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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Festival de Besteiras que Assola o País
    09/05/2008


    (Imagem: Herbert Bender)



    Tomo a liberdade de recuperar aqui o título da mais conhecida obra do jornalista e escritor Sérgio Porto (famoso Stanislaw Ponte Preta) para denominar um dos meus grandes projetos na coluna: fazer um levantamento de algumas bobagens ditas e feitas nessepaís, seja por quem for. O Brasil, muitas vezes, parece ser a terra do nonsense (em bom português). É imensa a quantidade de críticas desembasadas, desculpas esfarrapadas e projetos absurdos que aparecem por aqui. Como sempre devemos lutar pela elevação do nível intelectual da população, é importante que identifiquemos essas besteiras pululantes ao nosso entorno, para podermos agir no cerne do problema.

    O “FEBEAPÁ " do Palimpsesto começa hoje e segue nas próximas colunas. Apresento agora as primeiras contribuições. A relação abaixo é uma coletânea das grandes bobagens com as quais fomos brindados nos últimos 12 meses (não pude deixar de fora o inigualável 2007). Lá vai:

    “Ele é totalmente igual ao meu cartão particular. Como o local tem problema de iluminação, usei por engano.”
    - Jorge Pinheiro, fiscal da Superintendência Federal de Agricultura e Abastecimento da Bahia. Ele pagou despesas em uma boate de strip-tease com cartão corporativo e deu essa desculpa estapafúrdia, pensando que todos somos ingênuos e cairíamos nessa (“Ah, bom, por que não explicou antes?...”). Da próxima vez, tente uma melhor, fiscal.

    “Ser parlamentar é muito ruim, meritíssimo. Você entra ali de manhã, sai à noite e não vê a vida passar. Sábado à noite, às vezes você tem que ir a um casamento abraçar cem pessoas que nunca viu na vida. E às vezes você está em casa, um eleitor seu morre e você tem que botar um terno e ir ao enterro. Ser parlamentar não é simples, embora a imprensa ache que é um paraíso.”
    - Ex-deputado Carlos Rodrigues, reclamando da vida de político, em depoimento no processo que apura a existência do mensalão. Realmente, o ex-deputado Rodrigues, que assumiu ter recebido R$ 150 mil do valerioduto, está certíssimo. A vida de um parlamentar brasileiro é duríssima!!! Trabalha-se arduamente de terça a quinta para que essepaís vá pra frente, não se ganha 15 salários por ano (além do 13º, outros dois, como ajuda de custo), nem apartamento em Brasília pago pelo contribuinte. Tampouco se ganha auxílio-moradia, passagens de avião, verba indenizatória e verba para manutenção do gabinete, e não se tem uma penca de assessores! De fato, a reclamação procede. A vida de deputado é tão difícil que até nos faz achar que o saque de R$ 150 mil que Rodrigues fez no Banco Rural não é tão grave assim...

    “É engraçado porque já vi Margaret Thatcher ser tantas vezes reeleita e Helmut Kohl ficar tanto tempo. Nunca vi ninguém perguntar se ter vários mandatos sucessivos era ruim.”
    - Presidente Luis Inácio Lula da Silva, defendendo o colega Hugo Chávez, que teve sua proposta de reeleição indefinida para presidente aprovada pelo Congresso venezuelano, mas depois rejeitada pela população, em referendo. Em primeiro lugar, Inglaterra e Alemanha – países dos quais Thatcher e Kohl foram primeiros-ministros, respectivamente – têm regimes parlamentaristas, e nesse sistema o chefe de governo não é pleno de poderes. Ele é escolhido pelo partido que tem mais votos no parlamento; pode ser reeleito algumas vezes ou ser destituído do cargo com facilidade. O primeiro-ministro fica, o tempo todo, sujeito à aprovação dos parlamentares. Em segundo lugar, nem Thatcher, nem Kohl mudaram as regras ‘do jogo’ para permanecerem no poder, como quis fazer Chávez. E em terceiro (e último), eles governaram por período determinado, e o que Chávez queria era ficar no poder por tempo indeterminado.
    Bem que Lula poderia ter apresentado um argumento mais sólido, não acha, leitor?

    “Não sei por que fica-se reclamando de falta de democracia na Venezuela. O Hugo Chávez já promoveu vários plebiscitos, ganhou várias eleições, fez diversos referendos...”
    - Presidente Lula (de novo), simplificando o conceito de democracia. Democracia não é só isso, presidente! É realização de eleições e plebiscitos, sim, mas também é respeito à oposição, respeito às minorias, respeito às regras para a alternância de poder e liberdade de imprensa – tudo o que Chávez está minando na Venezuela.

    “Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal”.
    - Trecho do decreto do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, com o qual ele proibiu o uso da forma verbal pelos funcionários de seu governo. Como escreveu o colunista Daniel Piza, do Estadão, “eu não sabia que a língua portuguesa está sob o comando de políticos”. Sinceramente, o governador não tinha mais o que fazer? O fato de o gerúndio ser empregado, muitas vezes, de modo errado não significa que ele deve ser abolido. É preciso, isso sim, aprender a usá-lo corretamente. Mas pelo menos uma coisa o ex-senador Arruda (aquele do “escândalo do painel”, lembra?) conseguiu com esse decreto estapafúrdio: reapareceu na mídia.

    “Enquanto a culpa não está formada mediante um título (sentença) do qual não caiba mais recurso, o acusado tem o direito natural de fugir”.
    - Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, ao afirmar que não se arrepende de ter concedido um habeas corpus para Salvatore Cacciola, em 2000, que possibilitou ao ex-banqueiro sair da prisão, no RJ, e fugir para a Itália. Cacciola, para quem não lembra, era diretor do Banco Marka e foi responsável por uma operação (uma falcatrua, melhor dizendo) que lesou os cofres públicos brasileiros em mais de um bilhão de reais, quando da desvalorização do real, em 1999. Condenado à revelia a 13 anos de prisão, o ex-banqueiro se valeu da cidadania italiana para refugiar-se em Roma, até ser preso no principado de Mônaco e entrar em processo de extradição para o Brasil. Mas, é claro, segundo o ministro Marco Aurélio, todo criminoso tem o direito de fugir.

    “A desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher (...). O mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem!”
    - Edilson Rumbelsperger Rodrigues, juiz mineiro, absolvendo um réu que batia na mulher. Com essa sentença, o juiz contestou a Lei Maria da Penha – e também comprovou que precisa de um terapeuta, urgente.

    “Na minha juventude, fui obrigado a gostar de Ingmar Bergman. Se não gostasse, era marginalizado. Secretamente, eu o detestava. Hoje eu posso dizer: embora o homem seja fascinante, seus filmes são chatíssimos.”
    - Escritor Paulo Coelho, que provavelmente assiste aos filmes de Bergman com o mesmo olhar de quem assiste a “Homem-Aranha”. Paulo tem todo o direito de não gostar das narrativas arrastadas do Bergman, mas precisa ter em mente que esse é, justamente (e viva a rima), o estilo dele. A lentidão narrativa faz parte da estética de Bergman, um grande cineasta que empregou suas inquietações existenciais como matéria-prima para a criação de dramas perturbadores e intensos, com fotografia, roteiro, direção de atores e de arte impecáveis. Mas Paulo Coelho deve achar que esses elementos fazem de um filme uma chatice sem fim, e não uma obra de arte.

    “Vamos sair daqui. Isso aqui tá muito chato”.
    - Uma moça falando com um rapaz, na saída da exposição de um dos maiores artistas da História da Arte, Goya, no MARGS (Porto Alegre). O que será que ela prefere? Um show de axé music? Essa deve ser leitora do Paulo Coelho.

    “A eleição do Cristo Redentor é justiça que se faz.”
    - Presidente Lula (sempre ele), sobre a eleição da estátua do Cristo Redentor como uma das new seven wonders. Cá entre nós: um monumento sem importância histórica nem estética deveria mesmo estar numa lista que inclui Macchu Picchu, Muralha da China, Coliseu, Taj Mahal, Chichén Itzá e ruínas de Petra? É, no mínimo, questionável.

    “É a prosperidade do país, né?”
    - Ministro Guido Mantega, para quem a crise nos aeroportos brasileiros era resultado do aumento na procura por viagens aéreas. Simples assim.

    Mas a nossa Ministra do Turismo, claro, é hors concours. Não preciso citar novamente aqui a recomendação dela para os passageiros que enfrentavam atrasos, cancelamentos, falta de informação e de respeito nos aeroportos do país, não é? Essa já é histórica. É igualmente histórica a homenagem que o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia fez àquela canção dos Mutantes: “Sabotagem! Eu quero que você se... top, top, top!”. Em meio à tristeza, comoção e revolta pela maior tragédia aérea da história do país, realmente o seu gesto foi de uma grandeza e de uma sensibilidade extraordinárias. É bom saber que o Brasil está nas mãos de pessoas assim, preocupadas com a população e não apenas com a imagem do governo.

    E então, leitor: qual é a sua contribuição para o Festival de Besteiras que Assola o País? Deixe seu recado no Comente Este Texto, aqui embaixo. E aguarde os próximos episódios.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



    Mais Lucas Colombo
    Soy loco por ti, Latinoamérica - 25/04/2008



    Comentários dos leitores


    Hehehe, muito bom, Lucas, dei várias gargalhadas por aqui, parabéns! A do cartão é a melhor! Leonardo Fleck