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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    A bola da vez?
    24/06/2009


    Ainda não ouvi alguém, neste país tropical, manifestar uma opinião contrária à realização da Copa do Mundo de 2014. A aclamação parece unânime. É “a Copa vem aí!” pra cá, “dá-lhe Brasil, dá-lhe 2014” pra lá, “será um acontecimento ótimo para o país” acolá... Nesse contexto, fazer um comentário desfavorável ao evento certamente daria crédito para um linchamento em praça pública. Eu, no entanto, mesmo correndo o risco de apanhar, sou obrigado a apresentar minhas ressalvas, principalmente sobre a insinuação de que a Copa pode melhorar a infraestrutura do país. Falando assim, a ideia parece totalmente procedente, lógica – mas é questionável.

    É óbvio que um evento do porte de uma Copa do Mundo gera muitos dividendos financeiros para os locais onde é realizado, especialmente pelo incremento do turismo. Mas daí achar que haverá uma melhoria geral nos serviços públicos, no setor de transportes e que a economia do Brasil dará um salto vai um tanto... A própria infraestrutura esportiva brasileira não é a maravilha que muitos pensam ser e precisa de amplos cuidados. Vários estádios terão de executar obras de modernização para a Copa, e para isso contarão, inclusive, com dinheiro público.

    Os recursos governamentais para essas obras, aliás, pelo que se tem anunciado, serão grandes (só Porto Alegre não destinará verba pública para a reformulação dos estádios, pois defende ser responsabilidade dos clubes fazer as mudanças estruturais de adequação indicadas pela FIFA). E terão de ser grandes mesmo, porque os estádios brasileiros, em sua maioria, além de não proporcionar conforto e segurança, são verdadeiros caldeirões de problemas para o torcedor. A Fonte Nova, em Salvador, por exemplo, estava interditada até pouco tempo, após o desabamento de parte de sua arquibancada que vitimou sete pessoas. Há muito o que melhorar.

    Além disso, essa questão dos investimentos oficiais na infraestrutura do evento também carrega pontos a serem discutidos. Que o clima geral no país seja de empolgação e vibração, é compreensível. Vivemos na dita “terra do futebol”. Mas seria muito bom se ao menos o governo deixasse um pouco de lado essa paixão brasileira pela bola, na hora de distribuir para os estados os recursos referentes a investimentos públicos, e tomasse certas decisões com mais ponderação. As 12 capitais escolhidas para sediar os jogos receberão o dinheiro federal – e as outras 15, como ficarão? Cidades como Florianópolis, Goiânia e Campo Grande não levarão nenhuma verba a mais para investir em, digamos, melhorias em transporte público e reformas em estradas, nos próximos anos? Esta discriminação de recursos não aconteceria se fôssemos um país desenvolvido como Alemanha ou Estados Unidos, pois nestes as economias dos estados se equivalem, e grandes obras num determinado estado não afetam os investimentos em outros. Aqui, porém, “nessepaís” de parcos investimentos públicos, é evidente que, para os estados que não sediarem a Copa, os recursos da União serão menores. Em 2015, depois que a festa acabar, veremos as discrepâncias.

    É importante destacar também que, sim, setores da economia como o da construção civil serão beneficiados e muitos empregos serão criados, mas isto será sazonal. Após os jogos, o ritmo voltará à normalidade. O evento movimentará as cidades-sede, com incremento na arrecadação de impostos de seus governos, mas por tempo obviamente limitado. A Copa do Mundo não nos tornará, de um mês para outro, um país desenvolvido, com segurança, emprego para todos e educação de alto nível. Investimentos em infraestrutura esportiva não provocam diretamente melhorias sociais. Ou se tem notícia, por exemplo, de que a Vila Olímpica do Rio de Janeiro, construída para o Pan-Americano de 2007, tenha melhorado a situação das favelas e dos subúrbios cariocas? A obra foi feita para constituir-se num local adequado para os atletas brasileiros treinarem (eles sempre reclamaram isso) e para contribuir na formação de novos esportistas (até, quem sabe, transformando potenciais criminosos em nadadores e ginastas), mas não foi responsável por um salto na qualidade de vida e nos números sociais do Rio de Janeiro e do país. A euforia em torno de 2014 dá-se, em grande parte, por esta ‘mistura’ de ideias, pelo ‘entendimento’ geral de que as obras previstas terão o poder mágico de melhorar a situação do país inteiro. Mas como, inclusive, declarou aquele famoso jogador de futebol, “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”...

    Se não é investimento em obras para a Copa que levará o Brasil para frente, o que é, então? Investimento em educação, logicamente. Não há como não insistir nesse apelo. Imagine todo esse esforço em prol da World Cup empregado também na área educacional... Seria uma revolução, uma virada de mesa nessas políticas irrisórias que o Brasil mantém para a educação (ou para a não-educação) de seu povo. Quem sabe assim, com investimento maciço em ensino básico e técnico e na formação de professores, poderíamos sair do vergonhoso 80° lugar do ranking da Unesco que mede melhorias na educação e finalmente apresentarmos uma população satisfatoriamente educada ao mundo. É uma questão de escolha. Pelo visto, novamente escalamos – desculpe o trocadilho com esporte – o caminho inverso. Para nossos governantes, é mais interessante dar um espetáculo no futebol do que na educação. O ufanismo esportivo nos cega, pois preferimos ficar entre os primeiros colocados nos campeonatos de futebol, mas atrás de Azerbaijão, Venezuela e Paraguai em qualidade de ensino.

    Sou um apreciador do futebol. O esporte bretão enraizou-se no Brasil, é um símbolo do país no exterior e nossos jogadores estão entre os melhores do mundo. Mas esses ‘títulos’ todos nunca melhoraram ou trouxeram perspectivas de avanço aos índices econômicos e sociais do país. Nosso furor em relação à Copa do Mundo, cinco anos antes, é quase inexplicável. Não podemos deixar o amarelo da camiseta dos jogadores ofuscar a nossa visão. A Copa é bem-vinda, mas de fato não é o caminho que levará o Brasil ao status de ‘país desenvolvido’. Ainda falta bastante para virarmos este placar. E deslumbramento, certamente, não é um fator que contribui nesse sentido.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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