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    Letra A
    by Rafael Fais

    Ensaio sobre o Facebook
    14/05/2012



    O Facebook é “uma rede social que reúne pessoas a seus amigos e àqueles com quem trabalham, estudam e convivem”, diz a definição oficial. Sua missão seria a de dar às pessoas o poder de compartilhar e “fazer do mundo um lugar mais aberto e conectado”, nas palavras do seu fundador, Mark Zuckerberg.

    Mas que bom seria se as coisas fossem assim tão simples e determinativas.

    Pelo que se vê do uso que a maioria das pessoas faz dele, o Facebook mais parece uma tumba, um museu de aspirações e catalisador de frustrações, um lugar onde podemos parecer como gostaríamos de ser ou como gostaríamos que os outros nos vissem. Por quanto tempo vamos gostar de acreditar nas peças (usuários) desse museu, em que uma estátua pode se mexer sem que a gente perceba, escrevendo outro capítulo de sua história ou fazendo outra pose, enquanto dormimos ou espiamos a sala (perfil) ao lado?

    Em seu livro “American Vertigo”, o filósofo francês Bernard-Henri Lévy especula que os Estados Unidos são um país onde a tristeza de ter um passado só desaparece com a condição de se reapropriar dele, por palavras e gestos calculados. Orhan Pamuk, turco ganhador do Nobel de Literatura, reforça: “O passado é sempre uma terra inventada”. A reflexão de Lévy, válida não só para os americanos, e essa frase de Pamuk, publicada na própria página do autor no Facebook, fizeram-me pensar justamente na nossa relação com o tempo a partir das redes sociais. Agora, com a Timeline, podemos inventar ou reconstruir nosso passado, rever afetos e desafetos. Nossa biografia, aparentemente, pode ser resgatada, e nossas emoções, revividas com facilidade, ao vermos, por exemplo, as fotos de uma ex-namorada, feliz numa viagem com o atual parceiro. Podemos questionar mais nossas escolhas ao rever uma antiga paquera do colégio que nos ignorava, ou a quem ignorávamos, hoje casada, mãe, parecendo bem-sucedida e com uma vida incrível, exibida em fotos que publica de suas viagens ao redor do mundo. Ou fazer um exercício de imaginação – como seria a vida ao lado dela hoje, se a paquera tivesse ido em frente – ao ver o contrário: alguém que, com seus comentários no “Mural” e fotos, dá conta de uma existência pacata, compartilhada com o marido e os cachorros.

    E o que é um amigo, na era das redes sociais? O conceito de amizade também está mudando. No Facebook, qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo, não só os conhecidos que a ferramenta “Localizar amigos” ajuda a encontrar, pode ser chamada de “amigo”, se aceitar o seu convite. Conforme o Dicionário Aurélio, “amizade” é “sentimento fiel de afeição, apreço, estima ou ternura entre pessoas”. Há tal sentimento, entre todos os seus contatos do Face?

    O que no início, como expôs Mark Zuckerberg, era, justamente, um mecanismo para os alunos da Universidade Harvard se conhecerem e virarem amigos, hoje é usado para outros fins que não apenas o original. Um amigo meu gosta de comentar o quanto é fácil pegar os mentirosos na era do Face. Ele conta que teve recusados seus convites para sair feitos a uma garota porque ela dizia estar sem dinheiro. Mas ele viu que ela fez vários check-ins, o final de semana todo, em lugares onde se paga para entrar. A desculpa esfarrapada, se você tem Facebook ou twitter e gosta de fazer check-in, não funciona mais. Com a internet, a relação do ser humano com a mentira, também podemos dizer, está em xeque. Parece que, tendo uma vida paralela na rede, só se pode mentir “mais ou menos”. Esse gigante torna a vida dos mentirosos mais difícil, e a dos cínicos, mais fácil.

    A ação das redes sociais sobre as relações amorosas, inclusive, igualmente dá o que pensar. No conto futurista “Datum Centurio”, o escritor americano David Foster Wallace apresenta essas relações como tão impactadas pelo uso da tecnologia, que dates (encontros, namoros) precisam ser descritos detalhadamente em verbetes de um misto de dicionário e manual fictício, com o objetivo de explicar para os homens do amanhã o que é uma relação a dois. Há os “soft dates” e os “hard dates”, os encontros sexuais fugazes e os mais profundos, respectivamente. “Interface Genital Procriativa” seria um encontro informal entre um homem e uma mulher. O conto é um dos reunidos em “Breves entrevistas com homens hediondos”, que Foster Wallace lançou em 1999. Já naquele período em que a internet começava a fazer parte da vida das pessoas, o autor, morto em 2008, especulava como seriam as relações humanas com o constante avanço da tecnologia. Chegaremos ao ponto imaginado por ele?

    No Facebook também podemos ser paparazzi de nós mesmos. Cultuadores e “curtidores” da nossa própria banda, de nossas invenções, ou de uma manjada foto em frente ao espelho do banheiro, em que a imagem da máquina fotográfica captura uma solidão e um anonimato que, porém, são rejeitados a qualquer custo na era da invenção de Zuckerberg. Na falta de alguém para fotografar nossa existência, compartilha-se solidão, ali amenizada por um flash.

    Essa mesma tendência de sermos cultuadores e curtidores de nossos grandes feitos dos finais de semana, nossas aventuras além das fronteiras, é semi-realizada nas redes sociais. E essa mesma facilidade de compartilhar qualquer conteúdo provocou o desfecho trágico da vida de Tyler Clementi, estudante da Universidade Rutgers, nos EUA. O rapaz, de 18 anos, teve seu beijo com um pretendente transmitido pela webcam que seu colega Dharum Ravi instalara no dormitório. Não suportando ter sua intimidade escancarada pelo ato covarde do colega, Tyler jogou-se de uma ponte.

    E é essa a mesma web que transmite conteúdos pretensamente edificantes, como o conhecimento dos cabalistas. O professor de cabala Yehuda Berg tem mais de 34 mil pessoas “curtindo” seus ensinamentos. O budista Dalai Lama teve sua página vista ao menos três milhões de vezes pelos usuários do Face. A estrondosa campanha “It gets better”, a favor da diversidade sexual, foi idealizada para ser apoiada e veiculada nas redes.

    Mas que mudanças o Facebook nos trouxe, passados oito anos de sua criação? O quanto ele melhorou ou simplesmente incrementou, diversificou ou sofisticou nossas vidas? Um lado meu me diz baixinho: “é uma maneira nova de não fazer nada, mais gostosa do que as outras porque parece que estamos abraçados pelo mundo, ainda que estejamos, na verdade, sozinhos”. Mas este ‘lado’ se cala quando encontro o perfil de uma amiga que não vejo há anos, e colocamos a conversa em dia pelo bate-papo. Se não fosse o Face...

    O que escreveria hoje o ensaísta americano Henry Thoreau (1817-1862), para quem “nenhum companheiro era tão sociável como a solidão”, nesse tempo em que estamos permanentemente online? Quanto do Facebook é hoje apenas uma peça, uma grandiosa e sofisticada peça, por enquanto um pouco mais independente, na engrenagem do consumismo, da mídia, do marketing? Se um smartphone é a plataforma, os posts do Facebook seriam o conteúdo e mais um motivo para acreditarmos que não estamos sozinhos. Ao compartilhar nossos grandes ou pequenos eventos, temos a impressão de fazer parte de algo maior, e continuamos jogando. Compartilhar é o que importa!

    Que história pensamos escrever nas caixas de Zuckerberg, enquanto a nossa real, mais cotidiana e aborrecida, menos glamourosa do que se pretende, está acontecendo sem clicks, na aspereza das relações reais face-a-face, sem a facilidade de remover amigos e colegas de trabalho que não desaparecem da nossa vida como podem desaparecer de nosso perfil? Para quem não conheceu o mundo sem Facebook, há o risco de acreditar que a grandeza de um ser humano pode ser medida pela aceitação ou rejeição numa rede social.

    Algoritmos e mais algoritmos formando e moldando um novo modo de pensar e agir para uma geração que pode deletar pessoas, excluir e incluir afetos em um segundo. Proporcionando um suposto controle dos afetos, das emoções que sentimos pelos outros. Seguimos a classificar nossos afetos, a adicionar ou excluir “amigos”, até nos encontrarmos na próxima esquina ou em outra rede social, de novo, de novo e de novo. Mas uma vida saudável é feita de relações duradouras, que geram confiança para estarmos sãos no mundo. Será possível uma geração sem rede social? Que não mais se importe ou se mobilize em “curtir, seguir, adicionar, deletar”? Quantas perguntas...


    @rafaelfaisjorn



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