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    Etc...

    O Manifesto Sabe-Tudo
    Fabiano Schüler*
    12/05/2009


    Eu sei mais do que você. Convença-me do contrário.

    Sério. Sou um sabe-tudo. Um desses bem insuportáveis. Sou parte do odiado grupo de pessoas que se acham melhores que as outras porque são mais informadas, pensam mais criticamente e se preocupam em defender seus pontos de vista de forma agressivamente convincente. Nós, sabe-tudos, somos assim. Dizemos “você está errado e eu vou provar” com grã alegria. Com um sorriso na cara. E não descansamos.

    Se você não é um de nós, deveria ser. Aliás, se não é um de nós, está fazendo mal a todo mundo. Por favor, pare agora mesmo e dê meia-volta. É urgente.

    O maior problema do Brasil não é a crise, a desigualdade, o governo do Fulano, do Cicrano, do Beltrano ou do Zé da esquina.

    Aliás, vamos manter as coisas simples. O Brasil tem um único problema. Um só. Unzinho.

    O problema do Brasil é que as pessoas têm nojo de gente sabida. Gente pedante. Gente sabichona. Não querem nem de longe ser vistas como parte dessa laia. Deus me livre e guarde de ser um sabe-tudo.

    Desconhecer é o novo preto. É daí que vêm – e é assim que se perpetuam – o voto errado, o ciclo de pobreza, a falta de oportunidade, o poder paralelo, a celebridade vazia, a Lei de Gérson. Brasileiro odeia gente que sabe demais. Você inclusive. Até eu.

    Além de ser sabe-tudo, metido, pedante, um sujeito de arrogância intragável, eu tenho outra característica odiosa. Eu extraio grande prazer intelectual do saber amplo. Das últimas descobertas em neurociência e psicologia evolutiva. Dos dados mais recentes sobre os satélites de Saturno. Da concepção quadridimensional do universo de Einstein.

    Odeie-me. Deseje que eu morra. Seja um típico brasileiro orgulhoso. Quem sou eu para dizer que você está errado? Quem sou eu pra tirar você do berço esplêndido, do conforto fetal da ignorância? Da humildade, da louvável escola da vida? Ah, a escola da vida...!

    Uma vez um sujeito me disse, apagando o cigarro e soprando a fumaça filosoficamente, existencialistamente, eu-li-a-contracapa-do-Zaratustramente:

    – Não viaja, cara. Não existe verdade absoluta.

    E eu:

    – Não mesmo?

    – Nop.

    – Isso não pode ser verdade.

    – Mas é, cara. Todo saber humano é regido por ideologias com as quais estamos comprometidos, cara. O que é verdade pra você pode não ser pra mim, cara. Tudo é relativo, cara.

    – Não, não, não está me entendendo. Eu me refiro à frase “não existe verdade absoluta”. Ela não faz sentido. É uma afirmação logicamente inviável. Porque, pra ser verdade, ela também não pode ser absoluta. Precisa prever uma exceção a si mesma. E a única exceção possível para a regra “não existe verdade absoluta” é, bem... a existência de alguma verdade absoluta. Assim, para estar certo, você precisa estar errado.

    – ...

    – Pois é. Ahn... “cara”.

    Eu digo: não negue o absoluto. O absoluto é lindo. Dois mais dois são lindamente quatro. Sempre vão ser. O hidrogênio é lindamente o elemento químico mais leve do universo, hoje e sempre. “Ah, mas podem descobrir um mais leve que ele a qualquer momento”, responde o imbecil mais próximo. Não, não podem. E se você não sabe o motivo, eu estufo meu peito e digo: sou melhor que você. Melhor não (só) para mim. Melhor para todos.


    * Fabiano Schüler é redator publicitário e tradutor. Mantém o blog InAbrupto, em que este texto foi originalmente publicado.


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