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    O que faz de um compositor um gênio da música? As ousadias harmônicas, as inovações rítmicas, as sutilezas melódicas? Pode ser. No caso do argentino Astor Piazzolla, porém, todos esses critérios parecem irrelevantes. Basta ouvir algumas de suas criações para perceber que se está diante de algo realmente especial, algo que provoca êxtase, ao mesmo tempo em que impressiona pela complexidade técnica. Algo genial, portanto. O problema é que os gênios, quase sempre, são incompreendidos, e Piazzolla não foi exceção. Ele morreu há quase 16 anos, em julho de 1992, sem usufruir, na Argentina, de um pleno reconhecimento por sua obra.

    Piazzolla dedicou sua carreira à renovação do tango. Trouxe para o gênero portenho elementos do jazz e da música clássica, refinando-o e empreendendo uma revolução semelhante à de Tom Jobim na música brasileira. Provou que o estilo musical tornado célebre por Carlos Gardel oferecia muitas possibilidades e, justamente nisso, bateu de frente com aqueles que aceitavam somente a estética tradicional do tango. Criticado pelos puristas, Piazzolla saiu da Argentina e foi mostrar sua arte pelo mundo. Começou a flertar com bossa-novistas brasileiros e, nos Estados Unidos e na Europa, conquistou a admiração de jazzistas. O saxofonista americano Gerry Mulligan, um dos grandes nomes do jazz, por exemplo, foi um dos músicos fisgados pelo som inovador de Piazzolla. O que Mulligan não sabia era que a atração, na verdade, era mútua.

    Reunidos em Milão, Itália, em 1974, Piazzolla e Mulligan gravaram o antológico “Summit - Reunión Cumbre”, disco que se constitui num exemplar característico da obra de Piazzolla. A sonoridade é cool, intimista, em alguns momentos. Forte, em outros. Rica, sempre. O bandoneón do argentino e o sax barítono do americano soam extremamente melódicos, compondo uma atmosfera tango-jazzy envolvente, em que a excelência musical de Piazzolla, diretor, produtor e arranjador do álbum, se impõe. Ele, aliás, impossível não dizer, faz as músicas crescerem, sempre que entra com seu bandoneón. Sem desconsiderar o (grande) talento de Mulligan, é Piazzolla quem “rouba a cena” no álbum.


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    Algumas das melhores composições dele estão ali. É o caso de “Twenty Years Ago”, que conta com um belo solo de piano, e a arrebatadora “Years of Solitude” (música que o escritor Caio Fernando Abreu sugeriu como ‘trilha sonora’ para a leitura de seu conto “Pela Noite”). O título da segunda faixa indica o que se deve fazer para ouvi-la: “Close Your Eyes and Listen”. Todas as músicas são de Piazzolla. Somente “Aire de Buenos Aires”, a sexta faixa, é de Mulligan. Neste ponto, inclusive, reside uma das lendas em torno da gravação de “Summit”. Há quem sustente que “Aire de Buenos Aires” foi a única composição do saxofonista que Piazzolla gostou – as outras, achou péssimas. Além disso, dizem que ele ficou irritado com o fato de o parceiro não saber ler partituras. Conseqüências da sua fama de genioso? Talvez. Piazzolla era genioso e genial. As inovações que trouxe para a música argentina abriram caminho para várias propostas diferenciadas, como a do grupo Gotan Project, que hoje faz sucesso de público e crítica com sua fusão de tango e música eletrônica. Os integrantes do Gotan, a propósito, têm Piazzolla em alta conta.

    Quanto aos tangueros tradicionais, somente hoje, 16 anos depois da morte de Piazzolla, é possível afirmar que eles finalmente reconheceram e assimilaram sua obra. Uns poucos ainda torcem o nariz (ô, gente...), mas nada que incomode. Quem agradece a Piazzolla por sua obra é a Boa Música – essa mesma, com letra maiúscula.

    Classic Movies

    Nessa seção do blog, o filme da vez é “A Noite Americana”, do francês François Truffaut. Leiam e comentem.

    Festival de Besteiras que Assola o País

    Mais uma declaração cara-de-pau para ser registrada no Febeapá do MM:

    Não fiz de maneira deliberada ou premeditada. Se anexei esse arquivo Excel, foi por engano ou por descuido. Uma falha humana”.

    - José Aparecido Nunes Pires, ex-funcionário da Casa Civil acusado de vazar o dossiê sobre gastos da presidência no governo FHC, durante depoimento à CPI dos Cartões Corporativos, terça-feira passada.

    Mandou um e-mail com anexo sem querer? Ah, tá.


    lucas colombo assinaturaLucas Colombo

    Jornalista, professor, colaborador de revistas e cadernos de cultura, editor do Mínimo Múltiplo, organizador do livro "Os Melhores Textos do Mínimo Múltiplo" (Bartlebee, 2014).


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