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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Desejo e frustração
    15/05/2008


    (Imagem: Herbert Bender)


    O inglês Ian McEwan é um dos mais festejados escritores contemporâneos. Concorreu quatro vezes ao Booker Prize, principal prêmio literário do Reino Unido, e ganhou por “Amsterdam”, em 1998. Seu romance “Reparação”, de 2002, foi altamente elogiado pela crítica e recebeu, recentemente, uma versão para o cinema, em “Desejo e Reparação” (para variar, a tradução estragou o título ao colocar um ‘desejo’ nada-a-ver ali no meio), filme indicado a sete Oscars.

    Em 2007, McEwan lançou “Na Praia” (Companhia das Letras, 128 p.), presente em todas as listas de melhores livros de ficção do ano. Eu ainda não o havia lido, por causa de outros textos que estavam na fila. Mas afinal o fiz. A frase inicial dá uma boa idéia do tom da novela e da história que está por vir: “Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível. Mas nunca é fácil.” O ano é 1962, e os jovens são Edward e Florence, formados, com carreiras profissionais promissoras e, hum, recém-casados. Eles se sentem bem quando juntos, compartilham as mesmas posições políticas e têm interesses em comum. O amor que sentem um pelo outro é suficiente para que se casem. Vão à praia de Chesil passar a lua-de-mel. Na noite de núpcias, porém, tudo dá errado. O sexo não acontece, por total falta de jeito, e os noivos acabam travando uma discussão repleta de acusações e ressentimento.

    Talvez seja a análise mais óbvia, mas é impossível não fazê-la: “Na Praia” é o retrato de uma época. Uma época em que falar sobre sexo, e até praticá-lo, era algo carregado de vergonha e de culpa. Um tempo em que ser franco na exposição de inseguranças e fraquezas era bastante complicado. E ainda, nas palavras do próprio McEwan, um tempo em que “ser jovem era um estorvo social, um sinal de irrelevância, uma condição ligeiramente embaraçosa para a qual o casamento era o começo da cura” (para Edward e Florence, no entanto, o matrimônio não se apresenta como a cura, mas, justamente, como a explosão do problema). É impressionante pensar que esses padrões de comportamento seriam abalados no final daquela década, com a revolução sexual e de costumes que tornaria os anos 1960 os mais efervescentes do século 20.

    McEwan escreve detalhadamente sobre sexo com delicadeza, sem cair na vulgaridade, o que é bastante difícil. E é competente na exploração do mundo interior de seus personagens. À narração da noite de núpcias do casal, entremeia flashbacks que explicam as angústias de Edward e Florence. Eles são jovens cheios de dúvidas, que vão tentar uma vida a dois carregando o peso de suas histórias pessoais e da moral repressiva da época em que vivem.

    Se é verdade a afirmação de alguns críticos de que McEwan poderia ter feito mais com a história e com os personagens que tinha em mãos, também é verdade que o livro é arrebatador na parte final, com a discussão dos noivos na beira da praia, depois da desastrada tentativa de consumar o casamento. As últimas páginas, em que o autor apresenta os rumos que Edward e Florence tomam depois do fracasso da relação e o jeito com que lembram um do outro, valem por todo o livro. “Na Praia” vale também pela perspicácia de McEwan, que nos brinda com frases como: “Passava os dias numa disposição de sala de espera, impaciente pelo início de sua vida”; ou “Seu ouvido musical era tão reduzido, que ela era incapaz de reconhecer uma única melodia, mesmo se fosse o hino nacional, que só conseguia distinguir do Feliz Aniversário pelo contexto”; e ainda “(...) a camisa de Edward em parte encobria em parte revelava sua ereção, como um lençol sobre um monumento público” e “Não é fácil perseguir verdades tão duras descalço e de cuecas”.

    Ian McEwan completa 60 anos em junho. Ao lado do americano Philip Roth, forma a dupla dos maiores autores de língua inglesa da atualidade. Lançamento de livro dele é sempre um acontecimento literário. E isso é muito bom – afinal, quais são os escritores que, hoje em dia, ainda fazem de suas obras verdadeiros acontecimentos? Volte sempre, McEwan.


    Nunca mais Bergman

    Nove meses depois, ainda não me conformei com a morte de Ingmar Bergman. Triste. Lamentável. Seu cinema de sondagem psicológica não deixou herdeiros. Bergman criou cenas impressionantes, como a do jogo de xadrez entre o cavaleiro e a Morte, em “O Sétimo Selo” (1956), e a dos maus-tratos do padrasto cruel para com os personagens-título de “Fanny e Alexander” (1982), dois memoráveis filmes seus. Igualmente marcante é a fotografia de “Gritos e Sussurros” (1973), em que há predomínio da cor vermelha, simbolizando o sangue, a tragédia.

    Dias atrás, revi “Persona”, filme em preto-e-branco que o diretor sueco lançou em 1966. As atrizes são duas de suas preferidas: Liv Ullmann, em seu primeiro trabalho com Bergman, e Bibi Andersson. Liv, como sempre, está excelente, interpretando uma atriz de teatro que subitamente deixa de falar. Bibi é a enfermeira que lhe faz companhia numa casa de praia, aonde elas vão para descansar e desenvolver a terapia. Enquanto tenta fazer a atriz voltar a falar, a enfermeira conta seus dramas pessoais para ela e, nisso, revira sentimentos guardados a sete chaves. No filme, o uso de closes é intenso. Trata-se de uma característica do cinema de Bergman, que gostava de explorar a expressividade dos atores. E eles faziam a sua parte: Liv, por exemplo, dá aula de expressão facial e corporal em “Persona”. Sua personagem só fala três vezes. Nos outros momentos, chora, sorri, assusta-se, comove-se, choca-se. E a câmera de Bergman faz amor com ela. Dois grandes artistas em simbiose. Um deles não existe mais. Que pena.


    Atenção, cinéfilos!

    Acabo de inaugurar, no blog, uma seção intitulada Classic Movies, para publicar resenhas de... bem, o nome já diz.

    O primeiro texto é sobre “O Anjo Azul”, filme de 1930 dirigido por Josef von Sternberg e protagonizado pela diva Marlene Dietrich. Não deixem de ler e comentar.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com




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    Comentários dos leitores


    Belo olhar sobre a obra. Na Praia é bem melancólico. É datado, sim, mas também é atual, essa falta de comunicação ainda existe. Os problemas sexuais ainda são tabu.
    Tenho um ranço com o McEwan. Acho muito "mulherzinha" (Serena é um exemplo que tem a mesma pegada "sensível"). Um problema é que seus livros ficam muito lentos pela metade, mas não consigo parar de ler. De um modo geral, ele tem um ritmo e um estilo "elegante". E os finais são, geralmente, muito bons.
    Então, o cara é bom e pronto! hehe
    Lucas Barroso