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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Kubrick - final
    20/04/2012


    (Leia a parte 1)

    O ex-fotógrafo Stanley Kubrick sabia que sua opção pelo cinema como profissão era arrojada, porém a mais sensata. Em depoimento para a rádio CBS, em 1958 (uma das poucas entrevistas que, como sabemos, concedeu), expôs o que pensava para o cinema e deu uma preliminar do que veríamos na sua obra, nos próximos 40 anos: “Acho que se os poderosos respeitam filmes bons, ou as pessoas que os fazem, esse respeito é muito atenuado pela observação um tanto cínica de que filmes medíocres podem fazer tanto sucesso quanto filmes de maior valor. A televisão mudou isto completamente, e, apesar do colapso financeiro que provocou na indústria do cinema, acho que ela também trouxe um desafio muito estimulante, tornando necessário fazer filmes mais sinceros e mais ousados. Se faltam a Hollywood a cor e o entusiasmo de antigamente, os Rolls-Royces com assentos de pele de leopardo, por outro lado, acho que ela tem uma atmosfera entusiasmante de oportunidades e possibilidades para os jovens de hoje”. Sua impressão de que Hollywood reconheceria seu trabalho se confirmaria mais tarde. Para esse reconhecimento, contribuiu também, é claro, o longa que sucedeu “Dr. Fantástico” em sua filmografia: simplesmente “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

    O projeto foi o mais ambicioso da sua carreira até então e o único que lhe rendeu, pessoalmente, um Oscar, o de Efeitos Especiais. De roteiro feito em parceria com o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, também autor do conto adaptado, “The Sentinel”, o filme de 1968 contou com consultores da Nasa para a construção das máquinas, naves e ambientações. Se considerarmos que o homem ainda não conhecia bem as dimensões do universo espacial ao redor da Terra, pode-se dizer que nenhum filme de ficção científica foi tão futurista, acertando detalhes do que ainda não tinha sido descoberto. Pode-se dizer também que “2001” inaugurou um expediente hoje corriqueiro no cinema: utilização de música clássica como não apenas trilha de uma ação ou movimento, mas parte do conceito do filme. Não é possível imaginar as cenas da estação espacial sem a valsa “Danúbio Azul”, de Strauss, tocando (veja aqui).

    Veio depois outro título que se tornaria de grande influência: “Laranja Mecânica” (ClockWork Orange, 1971), adaptação do romance de Anthony Burgess. Estrelado por Malcolm MacDowell e ambientado na Inglaterra, provocou a ira da sociedade britânica, que acusava Kubrick de incentivar a violência e denegrir a imagem de civilidade do país. Os jornais do período, inclusive, associavam ações criminosas ao filme. Após 61 semanas de sucesso, num ato inédito, o cineasta solicitou à Warner Brothers retirar a película de circulação dos cinemas ingleses, pois sua família recebera ameaças de grupos extremistas. Mais uma vez o diretor estava prenunciando, numa de suas histórias, algo que a sociedade ainda não havia percebido, ou não queria perceber: a doença silenciosa da violência urbana.

    Após quatro anos, para acalmar os ânimos, Kubrick lançou a sutil superprodução “Barry Lyndon” (1975). O longa, vencedor de quatro Oscars, retorna ao século 18 de forma raras vezes vista em cinema de época. A iluminação, como de costume em Kubrick, é inventiva, com uso de luz natural e de velas, e os figurinos e a ambientação são ricamente compostos. Classificado como “entediante” pelos críticos da Inglaterra e dos Estados Unidos, na ocasião de seu lançamento, hoje é percebido como um filme criativo e de técnica sofisticada, além de uma boa representação do cotidiano da aristocracia inglesa – embora pudesse, sim, ter uns 30 minutos a menos...

    Das minúcias inglesas, o diretor partiu para o hoje clássico do terror “O Iluminado” (The Shining, 1980), igualmente uma adaptação, desta vez do best-seller do escritor Stephen King. A história de horror e suspense não-convencional tem Jack Nicholson interpretando um sujeito psicótico, que, com mulher e filho, recebe a incumbência de cuidar de um hotel fora de temporada e isolado pela neve. Algumas cenas do filme ficaram célebres. Uma delas é a do garotinho, em seu triciclo, encontrando no corredor vazio do hotel duas meninas gêmeas que teriam sido mortas no local (veja aqui). Fácil também é lembrar a (literalmente) alucinante atuação de Nicholson – muitos o acharam exagerado – na cena em que, com seu machado, destrói uma porta para matar a esposa e o filho.

    Se “O Iluminado” é um dos melhores filmes de terror já feitos, o longa que Kubrick dirigiu em seguida, “Nascido para Matar” (Full Metal Jacket, 1987), é uma das melhores produções de guerra já realizadas. Trata-se de outra adaptação – do romance “The Short Timers”, de Gustav Hasford, um veterano do Vietnã que colaborou também no roteiro. A ilustração do cotidiano dos soldados americanos – desde o brutal treinamento até a chegada ao front – se tornou um verdadeiro documento do que viveram os combatentes. Lançado doze anos após o fim da guerra, “Nascido para Matar” é uma crítica apimentada de Kubrick ao desvario que foi a ida americana ao Sudeste Asiático.

    O último título do grande cineasta, “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut), foi finalizado no mesmo ano de sua morte, 1999. No filme, Kubrick entra no universo íntimo de um casal, vivido por Nicole Kidman e Tom Cruise, com uma trama de impacto psicológico, insinuações de traições e sexo. “De Olhos Bem Fechados” questiona e discute os limites das convenções matrimoniais e o relacionamento monogâmico, algo que, numa leitura rasa, pode parecer impensável vindo de Kubrick, tendo em vista sua discreta vida pessoal.

    Por ser metódico ao extremo e muito preocupado com a pesquisa da história que queria contar, o realizador americano perdeu projetos ao longo de sua trajetória. Foi o caso do seu plano para um filme sobre Napoleão Bonaparte, abandonado após “Waterloo”, de Sergei Bondarchuk, ser lançado. “Aryan Papers”, uma história sobre judeus poloneses durante a 2ª Guerra, foi outra ideia que Kubrick deixou para trás. Pouco antes do começo das filmagens, Steven Spielberg estreou “A Lista de Schindler”, levando Kubrick a interromper o projeto, por achá-lo muito parecido. Spielberg, por sua vez, tocaria um roteiro que Kubrick deixou inacabado: o de “A.I.: Inteligência Artificial”, baseado num conto de ficção científica de Brian Aldiss. Kubrick percebeu que ainda não havia tecnologia suficiente para filmá-lo. Depois da morte dele, Spielberg reuniu os rascunhos e notas que o colega fizera e elaborou um novo roteiro. Pôs, é claro, a dedicatória “Para Stanley Kubrick” nos créditos do filme.

    Hoje, treze anos depois da sua morte, Kubrick, como todo autor de uma obra clássica, ainda desperta curiosidade. Suas criações mostram o comprometimento com o fazer e pensar o cinema e estão cada vez mais atuais e notáveis pelas criatividade e originalidade. Cada produção sua abre espaço para muita discussão, e os críticos e acadêmicos sabem disso, pois as análises e teses sobre o cineasta não param.

    Por ter vida pessoal fechada e se refugiar em seu lar para produzir seus filmes, os jornais o adjetivavam de excêntrico, mal humorado, grosseiro com as mulheres e desperdiçador de recursos financeiros. À parte as “famas” que lhe davam, nos bastidores era considerado um sujeito dócil e de apenas um intuito – contar uma história com qualidade, sempre de um modo que outros diretores não idealizariam. Faz falta.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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