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    Letra A
    by Rafael Fais

    Livros sobre o mensalão - I
    11/04/2013


    As ideias do jornalista Paulo Moreira Leite a respeito do julgamento do mensalão, expostas no livro “A outra história do mensalão – as contradições de um julgamento político”, já são conhecidas, porque veiculadas no blog dele (então no site da revista Época e hoje no da IstoÉ) durante todo o debate no STF sobre a Ação Penal 470. Ler, porém, as “postagens” editadas em livro, este formato precocemente condenado ao fim em razão da inovação dos tablets e do acesso digital a textos, foi, para mim, outra experiência. A primeira reflexão que a leitura me despertou foi, justamente, sobre a influência do veículo (formato) que leva o conteúdo jornalístico até o leitor. Pois, quando li os posts de Moreira Leite na tela do computador, publicados em intervalos de um ou poucos dias, achei as avaliações dele mais ponderadas do que ao lê-las agora no livro, que contém a cobertura toda, inclusive das preliminares do julgamento – os posts vão de 29 de maio a 18 de dezembro de 2012. Poder lê-los juntos, e avançando na leitura quando eu queria, tornou mais intensa a opinião de Moreira Leite. O jornalista condena o modo como o julgamento foi conduzido, discorda das penas e deixa claro, já na capa, acreditar que o Supremo contaminou-se politicamente nas decisões e prejudicou a defesa com trâmites como o não-desmembramento do processo. Os ministros teriam sofrido forte influência da opinião publicada, na visão do autor. E aqui aparece uma questão que pode trazer possíveis mudanças no jornalismo brasileiro, depois desses oito anos, contados desde a denúncia até o julgamento do mensalão.

    O conhecimento público dos eventos relatados na Ação Penal 470 fez surgirem muitos blogs autodenominados políticos e jornalísticos, muitos jornalistas abrirem o jogo sobre suas posições políticas e veículos tradicionais explicarem melhor ou voltarem ao que defendem editorialmente. Desde o escândalo provocado pela denúncia de Roberto Jefferson em 2005, intensificaram-se, por exemplo, os ataques entre os jornalistas críticos e os favoráveis ao governo petista, principalmente na internet. Os leitores mais perspicazes puderam ver, com mais frequência e menos sucesso, as tentativas de “editorialização” do noticiário (quando se coloca opinião disfarçada na notícia). Num texto de notícia, os fatos deveriam prevalecer: a fidelidade a eles, sem opiniões, é regra básica das publicações que se pretendem sérias. Já a opinião deve vir explicitada como tal. O jornalismo brasileiro ficou mais aberto ao escrutínio do leitor depois da cobertura do Mensalão? Penso que sim. A cobertura também proporcionou reflexões sobre o fazer jornalístico por parte dos próprios profissionais de imprensa.

    Note que estamos tratando de um livro que aborda um fato ligado a Política e Justiça, mas o jornalismo quase toma conta, porque a obra foi escrita por um jornalista e porque Moreira Leite explora, dentre outras, a tese de que a baixa qualidade da imprensa escrita e falada no país foi uma das responsáveis pela politização do julgamento. Para ele, o entusiasmo da sociedade com a suposta moralização advinda da condenação dos “poderosos” envolvidos no caso já levaria cores políticas ao STF. Se a população sabe do Mensalão por meio da imprensa, deduz-se que essa mais serviu para empolgar do que para informar os leitores e cidadãos. Mas como aferir esse efeito da imprensa sobre cada um dos brasileiros, e o calor da população sobre a temperatura dos ministros do Supremo? Afinal, a fonte da informação deles é outra: a denúncia preparada pelo procurador Roberto Gurgel, em linguagem técnica, mas acessível a especialistas como eles.

    Vários outros pontos do desenrolar do julgamento são apontados por Moreira Leite como impeditivos de um debate mais balanceado entre defesa e acusação. Dentre esses, “as falhas da denúncia como a de reconhecer que o que aconteceu foram atos semelhantes aos que são praticados por outros partidos, mas dessa vez ‘como o maior da história’ por envolver compra de votos, consciência, suborno”, afirma. Por trás do raciocínio de que o Mensalão foi um caso único, segundo Moreira Leite, está uma tentativa de redefinição do debate político. “Incapazes de oferecer respostas à desigualdade, à má distribuição de renda e outras dificuldades estruturais que mobilizam a maioria da população brasileira, os partidos que fazem oposição ao governo Lula e ao PT tentam conduzir o debate para o terreno de valores éticos”, escreve.

    Mas, se parece empenhar-se demais em apontar para um desequilíbrio entre defesa e acusação, Moreira Leite também apoia a opinião do deputado Osmar Serraglio, relator da CPMI dos Correios, para quem “não se conseguiu avançar tudo o que se pretendia na produção de provas contra Dirceu e outros acusados”. Faz sentido para o jornalista que a liderança política de José Dirceu, então recém-saído do Ministério da Casa Civil, atrapalhou a investigação (o ex-ministro, contudo, foi condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha). “Também acredito que os deputados da bancada governista não ajudaram a investigar seu próprio governo”, registra. Mas diz isso para avalizar a noção da defesa de que são poucas as provas para condenação, e a noção comum de que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo.

    Assim como jornalismo foi o tema da primeira reflexão que o livro me provocou, também foi o de uma lembrança que me veio ao terminá-lo. Em sala de aula, no ano de 2002, nos foi passado um exercício de jornalismo opinativo, sobre o tema aborto. A turma foi dividida em dois grupos, e os alunos contrários à prática deveriam redigir um editorial favorável, para entender melhor e investigar as bases da opinião diferente da sua, e vice-versa. Pois quem acredita na existência do Mensalão e concorda com as condenações e com o modo como se deram deve ler o livro de Paulo Moreira Leite para, justamente, conhecer e entender os pontos de vista daqueles que, feito o autor, pensam que o julgamento foi injusto e favoreceu a acusação. Ele não está sozinho nisso, como sabe qualquer brasileiro com acesso a revistas e internet. Aliás, em política, seja qual for a posição, ninguém nunca está sozinho.

    Na próxima coluna, tratarei de outro livro sobre o caso: “Mensalão”, do historiador Marco Antônio Villa. Até lá.


    @rafaelfaisjorn


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