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    Entrevista - Daniel Galera

    Mãos de prosa
    Lucas Colombo, Flávio Aguilar e Leandro Schallenberger
    06/06/2011


    (Foto: Raul Krebs)


    Tivemos de esperar. Ligamos para Daniel Galera em abril, mas o escritor e tradutor estava em viagem e só retornaria no final do mês. Fazemos a entrevista em maio? No problems about. Numa quarta-feira chuvosa em Porto Alegre, então, lá fomos nós a um café do bairro Bom Fim receber um dos mais elogiados ficcionistas da atual literatura brasileira. Que não demorou a chegar, vestindo camiseta com estampa da Livros do Mal, antiga editora (2001-2004) fundada por ele e pelo também escritor Daniel Pellizzari e pela qual publicou os contos de “Dentes Guardados”, seu primeiro livro, em 2001, e o romance “Até o dia em que o cão morreu”, em 2003. A este, seguiram-se “Mãos de Cavalo”, de 2006, e “Cordilheira”, de 2008, ambos pela Companhia das Letras e finalistas do prêmio Jabuti.

    A conversa planejada havia um mês, enfim, transcorreu bem. O entrevistado falou bastante, hesitando para responder apenas três vezes. Autor que “fez o nome” inicialmente na web, no final dos anos 1990, como editor do site literário Proa da Palavra e colunista do mailzine CardosOnline, Galera comentou a suposta (frise-se) “influência” da internet na literatura contemporânea, a presença de escritores nas redes sociais e o clichê atual de que “todo escritor deve começar publicando em blog”. Com “Até o dia...” adaptado para o cinema (filme “Cão sem dono”, de Beto Brant) e já com os direitos vendidos do seu último trabalho, a HQ “Cachalote” (2010), feita em parceria com o ilustrador Rafael Coutinho, também discutiu a noção de que existem, hoje, mais bons personagens no cinema e nas séries americanas de TV do que na literatura. Falou ainda de ajuda governamental a escritores/artistas, da tão alardeada necessidade de formar leitores no Brasil, do chamado “pós-modernismo” literário e de tradução, ele que já verteu para o português obras de, entre outros, Irvin Welsh e John Cheever. Disse não fazer questão de se inserir numa cena literária “gaúcha” e, por fim, revelou de quais “monstros sagrados” das letras não gosta. Isso, e tudo mais que tratamos nos 55 min de entrevista, você lê a seguir.


    Lucas – Galera, você está nas redes sociais: twitter, Facebook, e já teve blog – inclusive, conquistou notoriedade primeiramente na internet, no final dos anos 90. Há certa discussão no meio literário, hoje: uns dizem que os escritores devem estar presentes nas redes, porque, naturalmente, intensificam o contato com leitores e editoras, e outros dizem que escritores precisam é de silêncio – e até brincam que, nesse ‘triângulo das bermudas’, Facebook, twitter e Google, já perderam uns cinco romances. Que lado tem razão?
    Galera – Nenhum. Essas frases que começam com “o escritor deve...” costumam estar erradas, porque são sempre generalizações. Dependendo da tese que tu queres provar, tu escolhes os autores certos e provas a tese. “Ah, o escritor deve ser recluso”: aí tu selecionas dez gênios reclusos. “Ah, o escritor deve ser um maluco, que bebe sem parar, vive no puteiro e é amigo de todos”: aí tu consegues apontar mais dez. “Ah, o escritor deve ser um acadêmico, de vida regrada”: tu achas mais dez gênios. Tu provas o que quiseres. E isso em si prova que esse tipo de comentário é bobagem. O escritor não deve nada. Cada escritor tem sua maneira de criar sua disciplina, seu dia-a-dia. No meu caso, o uso de redes sociais ajuda, mas eu estaria lá de qualquer modo, não porque sou escritor. Uso-as porque uso internet pra tudo. Meu uso de internet não é diferente de qualquer outra pessoa. Sou escritor e acabo buscando esses canais – se fosse engenheiro, talvez estivesse em fóruns de engenharia... Pra mim é importante, gosto de ter contato com leitores. Não me atrapalha.

    Lucas – Leitores te chamam muito lá?
    Galera – Bastante. Tanto que preciso, hoje, saber usar a web com alguma moderação, no sentido de não abrir todos os canais possíveis. Deixo claro no twitter que não consigo responder tudo... Mas também não é uma sobrecarga, consigo responder quase tudo. Mas acho bom isso, não me atrapalha. A internet às vezes me atrapalha, não necessariamente as redes sociais. Se eu me entrego, uso internet o dia inteiro. Sou dessas pessoas que podem passar doze horas por dia pesquisando e conversando lá, então tenho que controlar isso. Já teve casos em que percebi que a internet estava me atrapalhando como escritor, mas tenho essa consciência. Às vezes, dou um tempo mesmo: digo “vou sumir por umas semanas”, ou simplesmente desligo as coisas na hora de trabalhar. Mas até hoje internet não chegou a comprometer minha produção. Enfim, escritor não é diferente de outra pessoa. Estar fora da web é algo totalmente incomum hoje em dia. O escritor não seria uma exceção. Pra mim, usar internet é uma coisa natural, da época. Não é porque sou escritor ou não.

    Leandro – E você já falou em outras ocasiões que te perguntavam isso, tempos atrás: se o escritor deveria se voltar só para a internet, sem pensar em sair em papel. Mas hoje realmente é inevitável, não há como não estar nela.
    Galera – É. O curioso é que, quando eu comecei, no momento em que a internet se popularizava como espaço para escritores, as teorias diziam: “a web vai se tornar o meio de publicação por excelência, vai substituir o livro...”. E também que surgiriam novos gêneros literários por causa dela, que surgiria literatura para ser publicada e lida na internet, que a linguagem mudaria, os gêneros mudariam, seria tudo mais curto, fragmentado, seco... O jeito de escrever seria mais comprimido, como as pessoas conversam nos chats, e a literatura absorveria isso... Pessoas juravam que tudo isso aconteceria, e nada disso aconteceu.

    Lucas – Pois é, você já declarou em entrevistas que não acredita nessa ideia de que a internet está influenciando a forma e o conteúdo da literatura contemporânea. Eu concordo, até porque a web nem tem uma linguagem específica a ser influência de alguma coisa. Mas o cinema e a TV estão influenciando a literatura, não?
    Galera – Tanto quanto a internet. Nenhuma delas é decisiva. São elementos de todo um universo de cultura popular, de mídia, que influencia as pessoas e, portanto, influencia os escritores. Existe essa tendência de pensar em escritores como seres humanos diferentes, e que eles sofrerão influência da internet. Não: a internet influencia a vida das pessoas. Escritores vivem, como as outras pessoas. Portanto, algum tipo de reflexo no trabalho deles terá. Mas não porque o cara é escritor, entende? Eu prefiro essa perspectiva. A web mudou a vida dos escritores, como mudou a de todo o mundo. Isso se reflete, se não na linguagem ou no gênero que o autor pratica, pelo menos nas temáticas: se tu queres fazer uma literatura realista, hoje, tu não podes fingir que não existe internet na vida das pessoas. Tens que abarcar isso nas tuas histórias, de alguma forma, ou optar por não usar, deixar clara essa opção e ter um motivo pra ela. Enfim, acho que é mais isso: como influencia a vida das pessoas, acaba influenciando a matéria na qual o autor se inspira.

    Lucas – Uma opinião: acho que, hoje em dia, o cinema e a TV americana têm oferecido mais bons personagens do que a literatura. Concorda? Ou surgiu um Brás Cubas, um Gregor Samsa, nos últimos anos?...
    Galera – Hum... (pensa)

    Lucas – Já viu a série “House”?

    Galera – Já.

    Lucas – Aquele personagem é sensacional, não?
    Galera – Sim...

    Lucas – E “Mad Men”? O Don Drapper é outro baita personagem.
    Galera – Essa, não vi. Gosto de ver séries, mas não tenho muito tempo para acompanhar. Via “House” quando morava em São Paulo.

    Lucas – Mas enfim, não vejo um House ou um Don Drapper na literatura atual...
    Galera – Não sei, cara... Se a gente entrar mais a fundo nisso que tu falaste, pensaríamos também: até que ponto o cinema não pega influências da literatura...

    Lucas – Sim, mas aí invertendo o argumento...
    Galera – Tu dizes: “ah, o cinema tem personagens melhores”. Mas podes apontar vários grandes personagens do cinema recente que foram baseados em livros. O assassino do filme dos irmãos Coen (“Onde os fracos não têm vez”) é baseado no romance do (Cormac) McCarthy, é um personagem literário, primeiro... Então, não sei se eu concordo contigo, não porque eu discorde, mas porque não sei mesmo... (risos). Mas não me parece que a literatura esteja tão defasada no sentido de oferecer grandes personagens hoje em dia...

    Lucas – Mas o atual avanço da não-ficção – livros sobre História vendendo aos montes, por exemplo – também não se explica, em parte, por uma falta de personagens fascinantes na ficção?
    Galera – Talvez seja mais o contrário: a falta de grandes personagens seja mais sintoma da estética mais documental de hoje. Existe uma tendência, nas últimas décadas, de uma estética cada vez mais realista. Tivemos o Realismo, no sentido de representar a realidade através da ficção, o Naturalismo, no sentido de parecer o mais próximo possível do que realmente é, e hoje já vivemos algo depois disso, além do Naturalismo, em que tem que ser o que é de fato, não uma representação muito fiel do que é. As pessoas querem que seja verdade, de alguma forma. Leem livros e veem filmes querendo saber em que aspecto da realidade aquilo foi baseado, e vão querer conferir depois na internet, no extra do DVD ou numa entrevista do escritor exatamente qual situação real deu origem àquilo. Parece que se a ficção não tiver mais um substrato na realidade ela não tem valor. É um fenômeno bem do nosso tempo. O leitor lê muito assim, e acho que qualquer escritor que publique hoje tem um depoimento assim: de como o leitor parece fascinado em querer saber de onde vieram as coisas que ele leu... E se tu dizes que inventaste, ou não dizes de onde veio, as pessoas às vezes ficam irritadas e até inventam de onde veio. Elas têm que construir essa ponte com a realidade, senão parece que ficam perdidos, que algo falta. E claro que a arte está toda envolvida nesse processo: a própria evolução técnica do cinema e da TV tornou esses meios mais fiéis à realidade. Talvez essa sensação de que os grandes personagens de ficção são em menor quantidade hoje se deva a esse fenômeno cultural, de encontrar pontes entre as histórias e a realidade. Não sei explicá-lo, mas é inquestionável que ele acontece.

    Flávio – E veremos “Cachalote” em animação?
    Galera – Não existe nada programado. Mas os direitos de adaptação estão vendidos, tem gente tentando produzir. Talvez haja mais probabilidade de virar um filme, mesmo, com atores, do que uma animação. Algum tipo de adaptação, acho que vai ocorrer.

    Flávio – Você já morou em Porto Alegre, São Paulo e Garopaba. Que diferença você sente, não na cena, mas no ambiente para escrever, nesses três locais? E como você poderia se inserir numa cena gaúcha que tem um cânone extremamente rural, sendo que sua temática é mais urbana, mais psicológica?
    Galera – Bom, eu não quero me inserir numa cena gaúcha... (risos). Nem numa brasileira. Em cena nenhuma, aliás. Nunca escrevi pensando “como a obra que vou produzir se encaixará na tradição ‘tal’...”. Embora eu saiba que tem escritores que pensam nisso, não consigo conceber por que alguém pensaria dessa forma. A verdade é que eu tou me lixando...(risos).

    Flávio – Mas você sente uma barreira? A pergunta é mais nesse sentido.

    Galera – Nunca senti barreira nenhuma, cara. A barreira vem para quem se posiciona dessa forma. Para quem se posiciona de uma maneira que já vai legitimar as barreiras que poderiam existir. Como nunca me posicionei assim, nunca senti barreira nenhuma. Jamais me senti cobrado para tratar de certos temas que seriam da “literatura gaúcha”, ou coisa assim...

    Leandro – A pergunta é boa, porque realmente você não é visto como “gaúcho”. Não se diz “o escritor gaúcho Daniel Galera...”

    Lucas – Só num sentido mais informativo.

    Galera – Bom, tecnicamente, eu sou paulista. Nasci em São Paulo, mas me criei aqui. Não faço questão de me considerar um “escritor gaúcho”, mas me considero um “habitante” gaúcho. Minha família é toda daqui, Porto Alegre é minha cidade...

    Lucas – Você está impregnado de Porto Alegre.
    Galera – Sim, quando eu saio daqui eu sei que estou deixando minha casa pra trás. Essa é minha sensação como pessoa, não como autor. Então, posso ficar eventualmente chateado quando se dirigem à minha pessoa: “ah, o Daniel Galera não é gaúcho”. Isso me atinge. Agora, dizer se sou ou não sou um “escritor” gaúcho, se faço “literatura gaúcha”... pra isso, estou me lixando... Não interfere em nada no que eu escrevo.

    Flávio – Outra coisa ainda relacionada a essa questão do leitor, mas não à visão que ele tem de ti, e sim à que você tem dele: quando você pensa em alguém lendo seu livro, imagina o quê? Que ‘cena’ vem à sua cabeça, que momento?
    Galera – Olha, posso te dizer com bastante certeza, pois estou escrevendo um livro agora (um novo romance, com previsão de lançamento para 2012), que não penso nisso. Não imagino um leitor. Às vezes, tu tens uma sensação meio abstrata de como o teu livro será lido. Claro que o escritor tem que se preocupar com isso, afinal está escrevendo para os outros. Mas não com “tipos de leitor”, sabe? Acho que, na hora da escrita, esse tipo de ideia pode ser até meio paralisante. Ou perigosa, no sentido de levar o teu trabalho pra um lado que não é o mais honesto e puro possível. Acabas adaptando um trabalho que tem uma pretensão artística, de expressão, pra uma coisa que seria mais adequada a um determinado tipo de leitor... Eu penso no leitor como essa figura meio abstrata. O livro, enfim, é para ser lido por alguém... Trabalho para fazer algo que terá significado, será interessante, prazeroso, para alguém. Mas esse alguém não é um leitor de um dado tipo, de certa idade, certo nível social... Não penso nisso. Imagino um leitor, sim, mas um leitor abstrato, não específico.

    Leandro – Minha pergunta é próxima à do Flávio, e meio inevitável: como formar leitores? Para ter leitores, é preciso formá-los, e eu estava mesmo comentando com o Lucas que é belo ver uma criança lendo. Quando vejo meu filho lendo um livro, me dá um êxtase... O que se pode fazer para se ter mais leitores, para se ter mais acesso à literatura?...

    Lucas – Acesso a livros se tem, o que falta é
    querer acessá-los...

    Leandro – Sim, embora se fale muito que as pessoas têm lido mais ultimamente...

    Lucas – É que dá essa sensação. Hoje em dia, tem tanta festa literária, feiras do livro, que as pessoas pensam: “oh, todos estão lá porque adoram literatura”. Mas é uma minoria que vai porque realmente se interessa...

    Galera – Bom, o primeiro problema é o país não ter capacidade de alfabetizar sua população... Vi no Jornal Nacional, esses dias, que mais de 20% dos jovens com Ensino Fundamental, aqui no Brasil, são incapazes de interpretar um texto. Aí essas notas de avaliação da educação brasileira vão subindo, e a gente se pergunta como. Pra mim, esses dados são maquiados... Acho que, na verdade, o nível do teste é que tá baixando. Enfim, é uma geração que tem muita dificuldade de interpretar texto. Começa por aí, por ter uma educação séria. Com isso resolvido, acho que também se poderia ter um tratamento mais interessante da literatura, na educação básica. A literatura é ensinada de um modo muito engessado, muito formal... Claro que há obras que tu tens que ler: é preciso ter uma formação mais rigorosa, ler alguns clássicos, ser ‘obrigado’ a ler alguns livros, porque educação também é isso, é ser obrigado a fazer coisas. Aprender não é só fazer o que se quer. Mas, por outro lado, acho que também se perde a oportunidade de colocar junto um outro tipo de leitura que será interessante pros alunos. Lembro que, nas aulas de Literatura no colégio, a professora tava falando de José de Alencar, e eu tava com “Cidade de Deus”, do Paulo Lins, no colo, lendo... Ou “A mão esquerda”, do Fausto Wolff... Quer dizer: não é que eu não me interessava por literatura, mas havia alternativas. Eram livros que circulavam entre meus amigos; o “Cidade de Deus”, na época, foi um livro importante. E é um puta livro, né? Então, por que nenhum professor falou daquele livro em sala de aula? Por que os professores não estão preparados, atentos ou dispostos a fazer isso? Por que não pegam livros contemporâneos? Por mais que possam ter uma opinião divergente sobre a qualidade da literatura contemporânea, há livros bons aqui e ali, nem que sejam dois ou três, numa visão pessimista... Por que não tratar desses livros também, em sala de aula? Alguns tratam, tu encontras professores que fazem isso. Já tive oportunidade de falar com alunos que leram livros meus, e de outros escritores contemporâneos, por iniciativa de professores. E a maioria tá super interessada. Tu vês que, daqueles 30, cinco vão continuar lendo. Então, é possível. Mas são exceções, mesmo. Não dá pra fazer milagre: existem limites para a própria educação, no sentido de não conseguir lutar contra toda uma cultura que não incentiva a leitura. Mas muito mais do que é feito pode, sim, ser feito. Um dia ouvi gente dizendo uma estatística de que praticamente todas as cidades do Brasil têm bibliotecas. Pode até ser verdade, mas aí tu vais ver a biblioteca e ela é vazia, ou com um acervo que nem dá pra considerar... Então, não é bem assim. Se trabalha muito com números, e pouco com qualidade e adequação, realmente. Mas também não sou catastrofista: não digo “ah, a literatura está morrendo, o Brasil não lê...” Claro que muita coisa podia ser melhor, mas pessoas leem, sim...

    Lucas – Literatura nunca foi uma arte “de massa”...
    Galera – Pois é. Sempre houve os best sellers, e aquele grande contingente de escritores lidos por poucos. Dizer que estamos no meio de uma crise, e tal, é ignorar que sempre foi assim. Desde que existe a imprensa, é assim: há os livros que vendem muito, lidos por todos, marcam uma geração, e por baixo deles há centenas de outros títulos que só alguns leram. Ser escritor parte de conhecer isso também. A possibilidade de tu seres um dos autores menos lidos é muito maior do que te tornares um cara que vai marcar uma geração. Ficar reclamando quando isso não ocorre, como se fosse um problema do país, da geração... Existem problemas, a educação no Brasil é um horror – mas não dá pra dizer que tá tudo acabando. O escritor também precisa se posicionar de uma forma interessante pro leitor, e não ficar só de braços cruzados.

    Lucas – Atualmente, há um clichê de que o escritor precisa começar publicando na internet para só depois partir para uma empreitada em papel. E muitos que citam esse clichê te usam como exemplo: “ah, com o Daniel Galera, foi assim: começou com blog, e agora tá na Companhia das Letras”... Mas você mesmo já declarou que este não precisa ser, obrigatoriamente, o caminho...
    Galera – Não precisa. Mas aumenta as chances. O que um escritor iniciante tem que fazer? Fazer seu trabalho chegar à mão de pessoas que vão gostar dele e difundi-lo, que vão largar na mão de um editor ou fazê-lo chegar ao próprio editor... e a internet é o caminho meio óbvio pra isso, atualmente. Mas não é um passo a passo que, uma vez seguido, dá certo. Na maioria dos casos, aliás, não dá certo: as pessoas podem passar anos até conseguir algo. No meu caso, aconteceu um pouco rápido. Mas foi resultado de várias iniciativas minhas. Muita gente pensa: “ah, ele começou a publicar na internet e, de repente, foi publicado pela Companhia das Letras...”. Não foi assim. Meus dois primeiros livros foram independentes, botei dinheiro meu, editei em casa, fui buscar na gráfica, carreguei em mochila pra largar em livrarias, fiquei mandando pelo correio e gerenciando o estoque numa planilha de Excel na minha casa, perdi dinheiro... Foram anos em que eu fiquei me auto-editando porque eu queria mesmo, por prazer. O fato de ter tido convite de uma grande editora é resultado das publicações na internet, mas, sobretudo, dos dois livros que eu fiz, independentes. Isso deu trabalho e custou grana; não fiquei sentado esperando, ou mandando spam para as pessoas dizendo “me leiam”. Não é por aí, também. Eu podia ter feito tudo isso e poderia não ter dado em nada... Claro que, além do esforço de tomar essas medidas de divulgação do próprio trabalho, existem questões de talento, de sorte, que são imponderáveis. É uma combinação. Fácil nunca é, mas acho que é mais fácil hoje do que jamais foi. Os meios são mais baratos, populares e abertos. Mesmo sendo difícil hoje, é mais fácil do que era, para conseguir ser lido. Recebo muito contato de pessoas que querem publicar e vejo a diferença de expectativa delas. Umas querem simplesmente que algumas pessoas possam ler o que elas escreveram.

    Lucas – Você recebe muitos originais?
    Galera – Originais, não mandam mais tanto... Porque eu sistematicamente não os leio. Não é que rejeito; não tenho tempo de ler, mesmo. Leio um ou outro. Mas, quando me mandam, eu digo: “olha, vou guardar, tenho uma pastinha chamada Originais...”

    Flávio – “Uma pastinha chamada Lixo”? (risos gerais)

    Leandro – Poderia simplesmente responder: “muito bom seu livro, continua escrevendo, boa sorte!”... (risos)
    Galera – Não, guardo tudo. Mas, cara, não tenho tempo nem de ler o que preciso ler pro meu trabalho... Eventualmente, consigo ler alguns originais que mandam, mas é muito raro. Pelo menos, respondo isso que eu falei, pra não ficarem com a falsa impressão de que me comprometi.

    Leandro – Lembrei o Verissimo: uma vez, ele disse que tinha, só na cabeceira dele, livros para mais de 200 anos de leitura. Brincou com quem manda originais: “Não venham achar que não tenho nada pra ler”...
    Galera – Eu tenho capacidade de ler muito pouco. Mas tento...

    Flávio – Qual é a diferença entre escrever independentemente, para a sua própria editora, e escrever pela Companhia das Letras?
    Galera – Nenhuma. (categórico)

    Flávio – Não há diferença?
    Galera – Bom, a diferença é que, quando faço pela minha própria editora, faço o livro “inteiro”, incluindo a parte editorial. Quando publico pela Companhia, só faço o trabalho da escrita, mesmo. E este trabalho, em si, não muda nada.

    Leandro – Mas, Daniel, você trabalha mais motivado, entra dinheiro certo na conta... (risos)
    Galera – Não entra certo! Quem disse que entra certo?

    Leandro – Não entra?
    Galera – Entra um adiantamento.

    Leandro – Então...
    Galera – Um adiantamento padrão, de mercado editorial brasileiro, é seis mil reais. É a média das editoras. Tu ganhas, sei lá, três mil ao assinar o contrato, e mais três ao entregar o livro. Se tu levas em média um ano ou dois pra escrever um livro, tu vês a dimensão...

    Leandro – Mas seu esforço é menor para fazer o livro chegar às pessoas, à imprensa...
    Galera – Isso, sim. Mas na hora de escrever, que é o que vocês estão me perguntando, não faz diferença nenhuma. Tu estás em casa, com um computador e uma ideia. Não faz diferença se tu vais publicar sozinho, na internet, pela Companhia, pela Penguin...

    Lucas – Seguindo nessa linha de falar de “dinheiro”: seu romance “Cordilheira” faz parte da coleção Amores Expressos, da Cia. das Letras, que levou escritores a diferentes cidades do mundo para escrever histórias de amor ambientadas nessas cidades. Você foi a Buenos Aires. E houve certa polêmica no anúncio desse projeto, porque, a princípio, ele contaria com aporte da Lei Rouanet – ou seja, dinheiro público. Depois parece que não houve esse aporte. Mas, enfim, te pergunto diretamente: você acha que escritores, artistas, devem receber dinheiro oficial?
    Galera – Acho que tem que haver programas do governo, sim. Não necessariamente Lei Rouanet: tem que ter algum tipo de apoio, uma bolsa, um incentivo. Mas não sustentar todo um setor, como acontece, precisa acontecer, com o cinema. É bom que tenha alguma coisa. Mas realmente decidir a maneira como o dinheiro será distribuído, alocado, aí complica...

    Leandro – E prêmios do governo?
    Galera – Prêmios do governo, não. Não acho que precisa ter. Mas coisas pontuais, que podem ajudar um autor, como uma bolsa de pesquisa para ele escrever um romance, acho que sim. Alguma coisa tem que haver. Não sou, a priori, contra algum tipo de apoio público. Mas não acho que deve ser um apoio estruturado e dimensionado a ponto de os escritores contarem com ele a princípio, para fazerem seus trabalhos. Acho que deve ser um apoio a ser usado pontualmente, para quem estiver precisando. Por exemplo: não vejo muito sentido em dar apoio estatal a um autor que tenha um catálogo de obras reconhecidamente de sucesso, um autor que vende, vive de seus direitos. Ele não precisaria. Agora, um escritor iniciante, ou um mais experiente mas de obra pouco lida, embora valorizada, poderia receber... Enfim, aí já estamos entrando nos meandros dos critérios pelos quais o dinheiro seria dado, e eu não tenho a fórmula para distribuir isso corretamente. Mas algum tipo de apoio governamental deveria ter, não só pra literatura, obviamente, mas pras artes como um todo. Uma coisa até mais importante do que uma bolsa pra um autor escrever seria financiar, por exemplo, tradutores estrangeiros para traduzir livros de brasileiros no exterior. Para editores americanos, por exemplo, publicarem autores brasileiros. Isso é algo que a grande maioria dos governos faz, e o Brasil tem, mas num nível pequeno, que pode ser ampliado.

    Flávio – Já participou, antes de começar a publicar pela Companhia das Letras, de concursos literários?
    Galera – Eu cheguei a mandar material pra um ou dois concursos, antes de publicar qualquer livro. Eu era bem iniciante, mesmo, tinha uns 18 anos. Cheguei a mandar um conto pro (Concurso) Josué Guimarães também. E cheguei a publicar um conto por uma daquelas edições cooperativadas, em que tu mandas o texto, paga um pequeno preço e recebe livros de volta. Mandei um poema pro Poemas no Ônibus, também, que inclusive foi pro ônibus...

    Lucas – Te lembra dele? Declama aqui... (risos)
    Galera – Não sei de cabeça. E era muito ruim... Mas lembro que foi bom para me incentivar. As pessoas falam: “ah, esses Poemas nos Ônibus são uma porcaria!”. Na média, não são bons, mesmo, mas às vezes uma premiação dessas é o estímulo que o cara precisa. Eu estive nessa posição, e, por mais que hoje pareça algo meio bobo, na época fez muita diferença.

    Lucas – Já aconteceu de você ler textos antigos seus e achar muito ruins? Comigo, já. (risos)
    Galera – Desde o “Mãos de Cavalo”, talvez, acho que a gravidade dos meus erros se amenizou... Mas, ainda hoje, em qualquer livro meu que eu pegar vou encontrar coisas que eu gostaria de refazer. Se for do “Até o dia em que o cão morreu” pra baixo, acho coisas que considero mais escandalosas... Mas também não encano muito com isso, tanto que deixo o “Dentes Guardados” para baixar no meu site. O leitor que tem alguma inteligência sabe ler aquilo no contexto: foi meu primeiro livro, contos que escrevi com 19, 20 anos, não se pode esperar o mesmo nível técnico do meu livro mais recente. Vistos no contexto, os livros antigos têm seu valor. Hoje em dia, não encano com isso. Mas claro que olho pra trás e vejo muita coisa que eu mudaria.

    Leandro – E com a crítica, como é sua relação? Uma crítica negativa te incomoda, e uma positiva te dá sensação de estar indo pro caminho certo?
    Galera – (pausa). O fato de ser positiva ou negativa não está diretamente ligado a “me ajudar” ou “me atrapalhar”. Às vezes, uma crítica elogiosa é mais incômoda e irritante pro autor – se apontar para algo que tu não concordas, achas uma bobagem – do que uma crítica negativa que indique algo verdadeiro, um defeito que tu não notaste e o crítico percebeu. Pode ser dura, mas se a crítica for fundamentada e o autor não for um ressentido, pode ser um aprendizado para ele. A questão não é tão preta-e-branca. A crítica tem valor, é importante pro autor e, acima de tudo, pro leitor. O fato de ela agradar ou não ao autor é secundário. Isso é problema do autor. Se eu fosse crítico de imprensa cultural, não escreveria para ensinar o autor a escrever. Me preocuparia em dizer ao leitor se o livro é bom ou não, por quê, e o que ele me causou. Ficar mandando recadinho pra autor, pro bem ou pro mal, é coisa de babaca.

    Lucas – E tem “resenhista” que elogia escritor e exulta quando recebe e-mail de agradecimento dele...
    Galera – Nos primeiros livros, acho que as críticas negativas me atingiam mais. Nos últimos, já não me atinge muito. Fico irritado com uma ou outra coisa pontual. E essa minha reação, também, não é relevante pra ninguém. É minha, íntima. Não diz nada sobre a crítica. Não vou a público, no meu site, para me manifestar. Jamais faria uma réplica a uma crítica. Se algum leitor quiser tomar minhas dores e mandar e-mail pro jornal, fique à vontade, mas eu nunca faria isso. É um problema meu, como autor. Não vou querer “melhorar o filme” do meu livro porque um cara falou mal dele em algum lugar. Isso também é babaquice...

    Lucas – Não tenho paciência para entrevistas clichês, então não vou te perguntar “O que é ser um escritor jovem?”, porque você já deve estar enjoado de responder e eu não tenho paciência pra perguntar.
    Galera – Já fiz 31, cara. Não sou mais jovem. (risos)

    Lucas – Pelos padrões atuais, é. Um “jovem adulto”. Mas enfim: considero a sua escrita mais elaborada que a dos seus contemporâneos que já li. Sua prosa não é telegráfica; ela respira, é mais descritiva... E numa entrevista você já disse que não espera revolucionar a linguagem, que o que tinha de ser inventado nessa área já foi. Que você só quer escrever bem. Mas não acha que muitos escritores jovens não conseguem controlar o ímpeto da idade e já saem querendo reinventar a roda, querendo a experimentação pela experimentação, ser Machado ou Borges, quando nem sequer dominam a linguagem básica da narrativa? Será que este não é um incômodo da ‘nova geração’, digamos?
    Galera – Bom, querer ser Machado ou Borges não é experimentar, é se apegar a um modelo. Mas isso é importante também, porque se aprende assim. O que não pode é ficar apegado ao cânone, aos teus heróis, aos livros que te influenciaram, a ponto de tu não desenvolveres um estilo próprio. Porque não faz sentido ser um escritor, se tu não buscas uma voz própria. E uma voz própria é apoiada em influências, claro. Eventualmente, há autores que escrevem praticamente sozinhos, casos anômalos de caras que leram pouco e têm naturalmente um estilo impactante e eficiente. Mas para a maioria dos autores, não é assim: eles re-processam influências. Só que é bom saber se desapegar delas a ponto de criar teu estilo também. Eu, por exemplo, não tenho medo de copiar. Tento usar minhas influências. Quando leio um autor que me impressiona, tento escrever como ele. Mas não que queira escrever o mesmo livro que ele. É no sentido de usar aquilo para dar um impulso em direção a um lado um pouco mais tangencial, que é o meu estilo. Faço isso o tempo todo. Quando escrevi o “Mãos de Cavalo”, estava muito impressionado com o (escritor americano) David Foster Wallace. Acho que o estilo descritivo que usei é um pouco decorrência da experiência de ter lido o “Infinite Jest”. Mas são dois livros completamente diferentes. Tentei re-processar uma impressão muito forte que a literatura dele me causou e levar pra um lado, que era o meu estilo. Não fui pro mesmo lado, senão seria redundante. Aí, sim, uma cópia.

    Lucas – E isso que se convencionou chamar de “pós-modernismo”: metaliteratura, escritores criando tramas sobre escritores, “brincando” com os aspectos gráficos do livro...? Claro que há coisas interessantes, mas estou apresentando o contraponto, aqui: isso não pode afastar leitores, em vez de seduzi-los? Literatura que se perde em perorações, volta-se a si mesma, preocupa-se excessivamente com “forma”, e deixa um pouco de lado a importância de contar uma boa história e investigar o caráter dos personagens, investigar o humano?
    Galera – (fica pensando por uns segundos). Acho que o pós-modernismo mesmo, dos anos 60/70, era uma reação mesmo ao cânone de gêneros, ao realismo psicológico, as coisas superestabelecidas da literatura. A minha geração, e as ligeiramente anteriores, chegaram num outro momento. Todas as conquistas dos escritores pós-modernistas já estavam estabelecidas, eles já tinham chutado os baldes. Não é mais o pós-modernismo, na minha opinião. É algo além: escritores navegando nesse cenário em que tudo é válido, não existe mais uma maneira certa de escrever. E o fato de se fazer muita meta-ficção, hoje em dia, não considero uma herança do pós-modernismo, e sim uma coisa que dialoga com a própria cultura do nosso tempo. Vivemos num mundo saturado de narrativas. Hoje, a própria vida cotidiana, íntima, quando colocada nas redes sociais, vira uma história. Tudo se apresenta como história. De fato, uma parte do papel que a literatura cumpria tá sendo ocupado por televisão, cinema, redes sociais, publicidade... tudo é narrativa. Narrativas são construídas, contadas e fragmentadas o tempo todo. Uma parte do nosso apetite por narrativas, que antes cabia mais à literatura, tem sido um pouco ocupado por outras coisas. O interessante é ver como a literatura tá reagindo a isso. Não concordo com quem diz “já que o mundo, hoje, é assim, a literatura perdeu importância”. Não. Ela tá sendo posta em ameaça, e os escritores reagem a isso, de alguma forma. Uma dessas formas é transformando a própria contação de histórias e transformando os outros meios, esses que invadiram o espaço da literatura, em matéria de história. O meio em que as outras narrativas são criadas viraram tema da literatura. Na “Cachalote”, tem isso: um personagem escultor que vai participar de um filme. Toda a história tem a ver com o cenário de filmagem daquele filme. Então, é algo do tipo “ok, já que essas coisas tomaram um pouco o espaço das narrativas literárias, a literatura vai narrá-las, só pra verem o que é bom pra tosse...”. Não é algo consciente, talvez os autores não se deem conta. Mas acho que a meta-ficção pode correr o perigo de se tornar interessante só pra quem está no meio literário. Quando bem-feita, não. O “Budapeste”, do Chico Buarque, é um romance que tem um componente meta-ficcional, mas ao mesmo tempo ele consegue ser potencialmente interessante a todos os leitores. Tanto que foi um best-seller – ok, é do Chico, e tal, mas é muito bom... É por aí: a literatura tá tratando das outras formas narrativas, trazendo-as para o campo da ficção, talvez como uma reação ao fato de ter sido escanteada no seu papel de conduzir as histórias das sociedades. Já que tudo virou história, então a literatura conta as histórias dos outros contando suas histórias...

    Flávio – Sobre tradução: o fato de você ser tradutor afeta o fato de ser traduzido também? Livros seus já foram traduzidos para francês, italiano e espanhol. Você teve alguma relação com os tradutores? E, depois, existe uma “obsessão” de conferir se a tradução foi bem feita?
    Galera – Já fui traduzido para o romeno, também, mas não sei se saiu o livro. Mas o fato de eu ser tradutor não influi em nada. E essa conversa com o tradutor depende muito dele...

    Lucas – E pro inglês, não teve vontade de traduzir você mesmo?
    Galera – Não sou capaz... (risos gerais). Traduzir do inglês pro português não significa que tu consegues fazer o inverso. São atividades totalmente diferentes. Uma coisa é tradução, e outra, muito mais difícil, é versão.

    Lucas – O João Ubaldo fez isso: traduziu ele mesmo “Sargento Getúlio” e “Viva o Povo Brasileiro” pro inglês. E optou por verter literalmente as expressões idiomáticas: “pão pão, queijo queijo” ele pôs “bread bread, cheese cheese”...
    Galera – Sei lá, pode ter ficado bom... Mas é difícil de fazer. Tu podes falar um inglês perfeito, mas isso não quer dizer que consegues traduzir pro inglês. Eu nunca faria, por causa disso. Mas com os tradutores que me procuraram, como a do italiano, eu conversei. A do francês, não sei quem é até hoje. Com a do espanhol, também conversei, inclusive pessoalmente, na Argentina. Ela tinha uma lista de dúvidas para me mostrar. Acho bacana.

    Lucas – Sua tradução de contos do John Cheever saiu ano passado. Está envolvido com alguma tradução agora?
    Galera – Estou traduzindo um livro do (escritor inglês) David Mitchell, “The Thousand Autumns of Jacob de Zoet”.

    Lucas – Seção “Perguntas imaturas”, pra terminar: por que seu verbete na Wikipedia, até pouco tempo, dizia que você, além de tradutor e escritor, era também fazendeiro? (risos)
    Galera – Porque tem uns caras que gostam de ficar me enchendo o saco ali... (risos). Pergunta pra eles por quê.

    Lucas – Você e o Philip Roth? Ele mora num casarão antigo, numa fazenda, em Connecticut...
    Galera – Sim, mas eu não (risos). Não vivo num casarão; sou uma pessoa extremamente urbana e sociável. Mas tenho essa fantasia...

    Leandro – Escritores, pra ti, têm de ter atuação política?
    Galera – Não. Escritores não têm obrigação nenhuma. Mas claro que isso pode. Há escritores políticos, é importante que haja alguns que façam isso, mas não se pode esperar isso de todos. Voltamos ao que falamos no início: se dissermos “ah, o escritor deve ser atuante politicamente”, podemos indicar um monte de caras importantíssimos para a literatura e que foram uns putas alienados políticos, ou defendiam ideias horrorosas, eram nazistas, etc. E aí, eles não são importantes pra literatura?

    Lucas – Já perguntei pro Carpinejar, pergunto pra ti: em que altar você não reza? Cite um “monstro sagrado” da literatura brasileira ou mundial que realmente não faz sua cabeça.
    Galera – Clarice Lispector.

    Lucas – Também sou um dos poucos que a acham supervalorizada...
    Galera – É, pra mim aquilo não diz nada... Acho chato de ler. E da literatura internacional, García Márquez. Acho um saco...

    Lucas – Mas ele tem uma técnica narrativa e tanto...
    Galera – Mas isso não muda o fato de que é chato (risos). Bom, não vou ser leviano aqui: tentei ler o “Cem Anos de Solidão” e o “Amor nos Tempos do Cólera” e não passei da página 100 dos dois. Era parar de ler, ou dar cabo da minha vida... (risos). Mas, enfim: o respeito também, e eventualmente tentarei ler esses romances de novo, numa hora em que não tiver mais nada pra ler – ou seja, nunca. Outro autor: Juan Rulfo. Tentei ler o “Pedro Páramo”, que é um puta clássico, e achei um saco. Henry Miller também nunca me bateu. Não o achei ruim, mas também não tão bom quanto supostamente seria.

    Lucas – Você, que é autor de contos e romances, concorda com o Julio Cortázar: “o conto vence por nocaute, e o romance vence por pontos”?
    Galera – É uma generalização, então é correta até o ponto em que uma generalização pode ser. É possível achar muitos exemplos contrários...

    Lucas – Cite um romance que “vence por nocaute”, então.
    Galera – (pausa). “O Vermelho e o Negro”, do Stendhal. Eu tava achando muito chato, e lá pela página 500 tem uma virada na história, um golpe que te faz repensar todo o livro e dá uma outra dinâmica. É um caso de livro longo que, pra mim, depende exclusivamente dessa porrada. Não “porrada” como algo chocante: porrada narrativa, mesmo. Mas, generalizando, acho que o Cortázar tem razão.

    Lucas – Outra pergunta inescapável: qual a origem do seu sobrenome?
    Galera – É italiano...

    Lucas – Você sofria gozação na escola? Do tipo “ah, vai pra galera!”... (risos)
    Galera – É... Mas só desse tipo. Era um bullying bem leve, nada que me atingisse como ser humano. (risos gerais). Era brincadeira com um termo popular. Então, aprendi a relevar desde cedo. Acho até bom, porque o sobrenome acaba sendo quase uma proteção contra ataques e apelidos que poderiam ser bem mais ofensivos. Nunca tive outro apelido a não ser Galera.

    Flávio – Bem subjetivamente, acha que o sobrenome te dá um jeito de “escritor jovem”?
    Galera – Essa é a parte que eu não gosto. Muita gente pensa que é um nome fantasia, escolhido... Mas é meu nome.

    Lucas – Daniel Galera, então: obrigado pela entrevista.
    Galera – De nada, valeu.




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    flavioaguilar@gmail.com
    leandro.s@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Excelente entrevista! Parabéns ao grupo e ao entrevistado. Vai deixar muita gente pensando. Abraços! Alexandre

    Ah! Exatamente os mesmos desgostos que eu! Clarice, Garcia Marques, Henry Miller... Sharon Caleffi

    Pessoal, show de bola. Entrevistado para lá de interessante, polemista. Temas vibrantes, atuais. Boas críticas. Já repassei o texto para outros colegas. Sigam assim. Um abração a todos. Miro Bacin