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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Especial Terra em Transe - crise política

    Noturno em Brasília
    Lucas Barroso
    31/03/2016




    “No final do evento, artistas e intelectuais entoaram, em coro, as palavras de ordem: “Não Vai Ter Golpe”. Segundo os organizadores, mais de 700 pessoas compareceram ao local. Entre elas, a atriz Letícia Sabatella e o escritor Fernando Morais.”

    Corta para a redação do Jornal da Globo. William Waack veste um leve sorriso. Ele conhece esse sorriso. Ele recorda o dia e o horário em que viu esse risinho torto pela última vez. As olheiras dele seguem pesadas, mas Collor tem a impressão de que o apresentador do telejornal parece mais feliz. Depois de muito falar nos protestos contra o governo, que solicitam o impeachment da presidenta Dilma, o bloco do telejornal se encerra com a promessa de exibir os gols da rodada. Collor não suporta. Desliga a televisão. Vai para o quarto. Com seu peso, a cama range. Sua esposa emite um sussurro sem nexo. Ele tenta não fazer barulho. Tenta não acordá-la.

    São duas da manhã e ele não tem sono. Collor se levanta. Liga o abajur. “O que houve?”, pergunta a mulher. “Nada, preciso de ar”. “Onde cê vai?”. “Não sei... volto logo. Dorme, amor”. E beija a testa dela. Veste qualquer coisa. Desce um jogo de escadas até a garagem. Tira a capa da sua Ferrari. O carro está completamente empoeirado. O caseiro não limpou como ele havia ordenado.

    Quando Collor gira a chave da Ferrari e aciona a abertura dos portões da Casa da Dinda, o caseiro surge esbaforido. Quase se atira sobre o veículo. “Patrão! Patrão!”. Collor para e abre a janela do carro. “Tudo bem com o senhor?”. Ele faz um sinal de positivo com a cabeça e diz que o homem não precisa se preocupar.

    Collor não sabe para onde ir. Está rodando na estrada Parque Paranoá sem destino. Collor chega a cogitar a hipótese de pedir um hambúrguer no drive thru do McDonald’s. Que bobagem, ele pensa. Liga o rádio do carro. Na Antena 1 toca Dire Straits, Money for Nothing. Collor fura três sinais vermelhos consecutivos. Brasília insone não tem graça. Brasília quase nunca tem graça.

    Ele imagina como seria o país se existissem as tais redes sociais em 1992. Imagina, em pleno movimento “Fora Collor”, uma manifestação a favor da Democracia com a chamada Não Vai Ter Golpe. Collor, em seu delírio, também imagina a maioria dos intelectuais, professores e artistas unidos por sua permanência. A figura de Fernando Morais ressurge. O escritor está em um palanque, discursando com ira. Pelos lábios de Fernando Morais dá para ler seu nome em câmera lenta: C O L L O R

    Imagina outras tantas pessoas influentes tecendo longos artigos em jornais, revistas e sites. Essas pessoas, em seu sonho, tomam as principais avenidas do país em marcha, alertando que não é possível extrair o presidente sem passar por cima deles. “Mexeu com Collor, mexeu comigo!” é a mensagem que estampa a camiseta de um homem na multidão.

    Os intelectuais – Collor está apegado a eles em seu desvario –, sem qualquer necessidade de uma orientação do seu governo, diriam para todo mundo ouvir que é inadmissível não se respeitar o desejo das urnas em um Estado Democrático de Direito, que a Justiça não deveria, mas é parcial, e que os “cara pintadas” são manipulados pela mídia.

    Sua elucubração se encerra. Collor continua só em sua Ferrari silenciosa. Agora, está parado, esperando um semáforo abrir. Ele se arrepende de, lá em 1992, não ter inventado aquela coisa de Não Vai Ter Golpe. Como é que nenhum marqueteiro seu pensou nessa sacada? E, no fim das contas, adiantaria? Ele continuaria no poder com todo esse cenário imagético? Até hoje reflete sobre as possibilidades. Entretanto, são coisas que não valem a pena serem rememoradas. Perder o poder é uma dor terrível. Collor tinha a sensação de que, nessa noite, doía mais.

    Vem-lhe, então, a imagem de Letícia Sabatella. Ele se pergunta quantos anos ela devia ter quando o chutaram da presidência da república. Uns 20, arrisca. Qual a idade dela hoje? Uns quarenta e poucos? Não faz ideia. O fato é que ela continua linda. Cabelos cacheados. Traços finos no rosto. Gestos e vestes elegantes. Engajada politicamente. Uma mulher forte. Ele sempre gostou da Sabatella. Em seu delírio, Collor queria que ela gostasse dele também e pensou que a única coisa certa a fazer, nessa noite de tristes lembranças, era encontrá-la. Onde ela estaria, neste momento? Rio de Janeiro, São Paulo? Brasília certamente não. Um assessor conseguiria seu número. Collor ligaria e ela diria sim.


    @lsbarroso


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