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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Mickey é um rato limpinho?
    02/09/2014




    Duas notícias me fizeram pensar em como não podemos escapar da sistêmica apropriação de tudo o que pode ser revertido em lucro. Seja lucro social, de capital, audiência, cliques e likes ou qualquer outra coisa que o ser humano transforma em moeda. A primeira foi a de uma ação de um grupo humorístico da Califórnia, EUA, para ajudar uma ONG que combate a mutilação de meninas. Os integrantes deixaram, na rua, um brinquedo sexual à disposição das mulheres, e fotografaram e filmaram as participações. Assim, para proteger meninas de terem o clitóris removido, prática comum em alguns países africanos, expõem outras a esse tipo de cena sexista. A cada 100 mil visualizações do vídeo no Youtube, cinco dólares vão para a ONG.

    A segunda notícia, veiculada numa revista especializada, foi sobre o primeiro beijo gay da publicidade brasileira, exibido por TVs da Paraíba em maio. Outra ONG – a campanha foi lançada por uma – e outra ocasião em que não consegui embarcar. O que me perguntei, diante de ambos os casos, foi: como não pensar que a ação pode ter sido feita só para promover a marca dos brinquedos sexuais ou o grupo de humor? E se a campanha da ONG contra a homofobia promoveria mais a liberdade de afeto ou a própria ONG e a agência envolvida? Deixar esses pensamentos de lado é como acreditar que todos os ratos são limpinhos como o Mickey Mouse.

    O combate à mutilação, fato antigo, conhecido e deplorável, fica em segundo plano, já que as fotos de alguém se divertindo com um brinquedo sexual chamam mais a atenção. E é mais fácil comprar os brinquedos e assistir aos vídeos do que se engajar e se envolver com uma questão complexa como a das meninas mutiladas (o recente “Desafio do balde de gelo”, mania no Facebook, leva à mesma conclusão). Além de ser de mau gosto expor meninas livres a usar sua feminilidade, a campanha parece um convite a uma fuga: fazer uma doação e, assistindo ao vídeo com as meninas, se livrar de pensar sobre as mutiladas. É a apropriação da tragédia de terceiros por uma máquina fria e obediente à facilidade do escândalo e do abuso da imagem.

    Já a segunda notícia, a do primeiro beijo gay da publicidade nacional, diz respeito à apropriação do afeto entre pessoas do mesmo sexo para ser usada também como moeda de troca. A agência faz a campanha, lança o velho tema para promover uma ONG e consegue fazer muita gente acreditar que o mundo está melhorando. Mas há tempos o Mickey Mouse não consegue divertir o mundo sozinho.

    Parece que, melhorando mesmo, estão as habilidades de agências, apresentadores de TV e comunicadores de lucrarem com temas sociais, como os direitos individuais. Na prática, a lei não muda; gays continuam com direitos anulados por leis, comissões e bancadas religiosas que, quando querem, sabem muito bem aquietar ou despertar os ânimos no Congresso Nacional, e só. O direito se perde num jogo de avanços e retrocessos que deixa, é claro, tudo como sempre esteve.

    O mais declarado sintoma desse esquema é o pedido de uma das emissoras por uma versão da tal propaganda sem o beijo gay, para levar ao ar antes das 21h. É uma lógica que escapa ao consumidor final da campanha, que, nesse momento (o mesmo em que parece que tudo está melhorando), não percebe que o beijo virou moeda. Se a toda hora a publicidade, as novelas, os filmes e o que mais for que “represente” ou “imite” a realidade (a tentativa é causar a identificação com o tema) reproduzirem um beijo gay, as empresas perderão essa moeda e esse trunfo: apenas vez ou outra darão a impressão de que se ajustam ao direito e à vida de todos, sem excluir, ignorar ou passar a mão na cabeça e dizer “aceitamos” e, por isso, “somos conscientes”. Quando o beijo acontecer sem o “barulho” de hoje – em que é tratado como algo proibido, errado ou incomum –, as agências, ONGs e toda a mídia perderão esse trunfo. E terão o trabalho de encontrar mais criatividade para causar o impacto que as sustenta. Caso fosse o último beijo gay da publicidade, e não o “primeiro”, aí eu acreditaria.

    Se a mídia, a ficção e a imprensa abordassem o beijo como ele é, um beijo e não um beijo gay, sem escândalo e sem tentarem empregá-lo como moeda, o que aconteceria? Provavelmente as tentativas de lei que boicotam os direitos dos homossexuais, a violência contra eles e o despreparo da polícia e da Justiça para punir agressores ficariam mais à mostra e revelariam com mais facilidade a anormalidade desses setores (e não a do simples beijo), suas conivências com a limitação da liberdade. O entorpecimento do Estado em garantir segurança para todos serem o que são é que teria de ser tratado como doença, e merecer mais campanhas para seu melhor funcionamento. Poderia, enfim, ser percebida a necessidade de mutilar o preconceito e a comercialização que contamina tudo, sistemicamente. Mas vivemos num país que coloca apenas o dedinho nessa água ainda gélida em que se afogam direitos. Quando assistir a essas propagandas e campanhas, leitor, ligue o alarme crítico: quem lucra com isso e o que realmente move os envolvidos? É a sugestão que deixo.


    @rafaelfaisjorn


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