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    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Sobre Lula-lá
    30/05/2008


    (Foto: AE)


    Lembro-me bem das eleições de 2002. Eu estava começando a faculdade de Jornalismo, e, no meio acadêmico, era forte a torcida para que Lula fosse eleito presidente. Lula-lá, brilha uma estrela – ouvia-se em coro. Eu, que sempre desconfiei da palavra de políticos, de qualquer partido, olhava com estranheza para aquela adesão em massa ao discurso do PT. Aquele entusiasmo, aquele montão de gente com adesivo do Lula colado na camisa, na pasta, no pára-brisa do carro me parecia muito esquisito. Sempre quando uma massa humana se move para o mesmo lugar, eu olho e acho tudo muito estranho. Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues (com o perdão da citação de frase tão batida). Como era possível todo o mundo aderir assim a um político, sem uma avaliação pragmática de suas idéias, sem analisar se o Brasil realmente, nas mãos dele, começaria a ir para frente? Era uma postura política imatura.
    A mim, não convencia o discurso populista de Lula e o fato de seu simbolismo valer mais que suas idéias – a concepção de que, por ter vindo ‘do povo’, Lula sabia mais do que ninguém das reais necessidades do Brasil sempre me pareceu questionável. Então quer dizer que, por ser ‘do povo’, ele teria, automaticamente, um atestado de competência? É claro que não. Afirmo com franqueza que, em 2002, Lula foi eleito sem que eu conhecesse suas idéias para a educação no Brasil. O discurso dele era vago em muitos aspectos (no econômico, inclusive), mas, de fato, seu simbolismo foi maior e ele venceu.

    O tempo passou... e eu continuo pensando a mesma coisa. Minhas restrições a Lula e ao seu jeito de fazer política estão mais vivas do que nunca. No governo, Lula se revelou um emblema do que há de mais arcaico na política brasileira: o populismo, o fisiologismo, a vista grossa com a corrupção, o compadrio, o descaso com a educação, o apego ao poder. Tudo o que o PT condenava quando estava na oposição. Dos casos de corrupção registrados em seu governo, Lula insiste em afirmar que não sabia de nada – o que, se for verdade, demonstra que ele é um autista, e, se for mentira, demonstra que é um cínico; então, de qualquer jeito, é um comportamento incompatível para o cargo que ocupa. Do bom desempenho da economia, vangloria-se como se fosse o único responsável, sem considerar que o Brasil vai de carona num crescimento que é mundial. E, pior, exalta esse crescimento sem criar um cenário favorável para que ele perdure, com investimentos pesados em educação e infra-estrutura (o PAC só veio depois de quase cinco anos de governo). O presidente comemorou, justificadamente, o investment grade, dizendo que a política econômica do Brasil foi finalmente reconhecida como séria, mas não enfatizou que essa política – Lei de Responsabilidade Fiscal, metas de inflação, câmbio flutuante – foi iniciada no governo anterior, e que ele apenas a seguiu, aprimorando alguns pontos. Os bons números da economia, além disso, não significam que o Brasil não corre nenhum risco de se contaminar por crises econômicas internacionais. O risco ainda existe, mas seria menor se, por exemplo, o governo reduzisse despesas, em vez de aumentá-las. Afinal, na gestão Lula o estado brasileiro foi inchado como poucas vezes na História do país (ou, para usar uma expressão do presidente, “nunca na História desse país...”), o que aumentou muito os gastos com a máquina pública. E as reformas tributária e trabalhista, que dinamizariam a economia, onde estão?

    A lista de equívocos é grande. A popularidade do presidente, contudo, segue inabalável. Quase 70% dos brasileiros aprovam seu desempenho, conforme pesquisa do instituto Sensus. Parece que o discurso que Lula adotou desde o mensalão – ‘não sabia de nada, fui traído por meus companheiros que cometeram erros, mas isso tudo é preconceito da elite conservadora que não engole o sucesso do meu governo’ – colou mesmo na cabeça da maioria da população. E isso é desolador. Ao jogar a culpa na elite, afirmar que “governa para os pobres” e que “só a elite me vaia”, Lula apenas cria uma arcaica polarização entre ricos e pobres no Brasil. O presidente sempre revive a ladainha dos ‘dois Brasis’: o da elite preconceituosa versus o dos trabalhadores oprimidos. Tudo isso depois de o mundo ter dado voltas e voltas, de o Brasil ter conquistado estabilidade econômica...

    E ainda querem comparar Lula com Barack Obama! Um não tem nada a ver com o outro. Enquanto Lula divide, Obama agrega. O provável candidato democrata à presidência dos EUA prega, justamente, que não há um ‘Estados Unidos negro’ e um ‘Estados Unidos branco’ – há somente os Estados Unidos da América. Obama não divide o país, une. Sabe que bater na tecla das ‘diferenças raciais’ (entre aspas, porque o conceito de raça não tem valor) é coisa do passado. Ele olha para frente. E por isso é um candidato tão bom. Agora me digam: Lula vai, um dia, chegar para a população e dizer “Vamos todos juntos, ricos e pobres, caminhar para o futuro; vamos todos abraçar um projeto para o Brasil”, como é de se esperar de um Chefe de Estado digno dessa denominação? Seria pedir demais.

    Para Lula, é mais fácil continuar insistindo na lengalenga do país dividido. Foi o que ele fez no final de março, num discurso em Pernambuco. Defendeu Severino Cavalcanti, o inacreditável ex-presidente da Câmara dos Deputados, ao afirmar que ele (Severino) foi vítima do preconceito das elites paulistas e paranaenses, que, não suportando vê-lo em cargo tão alto, aliaram-se à oposição para removê-lo do posto – a mesma oposição que, segundo Lula, havia elegido Severino para presidir a Câmara e depois, percebendo que ele estava do lado do governo, passou a fritá-lo. Na platéia, o ex-deputado balançava a cabeça, em sinal de aprovação à fala do presidente, e chegou até a se levantar para receber os aplausos que irrompiam naquele momento. Que cena triste. Que teoria da conspiração ridícula. Para começar, Severino foi eleito presidente da Câmara, no início de 2005, com votos da oposição, sim, mas não só. Muitos deputados governistas votaram nele por não simpatizarem com Luis Eduardo Greenhalgh, candidato do governo. E ele não foi removido do posto, não sofreu cassação, mas, sim, renunciou. Lembram? Depois de se revelar um desastre completo na presidência da Câmara, ao defender idéias atrasadas e falar absurdos, Severino viu-se obrigado a abandonar a vida de deputado quando veio à tona a denúncia de que cobrava propina do dono do restaurante da Câmara para renovar a concessão do estabelecimento. Saiu, portanto, por renúncia, e não por ter sido derrubado.

    Do alto de seus índices de popularidade, porém, Lula pode se dar ao luxo (ops, luxo não, porque luxo é coisa de elite-reacionária-golpista que quer derrubar o governo) de falar e fazer o que quiser. O presidente já perdoou os deputados mensalistas; declarou que o atual senador e ex-presidente Fernando Collor, ‘por sua experiência’, poderia fazer um ‘trabalho extraordinário’ no Congresso; afirmou que a ministra Matilde Ribeiro saiu do governo por causa da ‘perseguição’ da oposição e da mídia. E ainda defendeu Severino Cavalcanti, dizendo que sua ascensão e queda foi obra da oposição e da elite. Na série “Como passar a mão na cabeça de um safado”, que há 508 anos tem alta audiência no Brasil, Lula é, realmente, um dos personagens mais marcantes. E da doença “Falta de visão para o país e apego a velhas práticas”, que acomete a maioria dos políticos brasileiros, é um dos principais agentes propagadores.

    P.S.: e um dia após defender Severino, lá foi Lula, num fórum também em Pernambuco, discursar ao lado de Hugo Chávez. Chamou o colega venezuelano de “pacificador” da América do Sul, por sua atuação na crise entre Colômbia e Equador. Morri. Se fechar embaixada, mobilizar tropas para a fronteira e falar em “guerra sul-americana” é ser pacificador, eu não sei de mais nada.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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