Redemoinho
by Flávio Aguilar, de Londres
Viver bem em Barcelona
02/03/2010

Chegar a Barcelona vindo de Paris representou sair de uma atmosfera permeada por um patriotismo frio (arrogante) francês e encontrar um universo de patriotismo aconchegante, animadamente convidativo. A identidade cultural da Catalunha parece menos impregnada com a perigosa ideia de superioridade que contagia nacionalismos antiquados around the globe. Toda a contrariedade política intrínseca a uma comunidade autônoma sob a coroa espanhola não é suficiente para escurecer o orgulho alegre da sociedade local.
O debate sobre a autonomia catalã não interessa mais a tanta gente por lá. Uma independência total do território permanece uma questão de grande importância econômica e ideológica, mas a sociedade ainda tem vivas na memória as lembranças da ditadura de Francisco Franco, que, por anos, esmagou sua liberdade cultural e de expressão.
Hoje, a maioria da população é favorável à independência – um referendo sem caráter oficial revelou, no final do ano passado, que mais de 90% dos catalães quer ver a região totalmente livre da Espanha. Nas ruas da capital, porém, a sensação é de que todos esperam com naturalidade pelo dia em que isso ocorrerá. O senso comum é de que as coisas estão bem melhores – e de fato estão.
A economia da Catalunha cresceu rapidamente após a morte de Franco e a volta do regime republicano. Também aconteceu um renascimento cultural na região e foi conquistada maior autonomia em relação à Espanha. O mundo conheceu melhor suas particularidades e, principalmente após as Olimpíadas de 1992 em Barcelona, o turismo local se transformou em negócio extremamente lucrativo.
A Espanha parece, atualmente, depender muito mais da Catalunha do que o contrário. A região produz 25% do PIB nacional, tendo 16% da população total. Além disso, é o destino mais procurado pelos turistas e conta com indicadores sociais de fazer inveja a regiões mais tradicionais – e pobres – da Espanha, como a Andaluzia e Castela-La Mancha. Barcelona é uma das cidades mais agitadas do continente europeu. Há arte fervilhando nas esquinas, um contingente enorme de jovens atraídos pelas ótimas universidades catalãs e atrações noturnas modernas e variadas. Os dias de terror e miséria enfrentados durante a ditadura franquista parecem ter ficado, definitivamente, para trás. Resta esperar pelo que está à frente.
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