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    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Sans élégance
    05/09/2008


    Você já percebeu, caro leitor, que a elegância está cada vez mais perdendo espaço no mundo e, notadamente, no Brasil? Não? Eu já. “Cantoras” que se preocupam mais com as pernas e com a bunda do que com a voz. Torcedores de futebol fanáticos lançando provocações. Gente que ouve música a todo volume em casa, sem se importar com os vizinhos. Gente mal-educada no trânsito. Homens de 25, 30 anos vestindo camisetas enormemente estampadas e bonés virados para trás, como se fossem adolescentes. Etc. É muito ruim ver toda essa falta de gosto e de educação, mas, quando digo “elegância”, não me refiro somente ao vestir-se bem, ao falar bem, às boas maneiras. Tais qualidades também são importantes, e, repito, é muito desagradável quando alguém não as tem. Mas não se trata apenas de uma questão de aparência, superfície. A elegância que faz mais falta é aquela de espírito, a ‘elegância interior’, que identificamos em pessoas equilibradas, sensatas, com visão apurada de mundo.

    Vejamos a política brasileira. Não é preciso muito esforço para constatar que, nesse campo, a elegância de que tratei no parágrafo acima não se faz presente. Aliás, comparar a deselegância na política com a de outras áreas é covardia. Mas vamos a dois fatos recentes. O prefeito do Rio, César Maia, promoveu a irmã à secretária de estado, depois de o STF proibir o nepotismo no país. Para não ter que demiti-la (ela tinha cargo de confiança), Maia a presenteou com a secretaria de eventos, especialmente criada para ela. Driblou, assim, a proibição do Supremo. E demonstrou a sua falta de sobriedade política ao usar a coisa pública para contemplar interesses privados. Foi deselegante. Falta de sobriedade foi também a que o presidente Lula exibiu, semanas atrás, ao chamar de “babacas” os “estudantes ricos” que protestaram contra o aumento de 12 para 18 no número de alunos por professor nas universidades federais. “O babaca rico que já estudava não queria que o pobre tivesse a chance”, afirmou Lula. Opor ricos a pobres é uma visão política arcaica. Não aceitar críticas é imaturidade. E se referir a uma parte da população que ele governa como “babaca” é um comportamento que não se espera de um chefe de estado. Estes sintomas todos não deixam dúvida: Lula sofre de deselegância política.

    E elegância política, o que é? Aqui no Brasil, estamos tão acostumados à ausência dela que demoramos um pouco para identificar a presença. Mas vamos lá para cima do mapa-múndi. Vamos aos Estados Unidos. Semana passada, Barack Obama foi oficializado candidato do Partido Democrata à presidência daquele país. No último dia da convenção do partido, Obama proferiu um discurso bem pensado, detalhando algumas de suas propostas e fazendo críticas ao candidato republicano, John McCain. O democrata subiu o tom contra o adversário, insistindo que McCain representa a continuidade das políticas de George W. Bush. Em nenhum momento, porém, fez ataques pessoais. Não chamou o republicano de asshole ou algo do gênero. Mesmo em queda nas pesquisas, manteve a elegância. Assim como Hillary Clinton, sua oponente nas prévias. A senadora reconheceu a derrota para Obama e declarou apoio incondicional a ele, procurando unir o partido – afinal, a disputa é entre democratas e republicanos, e não entre partidários de Obama e partidários de Hillary. Ela foi pragmática, foi elegante. E, no início desta semana, Obama novamente manifestou elegância política ao ser indagado sobre o que pensava a respeito da gravidez da filha adolescente de Sarah Palin, vice de McCain. Respondeu simplesmente que se tratava de um assunto particular, “fora dos limites” da eleição. Poderia ter tirado proveito político do caso, já que o eleitorado conservador (mais próximo dos republicanos) não vê com bons olhos o fato de uma postulante à vice-presidência do país ter uma filha de 17 anos grávida e solteira. Mas não. Obama evitou comentar o assunto. Foi elegante.

    Mas isso foi nos Estados Unidos. Na política brasileira, os exemplos de elegância são raros. O mesmo, contudo, não se pode dizer da cultura. Temos, felizmente, muitos artistas elegantes, no sentido que estou apresentando neste texto. João Gilberto, por exemplo, mostrou seu canto elegante ao público dos shows que ele, elegantemente, aceitou fazer em São Paulo e no Rio de Janeiro, no mês passado, em virtude do cinqüentenário da bossa nova. Caetano Veloso e Roberto Carlos também tiveram atitudes elegantes ao reunirem-se para, no mesmo embalo das comemorações à bossa, fazerem um show em homenagem a Tom Jobim – com todas as restrições que se possa ter ao Roberto, o fato é que ele foi elegante por ter aceitado cantar um repertório tão diferente e tão mais refinado que o dele. Falando em bossa nova, o filme “Os Desafinados”, de Walter Lima Jr., traz a atriz Cláudia Abreu em mais uma atuação elegante. Marília Pêra e Fernanda Montenegro também são atrizes elegantes. Fabrício Carpinejar faz uma poesia elegante. Flávio Damm, uma fotografia elegante. A Fundação Iberê Camargo e o Santander Cultural são dois elegantes espaços para artes visuais, em Porto Alegre. No jornalismo, também temos exemplos de elegância: o colunista Daniel Piza, do Estadão. O pessoal do Manhattan Connection, do canal GNT – Lucas Mendes, Caio Blinder, Lúcia Guimarães. O blogueiro Sérgio Rodrigues. Colunistas Élio Gaspari, Dora Kramer, Mirian Leitão. Millôr Fernandes e seu humor inteligente. Elegantes são, também, esses colegas do Mínimo Múltiplo: Leandro, Flávio e Deise, responsáveis, criteriosos e articulados. Todas essas pessoas são elegantes porque são sóbrias sem serem frias, não são adeptas nem do exagero nem da pequenez, resistem aos extremos. Elegância é isso: dizer muito com pouco, ser denso sem ser chato, ter timing, ter discernimento, e não se deixar levar por idéias feitas. Não aderir a todos os modismos, mas também não se tornar uma ‘ilha’, isolada, desligada do que acontece no mundo. Sobretudo, elegante é quem pensa com a própria cabeça.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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