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    Letra A
    by Rafael Fais

    Livros sobre o mensalão - II
    31/05/2013


    Frequentemente, o historiador e cientista político Marco Antonio Villa faz análises do cenário político nacional em programas jornalísticos na televisão. Em seu livro “Mensalão – o julgamento do maior caso de corrupção da história política brasileira”, porém, deixa mais à mostra seu lado de historiador do que de analista político. Ao contrário do jornalista Paulo Moreira Leite, no primeiro livro comentado nesta coluna, o professor da Ufscar mais relata detalhadamente os fatos relativos ao escândalo e seu julgamento, do que os debate.

    As informações que Villa expõe são, na maioria, baseadas no noticiário impresso e eletrônico. Sua interpretação é a de que o chamado Mensalão foi “um escândalo de corrupção que chegou até o Palácio do Planalto” ou “a história de uma tentativa fracassada de tomada do Estado” pelos envolvidos condenados no Supremo Tribunal Federal.

    Em partes intercaladas ao texto (“recessos”), o livro traz uma minuciosa cronologia do desenrolar burocrático e noticioso dos fatos. Os conteúdos, juntos, reconstituem com eficiência o cenário em que nasceu e se desenvolveu o escândalo, protagonizado por políticos que se diziam combatentes da corrupção e dos meios consolidados de se fazer política e campanha política no Brasil (duas coisas que, no país, parecem impossíveis de serem dissociadas).

    A leitura dessa cronologia e dos detalhes da dificuldade de instalação da CPMI dos Correios (o começo da apuração pelo Congresso dos fatos denunciados por Roberto Jefferson e pela revista Veja, em 2005), relatada pelo deputado paranaense Osmar Serraglio, colaboram com o entendimento de como aconteceram e foram ganhando publicidade os desvios que revelaram o funcionamento e o modo de pensar e agir de parte do Congresso Nacional.

    Avançar pelas páginas, no entanto, é uma tarefa por vezes enfadonha, pelo excesso de detalhes tanto do material selecionado e editado nos “recessos” quanto do texto em si. O leitor fica sabendo, no que diz respeito especificamente ao julgamento, como cada um dos advogados dos réus se apresentou e se despediu, e qual citação fizeram ao falar para os ministros do STF. Algumas vezes esse enfado se torna quase cômico, tão apurado e exigente é o olhar de Villa. Ele sugere, por exemplo, ao advogado do deputado João Paulo Cunha, Alberto Toron, que citara um trecho do “Manifesto Antropofágico”, de Oswald de Andrade (“Perguntei a um homem o que é o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. (...) Comi-o”.), uma citação de outra parte do texto – mais adequada ao caso, segundo sua opinião: “Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. Se estiver num dia bom, o leitor pode rir um pouco. E esse artifício faz bem a um livro cujo tema é um tanto burocrático e que esmiúça as ações por meio de falas e mais falas dos políticos acusados, dos acusadores, da defesa, de jornalistas favoráveis ou não à condenação dos réus e da Procuradoria responsável pela denúncia.

    Essa sugestão de citação é uma das passagens do texto em que Villa expõe sua opinião sobre o que é tratado na Ação Penal 470. Logo no início, ele critica a demora de seis meses do ministro Ricardo Lewandowski em revisar o processo, “uma das mais longas revisões da história”, e especula sobre os motivos dessa espera. “O ápice das manobras de coação da Corte foram as reuniões de Lula com ministros ou prepostos de ministros. Se o Brasil fosse um país politicamente sério, o ex-presidente teria sido processado”, comenta o autor, que afirma ainda que Lula “conhecia detalhadamente cada uma das 50 mil páginas sem ter lido uma sequer. Conhecia porque foi o principal beneficiário de todas aquelas ações”. É de se perguntar, entretanto, como o leitor que não tem opinião formada sobre o assunto, e que não acompanhou a CPMI e o julgamento, irá concordar com Villa, já que ele não conta como sabe que o ex-presidente tinha conhecimento do esquema.

    O aspecto positivo do detalhamento excessivo do volume é propiciar ao leitor uma ideia ampla do que foi o Mensalão. Compra de votos? Quem comprava o quê? E para quê? De onde vinha o dinheiro? Villa busca explicar tudo, e também recupera os argumentos emitidos no julgamento por defesa, Procuradoria e ministros do Supremo, tornando sua obra um arquivo importante, em meio aos escritos que tentam esclarecer o caso.

    Quando o historiador cita o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, em uma de suas argumentações sobre José Dirceu, surge mais uma definição para o que veio à tona em 2005: “Ele foi o mentor do ‘mensalão’, do esquema que envolvia recursos públicos para obter uma base parlamentar fiel ao governo”, no entendimento do Procurador. A depender das falas dos advogados de defesa no julgamento, porém, saber a origem do dinheiro movimentado no esquema fica mais complicado para o leitor. O que na letra do sambista é vendaval, na voz dos defensores vira empréstimo, saque, pagamento de campanha política, pagamento de consultoria, bônus de volume, recursos de fundos de investimento... Os envolvidos tiveram suas defesas bem pagas (Villa fala em 60 milhões, ao todo) para explicar e nomear esse dinheiro, e livrá-los das acusações por terem em algum momento recebido ou fornecido essas quantias.

    Por todas essas características, o livro de Marco Antonio Villa, embora carregue reflexões, consiste mais em uma obra de consulta do que de análise.

    O próximo – e último – livro a ser comentado aqui é “Mensalão – o dia a dia do maior julgamento da história política do Brasil”, do jornalista Merval Pereira. Até lá.


    @rafaelfaisjorn


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