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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Por um jornalismo cultural menos pobre
    23/04/2008


    O Brasil já teve ótimos espaços para a cultura na imprensa. O Quarto Caderno, do jornal carioca Correio da Manhã, e o Caderno B, do Jornal do Brasil, ambos surgidos nos anos 1950, são bons exemplos. Aqueles que hoje são os maiores jornais brasileiros, a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, só começaram a dispor de espaços exclusivos para tratar de cultura na década de 1980 – com, respectivamente, o caderno Ilustrada e o Caderno 2. Aqui no RS, em 1953, o Correio do Povo lançou o Caderno H, hoje extinto. Em 1965, a Zero Hora criou o Segundo Caderno, ainda em circulação. Esses cadernos preencheram uma lacuna, a de reunir as matérias sobre cultura num espaço específico do jornal.

    Visando a conquistar um número maior de leitores interessados no tema, esses cadernos surgiram com a missão de centralizar críticas, resenhas e reportagens sobre arte. Mesmo que a cultura, por ser uma área ampla, pudesse ser tratada nas outras editorias, como Política, Geral ou Internacional, a cobertura de assuntos ligados a artes visuais, literatura, música, teatro, cinema e ‘fenômenos’ culturais passou a ser incumbência dos cadernos de cultura. Por exemplo: a Festa da Uva, de Caxias do Sul, ou a Jornada Nacional de Literatura, de Passo Fundo, poderiam ser tratadas pela editoria de Economia, devido ao retorno financeiro que esses eventos geram para suas cidades. Mas para abordar toda a dimensão dessas festas, seria necessário um forte acompanhamento dos valores históricos e culturais em jogo, analisando os propósitos, os legados e as contribuições de tais eventos para a sociedade. Esse tipo de abordagem, então, ficou sob responsabilidade dos cadernos de cultura. E eles até que cumpriam bem seu papel.

    Hoje em dia, porém, o que se observa, de modo geral, é a banalização dessas seções ou cadernos culturais. Chateia a falta de um trato mais sério nas questões abordadas, pois o que se vê, salvo raras exceções, são matérias superficiais, baseadas numa agenda e em acontecimentos pautados por assessorias de imprensa, interessadas em divulgar seus eventos. O problema não é o número de páginas – alguns jornais destinam 10% de sua estrutura para a seção cultural –, mas a abordagem e o conteúdo. Os cadernos de cultura dos jornais brasileiros são praticamente todos iguais. Neles, o que predomina são as colunas sociais, horóscopo, quadrinhos, agenda cultural e programação de televisão e cinema. Faltam espaços para articulistas ou colunistas que possam discernir e analisar as diferentes questões culturais, e também para reportagens que tratem das várias nuanças dos acontecimentos da área. Será que basta, para esses cadernos, somente informar quais são os shows da semana ou resumir filmes que estão em cartaz? A sensação de superficialidade aumenta quando constatamos que a maior parte das matérias dos chamados cadernos de cultura são ‘notas’ ou ‘notícias’. Reportagens, que poderiam esclarecer e instigar o leitor, através do aprofundamento das informações, são raríssimas.

    O jornalismo cultural produzido no Brasil tende a apenas informar os acontecimentos da agenda cultural, eximindo-se da análise desses acontecimentos. Isso traz sérios riscos de que os cadernos de cultura tornem-se meros instrumentos de publicidade dos eventos noticiados, mesmo que de forma imperceptível. Alguns veículos banalizaram seus conteúdos de tal forma, que fazem perguntar: é o jornal que está promovendo a agenda cultural, ou é a agenda cultural que promove o jornal? De qualquer maneira, ambas as opções não servem para um jornalismo que se pretenda sério.

    A atividade do jornalista cultural, quando complexa e intensa, concede a esse profissional um status de mediador das referências culturais, através de sua sensibilidade na interpretação e divulgação dos fatos. Mas, para alcançar essa condição, é necessário que os jornalistas culturais tenham liberdade para desenvolver seus trabalhos. Conforme o jornalista argentino Jorge Rivera, autor do livro “El Periodismo Cultural” (Paidos, 1995), o jornalista cultural necessita de alguns atributos e conhecimentos imprescindíveis, como, é claro, ter bom domínio de arte e cultura, o que permite relacionar e identificar fenômenos, épocas, autores e obras significativas, tanto num âmbito local, como universal. No entanto, indo além desse pensamento de Rivera, é bom frisar que não se qualifica um jornal apenas com bons profissionais. É necessário, também, haver espaço e oportunidade para que os jornalistas intensifiquem seu trabalho, coisa rara nas seções de cultura.

    Já o jornalista Daniel Piza, colunista do Estadão, afirma no livro "Jornalismo Cultural” (Contexto, 2004) que o jornalista de cultura deve instigar o leitor, estimulando-o a ter opinião. Segundo Piza, esse é o único meio de vencer os preconceitos que a chamada ‘indústria cultural’ propaga, seja a serviço de uma ideologia ou fruto da expressão direta do gosto da maioria. O colunista comenta que, muitas vezes, é mais cômodo para o jornalista tratar de mortes e aniversários de artistas, em vez de pesquisar assuntos novos sobre esses nomes ou reavaliá-los. Nessa prática que Piza condena, também se inserem as listas de melhores filmes e livros, que se tornaram mania nas redações, sem, muitas vezes, virem acompanhadas de análises críticas sobre as obras.

    A quem caberá preencher esse vazio de informações e análises culturais na imprensa? Aos sites, talvez, ainda que de forma modesta. Existem muitos veículos on-line por aí fazendo um belo e aprofundado trabalho. Já nas seções de cultura dos jornais, o que se verifica, na contramão de outras editorias, é uma superficialidade, uma escassez de boas análises, que precisa ser revertida. A cultura está sempre gerando fatos interessantes e instigantes – só que os jornalistas também precisam de criatividade e talento para acompanhá-los...


    leandro.s@minimomultiplo.com



    Comentários dos leitores



    Leandro, concordo com tudo o que escreveste. Jornalismo não pode ser feito no piloto automático. Tem que haver um mínimo de discernimento, de senso crítico e de busca pela qualidade na informação e na opinião. Senão, acaba-se embarcando em qualquer coisa que pareça (pareça, eu disse) inteligente e/ou 'bonita', seja na cultura, na política ou no esporte. Só o conhecimento nos torna capazes de reconhecer o que é bom e o que não é. Também acho que público para jornalismo de qualidade sempre haverá, como prova o sucesso de alguns sites como o Digestivo Cultural (embora este já tenha tido fases mais maduras) e de publicações como a Piauí e a Bravo! (esta também já teve fases melhores). Essa idéia de que os leitores só se interessam por textos curtos e diretos e não têm paciência para matérias mais sofisticadas, sei não...
    Mas fiquemos tranqüilos, irmãos. O Mínimo Múltiplo está aqui para alegria daqueles que gostam de um jornalismo cultural mais perspicaz... :)
    No mais, o livro do Piza é uma referência no assunto. Tenho-o em alta conta também. Boas sacadas!
    Lucas Colombo - o editor!