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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Cuidado: metáforas!
    29/04/2009


    Em tempos em que a informação é difundida mais rapidamente do que é absorvida, notabiliza-se a disseminação do uso de metáforas por parte de líderes políticos e religiosos. O emprego dessa figura de linguagem é a opção preferida de senadores, ministros, presidentes, bispos e gurus para expressar opiniões rápidas e marcantes. O problema é que, na maioria das vezes, o uso que eles fazem de tal recurso é desastrado.

    Antes que alguém reclame, deixo claro que não tenho nada contra metáforas, desde que bem utilizadas. Os filósofos gregos, por exemplo, se valiam do recurso para exprimir seus pensamentos de maneira que não ficassem dúvidas em relação aos significados deles – e, assim, ainda conseguiam incitar o raciocínio do leitor. Na literatura, também, essa ferramenta é sempre desejável e bem-vinda. Grandes romancistas e poetas já fizeram uso marcante de metáforas, e um dos mais famosos sonetos de Luis de Camões, em que o português define o amor por meio de várias delas, é prova disso: “Amor é fogo que arde sem se ver/É ferida que dói e não se sente...”.

    Metáforas são mesmo fascinantes. Seguem um caminho que pode ser dúbio, mas são certeiras quando bem elaboradas. Fazem a frase percorrer um trajeto para chegar a outro, e é isso que as torna tão interessantes e poderosas. Seu poder, aliás, é conhecido desde sempre por líderes religiosos, que, como lembrei no primeiro parágrafo, criam intencionalmente muitas metáforas em seus discursos, para incrementar a compreensão e a persuasão das mensagens que defendem. Não é à toa, por exemplo, que as histórias da Bíblia sejam bastante metafóricas. Esse recurso de linguagem não produz um sentido literal na nossa mente, mas um sentido figurado, captado pelo inconsciente – o que pode gerar melhores resultados no entendimento da mensagem.

    Não é apenas no terreno do discurso religioso, porém, que as metáforas brotam com força (e esta é uma metáfora). Brotam igualmente no político, como também citei. Aqui no Brasil, no período da ditadura militar, por exemplo, a população era frequentemente ‘brindada’ com as metáforas dos generais-presidentes e de seus assessores. Suas declarações nesse estilo tinham o óbvio intuito de mandar algum recado ao povo. Quem não conhece a famigerada frase “É preciso fazer o bolo crescer para depois reparti-lo”, cunhada por Delfim Netto, ministro da Fazenda nos governos Costa e Silva e Médici, para explicar que era preciso aumentar a arrecadação federal para depois distribuir renda? Da mesma forma, nesse período, Chico Buarque burlou a censura com canções de letras altamente metafóricas e também mandou o seu recado – contra os militares, é claro. A comunicação oral, a propósito, é infestada de imperceptíveis metáforas, que, com analogias, trocadilhos e comparações, contribuem para tornar mais rico o nosso vocabulário.

    Já nos dias de hoje, cabe ao presidente Lula o papel de produtor oficial de metáforas. Ele também parece acreditar muito no artifício como a melhor forma de se falar com o povo e com a imprensa. Já estamos acostumados a ouvi-lo dando declarações do tipo “A vaca vai pro brejo, se o Brasil não tomar cuidado”, ou “A gente leva nove meses para nascer; paciência”. Isso sem falar nas suas já famosas metáforas futebolísticas (“Ninguém ganha o jogo antes do apito final do juiz”, sobre as eleições de 2006), de que constantemente lança mão em seus pronunciamentos. Muitos afirmam que esta é a maneira que Lula encontrou para melhor expressar suas ideias (ou a falta delas), mas parece evidente que suas metáforas geram mais controvérsia do que entendimento, e seus discursos, muitas vezes, acabam saindo pela culatra. Como aconteceu recentemente, em março, durante a visita do premier britânico Gordon Brown ao Brasil. Lula, ao se manifestar sobre a crise econômica mundial, disse: “A crise foi causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis que antes da crise parecia que sabia de tudo e agora demonstra não saber nada”. O que era para ser um simples pronunciamento tornou-se um festival de declarações infelizes, e a fala do presidente, de conotação racista, repercutiu no mundo inteiro.

    Toda classificação simplifica, comentou o antropólogo Roberto DaMatta, no jornal O Globo do último dia 1º de abril (e é verdade). Mas, segundo ele, “O código racista faz mais que isso. Ele reduz um evento complicado a uma causa única, e situa no campo das aparências físicas fatos que têm muitas causas e não podem ser satisfatoriamente explicáveis exclusivamente por nenhuma delas”. Lula pode não ter tido a intenção de fazer um comentário racista, mas que a metáfora usada foi, mais uma vez, infeliz, isso foi. Com a afirmação adicional de que não conhecia “nenhum banqueiro negro”, ele demonstrou não saber, por exemplo, que um dos principais bancos americanos, o Merrill Lynch, já foi comandado por um negro chamado Stanley O’Neal; que, atualmente, o Citigroup é dirigido pelo indiano Vikram Pandit, outro que também não pode ser considerado ‘branco’; e que o atual CEO da American Express é o afro-americano Kenneth Chenault. Parece que nosso presidente não tem ideia de que crise, enfim, não tem cor de pele ou de olhos. Crise é crise.

    Lula, inegavelmente, é um político que sabe se comunicar com as massas. Faz discursos de teor ‘popular’ e sempre tenta arrancar risos das plateias. Mas, depois de tantas declarações afobadas e metáforas infelizes, já não estaria na hora de sua equipe aconselhá-lo a ser mais cuidadoso com o que diz? Parece que não. Para o assessor especial da presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, no episódio com Brown o presidente utilizou “apenas” uma metáfora, e “As metáforas não se explicam, são óbvias e cada um tem uma versão”. No entanto, ao contrário do que pensa Garcia, metáforas se explicam, sim. E a explicação depreendida do comentário de Lula é a de que ele vê a crise econômica como resultado de atributos étnicos.

    Lula não é um filósofo ou um apóstolo do evangelho, mas sabe que metáforas alcançam maior repercussão do que um extenso discurso à Fidel Castro e, assim, usa e abusa do recurso. Que elas são muitas vezes necessárias para expressar um pensamento ou um sentimento, já sabemos. O problema é justamente quando rompem a barreira do bom senso e da elegância e acabam exprimindo preconceitos e/ou servindo de veículo para brincadeiras de mau gosto. Metáforas fazem parte da nossa comunicação coloquial, encontram-se nas canções e na literatura, mas utilizar essa figura de linguagem corretamente é privilégio de poucos. E Lula não aparece entre esses poucos. No quesito ‘boas metáforas’, prefiro continuar com Camões.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Muito bom, Leandro! Esse Lula é uma figura mesmo, ele é a própria metáfora. É mais fácil falar assim e cada um interpretar como quer do que ser claro e ter uma única interpretação, não é? Continue espalhando tuas opiniões, são ótimas! Vanessa Nascimento

    Eu acho q tá na hora de vc atualizar esse blog, o LULA nem presidente é mais... Milena Facedar