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    Google, o Grande Irmão?
    Renato Guimarães*
    03/06/2011


    Um dia desses, estava tentando me lembrar quando foi a primeira vez que usei o Google. Acho que foi logo depois que o buscador foi criado. Ou seja, lá se vão uns 10 anos. O site de busca nem era muito conhecido ainda no Brasil e cada vez que falava dele para alguém a pessoa meio que ria por causa do nome gozado. Hoje em dia o Google é quase sinônimo de internet, virou verbo, e não há ninguém que não o visite de vez em quando para tentar encontrar algo nessa barafunda virtual.

    Mas um dia desses em que não estava conseguindo me concentrar no trabalho fiquei pensando como o Google e outros sites de busca meio que funcionavam como o Grande Irmão, do Orwell. Tanto pelo sentido da vigia permanente sobre tudo o que fazemos na internet, como também pela possibilidade de constantemente reescrever a história.

    A nóia que bateu era a seguinte: a internet é tão grande, que só mesmo usando um motor de busca a gente consegue se situar e encontrar a informação que queremos. Mas informação tem aos montes. Então como definir o que é mais importante?

    O Google usa um sofisticadíssimo sistema de algoritmos que permite hierarquizar a referência que outros sites dão a um tema – ou a um site – para torná-lo mais relevante e deixá-lo na ponta de ranking de buscas. Assim, em tese aparece na primeira página aquilo que está mais próximo do nosso interesse, já que interessou antes a muitos outros internautas.

    Nem entro nos detalhes da complexa operação algorítmica que o Google precisa fazer para chegar a estes resultados em segundos. O fato é que o resultado que o buscador apresenta passa a ser “a” referência sobre o tema buscado. Como a maioria das pessoas só verifica os resultados que estão na primeira ou segunda página, são estes que realmente importam, e aí vai se criando um micro-mundo virtual em que o Google um pouco que determina o que é relevante na internet sobre determinado tema. Como muita gente hoje em dia – principalmente os mais jovens – usa apenas internet para se informar e fazer suas pesquisas, no limite é o Google e os outros buscadores que determinam o que é real ou não.

    E se alguém manipulasse estes resultados? Seria possível reescrever de maneira sub-reptícia a história? Não a “Grande História”, mas os pequenos fatos do cotidiano? Antes de me aprofundar muito nessa nóia, voltei ao trabalho – já tinha feito minha higiene mental nessa viagem.

    Daí lembro que há um tempo conheci um jornal alternativo excelente chamado Distancia, numa galeria de arte de Lima. Lá no final do tablóide havia um artigo interessantíssimo de Pierre Lazuly, um pensador que foi muito mais longe do que eu na análise dos motores de busca. Ele cita um caso em que os resultados do Google foram conscientemente manipulados de maneira a mudar a definição de um conceito novo.

    Em resumo, a história é a seguinte: lá pelos idos de fevereiro de 2003, o New York Times publicou um artigo em que defendia que os movimentos de protesto contra a invasão do Iraque significavam o surgimento de uma “segunda potência”, no sentido em que deixavam claro que existiriam duas superpotências: os Estados Unidos e a Opinião Pública mundial.

    A expressão foi repetida pelo ex-Secretário Geral da ONU Kofi Annan e outros líderes e reverberou na imprensa. Nos dias seguintes, se alguém procurasse no Google por “second superpower” era remetido diretamente para a definição original.

    Daí um nerd de Harvard, chamado James F. Moore, resolveu contra-atacar e escreveu no seu blog um texto chamado “The Second Superpower rears its beautiful head”. Era um texto anódino que esvaziava completamente o sentido original e que poderia até ser adotado pelo Partido Republicano. Logo outros tecno-nerds fizeram resenhas deste artigo e, como eram muito influentes na internet, passaram a ser cada vez mais referenciados pelo Google.

    Ao fim de 40 dias, qualquer pessoa que procurasse no Google a expressão “Second Superpower” era enviada para a definição vazia de Moore e não para a originalmente formulada pelo New York Times. A partir daí, se alguém não soubesse da história, pensaria que só existia a definição dos tecno-nerds. Ou seja, a história foi literalmente reescrita. E o pior: até hoje, se alguém usar o Google, encontrará a definição de Moore em primeiro lugar.

    A história completa foi contada pelo The Register e está aqui.

    Nas mãos do Google

    Outra contribuição muito boa para discussão do poder virtual e real que o Google e outros instrumentos de busca têm sobre nossas vidas é o conto de ficção científica “Scroogled” (algo como “engoogado”), escrito por Cory Doctorow, um dos editores do badalado blog sobre temas tecnológicos Boing Boing. O autor cria um cenário no qual o Google passa a colaborar com o governo americano, repassando para os serviços de segurança nacional dados sobre os anúncios que aparecem nas páginas de busca de cada um de nós. Com isso, os arapongas americanos passam a monitorar os hábitos de consumo aparentes de qualquer pessoa que alguma vez tenha usado o Google em busca de “sinais” de atividades criminosas ou terroristas.

    A história acompanha o aumento crescente da paranoia enfrentada por um ex-funcionário do Google apanhado na teia kafkiana de desconfiança criada pela análise dos anúncios publicados em seus resultados de busca. Com este mote, Cory Doctorow constrói um cenário assustador das implicações para a privacidade e os direitos civis do mau uso das informações coletadas pela constelação de serviços derivados do Google.

    O conto original, em inglês, pode ser lido aqui. Existe uma versão em português que pode ser lida aqui. O Wall Street Journal entrevistou Doctorow sobre sua história.

    Para fazer o download do pdf da revista Distancia, acesse aqui. O artigo de Pierre Lazuly está na edição 5 (maio de 2005).


    * Renato Guimarães é jornalista e vive em São Paulo. Edita o blog SustentaNews. Este texto foi originalmente publicado no site Amálgama.


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