobertura antipetista. Peço uma prova, para podermos discutir em cima de uma base. E eles não encontram. Um dia, na PUC, uma menina me disse: “ah, na eleição do Fernando Henrique, apreenderam a ZH porque ela fez uma pesquisa a favor dele”. É verdade que apreenderam a Zero Hora, mas sabe por quê? Porque a campanha do FHC inseriu, naqueles apedidos, que são propaganda, um anúncio de uma pesquisa. Pagaram por aquilo, botaram um anúncio, a juíza entendeu que aquilo era equivocado e mandou apreender. Por uma questão comercial, não editorial.

    Leandro – Aquilo foi um tremendo marketing contra. Muito usado até hoje...
    Rosane – Tremendo. A gente não teve nada. Tanto que só serviu pra uma coisa: hoje, há uma norma interna na ZH que proíbe aceitar estes anúncios, estes apedidos de candidatos, com resultado de pesquisa. Agora não teremos mais esse problema. Eu trabalho aqui há 16 anos, sou responsável pela editoria de política, e me orgulho de nunca ter tido nenhuma condenação pela lei eleitoral. Tivemos alguma de dano moral, por erros que cometemos aqui, mas muito pouca coisa, porque somos muito criteriosos. Essa história de antipetismo não se sustenta. Mas vem outro e diz: “ah, mas teve a pesquisa ‘tal’, em que a ZH disse que Fulano ia ganhar, e ganhou o outro”. Ok, teve. Nós não fazemos pesquisa, nós compramos essa maldita pesquisa do Ibope, que é o instituto mais conhecido do país. Pesquisa erra? Erra, infelizmente, e a gente paga uma conta por isso. Mas eu durmo com a consciência absolutamente tranqüila de que não favorecemos um partido ou outro. Agora tenho o blog, canal de comunicação mais direta com o público, e é muito engraçado. Um dia, eu publico uma foto da Maria do Rosário ao lado da Dilma Rousseff, e os leitores enchem de comentários dizendo “a Rosane é petista, assume de uma vez...”. Depois eu escrevo algo a favor da Yeda – como a busca pelo equilíbrio das contas, por exemplo, que é chato mas necessário fazer –, aí vem alguém e diz: “ah, a Rosane é governista”. Aí eu falo mal da Yeda por causa do episódio da compra da casa – em que ela, a meu ver, se comportou mal, deveria explicar mais –, e vem alguém e diz: “ah, você está desrespeitando a governadora”. O ônus do meu trabalho é esse: é levar este tipo de crítica. O blog renderia uma tese. Todos os rótulos que as pessoas me põem ali... Mas enquanto vier rótulo de todo lado, tá bom... (risos)

    Leandro – Mas não se preocupa, blog é assim mesmo. Muita gente entra pra xingar quem escreve...
    Rosane – Mesmo antes de ter o blog, eu falava isso pras pessoas, e elas achavam que eu estava fazendo marketing pessoal, de independência. Durante as eleições, eu fazia pastinhas com as cobranças que eu recebia das assessorias dos partidos. Vinha cobrança do PMDB, do PT, do PP... todas no mesmo nível, dizendo que estávamos desfavorecendo os candidatos deles. Eu falo sempre: os partidos no poder, ou na disputa pelo poder, se comportam todos do mesmo jeito. Querem que demos notícias favoráveis ao candidato deles e desfavoráveis ao adversário. E só assim tu serás considerado imparcial. Mas eu não esquento com isso. Pra mim, essa é uma fama injusta que não se sustenta na realidade. Simplesmente.

    Lucas – E esses mesmos “críticos” afirmam que a crise política no governo Yeda arrefeceu, de certa maneira, porque a ZH parou de publicar denúncias.
    Rosane – Outra bobagem. Em primeiro lugar, nenhuma crise dura indefinidamente. A crise no governo Yeda, claro, foi muito mais aguda enquanto durou a CPI, porque uma CPI existe para fustigar. No tempo do mensalão também foi assim: parecia que o Lula nunca mais se elegeria nem síndico do prédio. Aí terminou a CPI – que é um palco de disputa política –, a coisa amainou e o Lula foi reeleito. Eu acho que este governo aqui será de muita crise, até o fim, pois há muito despreparo político para lidar com a crise, mesmo. Mas o esfriamento não é por nossa causa. As pessoas às vezes perguntam: “por que vocês não falam mais das denúncias?” Bom, jornalismo é notícia, é preciso ter uma coisa chamada ‘gancho’. Estamos esperando fatos novos. Também perguntam: “por que vocês não falam mais do Macalão?”. Porque não tem fato novo do Macalão lá na Assembléia. Claro, estamos sempre querendo saber o andamento do processo. Quando pintar uma coisa nova, a gente publica. Perguntam: “por que vocês não estão falando da compra da casa?” Porque não tem fato novo. Claro que, de vez em quando, a gente recupera, vai atrás pra ver o que está acontecendo. Mas os fatos também são tão dinâmicos que um se sobrepõe ao outro. Quando saímos de um escândalo, já vem outro. E nós temos que acompanhar. Mas eu realmente não esquento a cabeça com essas coisas que dizem...

    Lucas – Você falou dos rótulos que nos colam às vezes. Vou fazer uma pergunta que parece ampla e boba, mas que, hoje em dia, no Brasil, ao se falar de jornalismo político, adquire um significado importante: como é fazer crítica política? Pergunto isso, porque o nosso atual presidente, por exemplo, não é exatamente uma pessoa receptiva a críticas. O Lula fica irritado quando é criticado e chega a culpar a imprensa por fatos negativos. Afirmou no início do ano que a ministra Matilde Ribeiro caiu por causa da perseguição da mídia – e não por ter usado o cartão corporativo para cobrir gastos pessoais... Hoje, no Brasil, o “debate” – bem entre aspas, mesmo – está muito maniqueísta: se algum jornalista critica o governo, é logo tachado de “direitista-reacionário-golpista”. Crítica política ficou muito difícil de fazer, porque sempre que você analisa um assunto alguém vem e te coloca um rótulo. Mas a questão é que ninguém quer ser golpista, ninguém quer derrubar o governo. Só o que se quer é que o governo funcione, não é?
    Rosane – Absolutamente. Eu sou a primeira a me rebelar quando, por qualquer coisinha, aparece um pateta e diz: “impeachment!”. Impeachment é algo muito sério! Não se pode sair por aí defendendo impeachment por qualquer coisa. Teve gente querendo o impeachment da Yeda. Eu disse: “peraí, este é um governo cheio de problemas, que tem muita explicação para dar; mas defender impeachment?...” Isso é que é golpismo. Como no mensalão: não era o caso de tirar o Lula. Impeachment é muito mais sério do que isso. As pessoas são muito irresponsáveis, de modo geral, ao ficar dizendo “precisa ter isso, precisa ter aquilo”. Eu não acho difícil fazer crítica. Se tu te estressares, é difícil, mas eu não me estresso. Porque eu sei que quem está no poder, ou disputando o poder, sempre vai pensar que é injustiçado. É o “coitadismo” que impera na política. Sempre acham que eu estou a favor do Fulano, a favor do Sicrano... Tem gente que diz que eu ganho dinheiro do Lula para não criticá-lo! Sempre que foi preciso criticá-lo, eu critiquei, mas eu também não vou ficar pegando no pé. Tenho horror a isso. E o Rio Grande do Sul tem essa mania: “ou tu és gremista, ou colorado”. E um tem que torcer contra o outro. Eu não sou assim. Não sou petista, nem antipetista. Aqui no estado também se tem essa idéia: “ou se é petista, ou antipetista”. E se não for assim, está errado, porque quebrou o padrão. Mas eu não sou, mesmo. Não tenho amor nem ódio pelo PT. O partido faz uma série de burradas, mas tem acertos que eu respeito. A Yeda também faz uma série de burradas, mas tem acertos que eu respeito. O Rigotto também teve acertos e erros. Pacificou o estado, que vivia nessa guerra “petistas contra antipetistas”; esta foi a parte boa. Mas ele também foi omisso em várias coisas. Então, tem que ter a cabeça aberta. Pra mim, jornalismo político exige uma só palavra, e não é imparcialidade: é independência. Eu não posso fazer opinião e ser imparcial, porque aí é muro, e não dá pra fazer coluna política ficando em cima do muro em tudo. Precisamos ter independência para criticar quando algo está errado e para reconhecer quando algo está certo.

    Leandro – E se a crítica não fizer isso, quem fará?
    Rosane – É. Nosso papel é esse. Eu ganho pra isso. E faço porque tenho convicção. A RBS me dá um espaço de opinião com absoluta liberdade. Se alguém acha que eu faço alguma coisa por ordem do presidente da empresa, tá equivocado. Pegou o bonde errado.

    Lucas – Pensam que ele fica o dia inteiro do seu lado, pedindo: “fale contra, fale a favor...” (risos)
    Rosane – Imagina, ele nem teria tempo... Eu passo 12, 13 horas por dia aqui, dando opinião. Como vou ficar telefonando para o presidente da empresa perguntando: “escuta, eu devo ser contra ou a favor?” Que é isso... Se, na rádio, eu fizer perguntas certas ou erradas, eu faço por mim. E eu pago o preço do meu erro. Se eu cometer um erro de avaliação, corro o risco de perder a credibilidade, que é a pior coisa para um jornalista. Mas eu procuro ser justa em minhas avaliações, mesmo que as pessoas não gostem. Ninguém gosta de ser pressionado na rádio e ter que se expor. Eu arranjo muito inimigo nisso. Este trabalho tem muitos bônus, mas tem o ônus de arranjar bastante encrenca. Muita gente não gosta de mim porque acha que eu devia ser assim ou assado. Pessoas me cobram: “por que você não denuncia tal coisa?” Porque não tenho prova. Não posso publicar o que eu acho. Muita gente pensa que jornalismo político é assim: se passa uma pomba voando, tu pegas e decreta a sentença de morte dela. Não. Nós temos que ter responsabilidade. E eu tenho muita responsabilidade com o que eu publico. Prefiro levar um furo, se eu não tiver certeza de uma informação, a simplesmente publicá-la, jogar a biografia de uma pessoa na lama, e depois descobrir que não era aquilo e ter que pedir desculpa.

    Leandro – É isso. Obrigado pela entrevista.
    Lucas – Obrigado. Ficamos bastante tempo conversando...

    Rosane – De nada. Se amanhã a coluna sair vazia, a culpa é de vocês... (risos).


    lucas.colombo@minimomultiplo.com

    leandro.s@minimomultiplo.com



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