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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    O tempora, o mores
    03/04/2013


    Frequentar restaurantes e shoppings é também uma boa oportunidade de constatar quão pasteurizados andam os brasileiros, na aparência e no ‘conteúdo’. Todos parecem os mesmos: mulheres, só de peito siliconado, cabelo alisado e tingido; homens, só saradões, de camiseta grandemente estampada e bermuda. Chegam de carrão, usam oclão e fazem carão. E os assuntos não vão além de conexões de celular, marcas, futebol, cultura pop ou picuinhas familiares. Quem critica esses costumes e valoriza mais elegância, autenticidade e espírito é tachado de arrogante, careta ou patrulheiro, mas Paulo Francis tinha razão, mais uma vez, quando escreveu que a maior de todas as patrulhas é a da mediocridade.

    * * *

    Por falar em Francis, ele muitas vezes se referia à peça “O Rinoceronte” (1959), de Eugène Ionesco, ao justamente apontar contra alguma bobagem do senso comum. De fato, o texto, normalmente catalogado como do “Teatro do Absurdo”, é uma baita metáfora do pensamento de manada e do conformismo. Num vilarejo, pessoas vão, de repente, se transformando em rinocerontes, e os que restam dividem-se entre discutir o evento superficialmente, como se os animais têm um ou dois cornos, ou reclamar da poeira que a passagem deles levanta. Todos, porém, acabam desistindo do tema, voltando para suas vidinhas e acostumando-se à situação – e, por fim, também virando rinocerontes. A certa altura, um personagem nota as ruas tomadas pelos bichos e diz: “Quando eles passam, as pessoas se afastam e depois seguem caminho, como se nada ocorresse.” O protagonista é o único que preza pelo humanismo e não se habitua à ‘rinocerontização’. No fim, exclama: “Me defenderei contra todos! Sou o último homem! Não me rendo!”. Sim, esse recado é atual.

    * * *

    No conto “Um Homem Célebre”, de Machado, o editor das polcas de Pestana justifica assim os nomes ridículos que dá a elas: “Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.” Alguma semelhança com o cenário musical brasileiro de hoje?


    Cinediferenças

    E nos críticos de cinema atuais, quem disse que dá para confiar? Fui ver “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, tratado nos jornais e portais como “um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos”, “uma espécie de Caché (2005) nos trópicos”, etc. E é só mais um desses filmes brasileiros em que o argumento não vira um roteiro, os personagens são unidimensionais e há ideologia no lugar de ideias, sabe?

    * * *

    Nossos vizinhos é que continuam sabendo fazer bons filmes. Do chileno “No”, de Pablo Larrain, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o principal aspecto a ser ressaltado para o público brasileiro não é o mais evidente, o técnico – foi rodado em U-matic, formato de estética semelhante ao das fitas VHS, que se popularizavam nos anos 1980, período em que se passa a história. É justamente o da (madura) construção dos personagens. Prestem atenção, em especial, aos pequenos: numa cena, o publicitário da campanha do “Si”, pela manutenção da ditadura de Pinochet, no plebiscito de 1988, ajuda o colega que dirigia a campanha da oposição a tirar a ex-namorada da prisão. Noutra, a empregada desse, mulher de classe social baixa, diz que votaria pela continuação da ditadura, “de direita”, porque sua vida está indo bem. E em outra, ainda, um comunista dá a entender que prefere o conforto de um táxi a um ônibus. Mesmo o protagonista (Gael García Bernal), filho de exilados, aceita coordenar a campanha do “No” mais pelo ‘desafio’ e pelo cachê do que por idealismo. São todos, enfim, personagens muito diferentes dos apresentados nos filmes ‘sociopolíticos’ brasileiros, em que aqueles dazelite são sempre mesquinhos e preconceituosos e os Lamarcas, Ches e Lulas só faltam caminhar sobre as águas...


    Melhor Produção de Mimimi

    Todo mês de fevereiro, é a mesma coisa:

    Ai, não ligo pra Oscar...”. Também não ligo para quem tenta bancar o jovenzinho-universitário-anti-imperialismo-cultural-americano.

    Ai, Oscar é uma cerimônia provinciana...” – tão provinciana que é assistida por milhares de pessoas no mundo todo.

    Ai, Oscar premia a indústria do cinema.” Pois é, não existe bom profissional algum nessa indústria para premiar!

    Ai, Oscar é injusto, muitas vezes.” Bem-vindo à vida.


    Glossário brasileiro

    Elitista: adj. Toda pessoa que tem mais ideias e mais cultura do que você.

    Amizade: s.f. Aquilo que sempre se deve pôr em primeiro lugar, principalmente nas relações políticas e de trabalho.

    Direitista: adj. Todo aquele que critica ideias de esquerda, mesmo que critique também ideias de direita.

    Esquerdista: adj. Ver "direitista".

    Ironia: s.f. sin.: Ofensa.


    Pátria Amada

    “Ai, o esquema do Marcos Valério começou com o PSDB, em Minas Gerais”. Ok, então isso justifica que tenha sido levado ao governo federal e ampliado, por um partido que sempre se gabou de sua “ética”. Obrigado.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com

    @lucas_colombo



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    Comentários dos leitores


    Vamos à parte objetiva: O Som Ao Redor não foi – e isso que li praticamente tudo a respeito do filme – alçado a “o maior filme brasileiro dos últimos anos” pela crítica e sim muito comentado a partir do burburinho causado pela eleição do filme como um dos 10 melhores de 2012 por Anthony Oliver Scott, do Times.
    Dito isso, à subjetiva: o Som Ao Redor é fantástico. Talvez somente Tomboy, dos filmes da safra recente que tenha visto, consiga dizer tanto com tão poucas palavras e diálogos. Quem viveu ou vive ainda em um bairro periférico de qualquer grande cidade brasileira (e talvez de muito outros países, visto que segurança é tema universal) percebe que a sutileza em que a violência se engendra no nosso cotidiano – e isso transpassa qualquer ideologia. Empresas privadas de segurança – e nem falo de Ruder e STV, mas as milhares de nanicas espalhadas pelo país – detém um poder absurdo. Não sei se moras em POA, mas aqui percebe-se claramente o que o filme grita na tela: a absurda obsessão das pessoas por SEGURANÇA, como se este fosse a única razão de suas vidas, que se materializa na insana medida de um colégio instalar câmeras de segurança DENTRO das salas de aula.
    Fabio Sidrack

    Ok, Fabio, alteração feita para "um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos" (como se lê aqui e aqui), o que não muda muito a percepção de que há oba-oba em torno do filme. No mais, não vejo necessidade de reforçar minha opinião sobre ele, porque você não a atacou; expôs a sua. Deixo o link da única resenha mais cética que li a respeito e que vai mais ou menos na mesma direção do que eu penso: http://criticos.com.br/?p=2738&cat=1. Lucas Colombo

    Gosto muito do críticos.com, mas desconhecia este Luiz Fernando Gallego. Com toda a franqueza, o que ele escreve não é uma crítica, e sim um dossiê. Fico a imaginar alguém que não tenha visto o filme lendo esta legítima "legenda de cego", pois ele entrega cenas inteiras do filme (praxe dos bons críticos: avisar o leitor antes do spoiler). Fabio Sidrack

    No mais, me entristece que não tenhamos por aqui a possibilidade de discutir temas tão importantes do nosso cotidiano - seja através das artes ou mesmo nos veículos de comunicação. Simplesmente TUDO é desclalificado para "visão ideológica", "propaganda partidária", "interesse político". Já não é hora de pararmos com este artifício pra lá de surrado e jogarmos luz sobre o mérito das discussões? Segurança urbana, mudança de espaço urbano, transportes, educação são temas que nos OBRIGAM que os discutamos sem maniqueísmos... Fabio Sidrack

    Fabio: pois a mim também entristece essa mania de sociologia dos críticos e do público brasileiros, que exaltam um filme, livro ou peça por sua suposta “mensagem social” e esquecem que o valor de uma obra de arte não se mede só por isso. Você postou comentários aqui para falar do tema do filme, não para discutir comigo sobre o ângulo com que o diretor aborda tal tema e sobre personagens e narrativa (que reforçam o ‘ângulo’). Para um veículo de jornalismo cultural, não só esses questionamentos que você apontou são importantes. O filme atinge um nervo da sociedade? Na sua visão, sim. Então, adiante: de que modo ele toca? Esse modo é pertinente? No contexto do cinema brasileiro (no caso), o filme contribui com algo? Não temos grande tradição em cinema; O Som ao Redor é um ponto fora dessa curva? É original? O modo como ele conta a história é rico, sem maniqueísmos (como você pede)? Está na altura do que o cinema já fez de melhor? E quanto à ideologia, bem, nem há possibilidade de não falar dela ao se tratar deste filme, porque ele se sustenta numa, sim, e ainda por cima ultrapassada, como tantos outros filmes brasileiros – o que já desconta pontos. O filme opõe ricos a pobres. Só não nota ou não acha importante criticar isso quem está brasileiramente com o nível de exigência baixo. Se você, como eu, não gosta que discussões sejam contaminadas por ideologia ou maniqueísmo, ótimo: diga isso ao diretor do filme. Lucas Colombo

    Respondi sim a quase todos os teus questionamentos. O que me intriga é a "ideologia, ainda por cima ultrapassada", que supostamente tu entende que o filme prega.
    A simples menção de um ex-latifundiário que se torna proprietário de um sem número de terrenos urbanos é o ponto fraco da discussão? Este personagem te parece tão inverosímel assim? Poder econômico em um número reduzido de mãos não me parece, nem de longe, algo ideológico - tampouco, ultrapassado. O capitalismo se sustenta na diversidade de opções, e perde muito quando estas estão por demais concentradas. A história mostra que isso ocorreu, ocorre e ocorrerá por muito tempo, inclusive em países nos quais essa ideologia ultrapassada que tu mencionas foi exercida de modo estatal. De qualquer forma, não me parece que o roteiro demonize Francisco - aliás, o brilho do roteiro é não entregar perfis estereotipados à primeira cena.
    Fabio Sidrack

    Em momento algum eu disse que o filme “prega” uma ideologia. Leia novamente. Disse que o filme se sustenta, está embebido numa, que não consegue não reduzir tudo a uma visão ideológica. Sempre que aparece alguém de classe média ou alta no filme, é para representar o que a sociedade brasileira tem de ruim. Nossa classe média, para Kleber Mendonça, é 100% alienada e egoísta; só existe para consumir e esnoba a vida “das ruas”. Suas casas têm imagens de Cristo nas paredes, e eles riem quando ouvem nomes de bairros pobres... Fiz questão de comentar o No na mesma coluna para enfatizar o contraste entre os dois filmes nesses campos dos personagens e da abordagem.
    Aliás, não escrevi que os personagens de O Som ao Redor são “inverossímeis”: escrevi que são unidimensionais (ou estereotipados, como queira). Em nenhum momento temos alguma explicação, ou indício, para o tédio e a indiferença tão grandes da personagem (de classe média, é claro) que se incomoda com o cão do vizinho, por exemplo. Depreende-se que ela é assim pelo simples fato de...ser de classe média. Francisco, o “ex-latifundiário”, igualmente é um personagem plano. Daria um ótimo vilão de telenovela: não demonstra sentimento ‘bom’ algum, é incapaz de altruísmo, não tem nenhuma consciência - a cena final, com os dois seguranças, não sugere ‘um outro lado’, humano, do personagem; sugere que ele, além de tudo, pode ser um criminoso. Situações e figuras assim existem no cotidiano brasileiro? Não digo que, individualmente, não. Mas por que o diretor não variou mais esse bloco de personagens? Por que não tentou compreendê-los também?
    Os únicos personagens cujos passados (ou algum passado, melhor dizendo) conhecemos são os 'não-elitistas': os seguranças e a empregada do corretor de imóveis. Os ricos não têm sutilezas psicológicas: aparecem somente como seres preocupados em manter o conforto de suas vidas (e se, pra você, o roteiro não “entrega” isso, na primeira ou em outras cenas, sugiro que reveja o filme). Isso é fazer uma abordagem rica, complexa? O alicerce de O Som ao Redor é, sim, uma ideologia de esquerda ultrapassada, que opõe ricos a pobres, vendo nesses virtudes, dignidades, ausentes naqueles. Assistindo ao filme, pensei que a qualquer momento algum personagem parafrasearia Rousseau: “o brasileiro é bom, a elite que o corrompe”.
    Lucas Colombo

    Não percebeste nenhum indício do que leva a personagem que é perturbada pelo cão a ter uma vida tão tediosa? O retrato em tela desta,da empregada e dos seguranças são tão díspares assim? Tratar personagens com determinado perfil psicólógico é sentenciar que "nossa classe média, para Kleber Mendonça, é 100% alienada e egoísta"?
    Finalizo: se toda produção artística mundial tiver que ser analisada com essa caneta ideológica que tu propõe, não haverá mais arte - e sim, propaganda (como os blockbusters e as novelas, forjados na prancheta das pesquisas qualitativas). Abraço e bons filmes!
    Fabio Sidrack

    Na constituição psicológica (ou na falta dela) da personagem, não percebi, não. Se você viu algo, e se viu alguma cena em que o caráter dela ou de Francisco é investigado pelo diretor, a caixa de comentários está aí embaixo. Por outro lado, a cena final, em que os seguranças expõem suas infâncias sofridas para quem talvez seja o responsável por elas (outro problema de narrativa, pois este conflito entre eles só se dá na ÚLTIMA cena), tenho certeza de que você viu. E de que tratamento de personagens você está falando?
    E não fui eu que fui assistir ao filme com uma ideologia a tiracolo (até porque não tenho nenhuma), nem me lembro de ter proposto aqui usar “caneta ideológica”. É o filme que claramente deixa transparecer uma ideologia. Repito: não levar isso em conta, para um crítico independente, é impossível. O próprio Kleber Mendonça, em entrevistas, declarou que pretendia, com o longa, compor um retrato “social” da era Lula (como se lê aqui), pela qual, aliás, nem disfarça admiração (nada contra quem admira o governo Lula; tudo contra obras criativas alicerçadas numa ideia propagada por um partido).
    De fato, há muitas obras de arte que ostensivamente se contaminam por ideologias, de direita ou de esquerda, e geralmente são as piores que existem. Os grandes artistas, os de obra mais duradoura, fogem de reducionismos, sabem que os seres humanos não se dividem entre “mesquinhos e preconceituosos” x “honrados e sofredores”, como O Som ao Redor divide. Poderia te passar uma lista de obras assim, mas sei que você também pode. Abraços.
    Lucas Colombo