Caso peculiar no cinema brasileiro, Walter Hugo Khouri (1929-2003) resistiu a patrulhas de colegas que o tachavam de "alienado" para persistir numa obra de caráter intimista e existencialista, da qual filmes como Noite Vazia e o controverso Amor, Estranho Amor são pontos altos. Para ele, interessava abordar a condição humana não sob o prisma coletivo, mas a partir de seu mínimo agente do caos: o indivíduo. Neste livro, Donny Correia traz um panorama da vida e da obra do cineasta e um ensaio filosófico a respeito dos seus O Anjo da Noite e As Filhas do Fogo, filmes "de terror" cada vez mais valorizados e títulos mais exóticos de uma filmografia a que nunca faltou personalidade.
Anatomia do Horror em Walter Hugo Khouri é o segundo volume da coleção Tipos Raros, projeto da Editora Mínimo Múltiplo.
Texto de orelha: Selma Egrei
Prefácio: Joel Pizzini
Posfácio: Laura Cánepa
Design gráfico e ilustrações de vinhetas: Maíra Lacerda
Pintura da capa: Roberta Agostini a partir de foto de Fabiano Accorsi
Ilustração do miolo: Roberta Agostini
Edição: Lucas Colombo
Apoio: Cinemateca Brasileira
Apoio editorial à coleção: Robertson Frizero
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Sobre o Autor
Donny Correia é poeta, pesquisador, professor e crítico, graduado em Letras e mestre e doutor em Estética e História da Arte. É membro da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine) e da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA). Publicou, entre outros, os livros de poesia Corpocárcere (2013), Zero nas Veias (2015) e Touro Medusa (2022), além de ter organizado Na Treva da Província (2021), antologia de poemas do autor simbolista Emiliano Perneta, e O Movimento Modernista e Outras Prosas Afins (2022), compilação de textos de Mário de Andrade. Também publicou Cinematographos de Guilherme de Almeida: Antologia da Crítica Cinematográfica (2016), Cinefilia Crônica: Comentários sobre o Filme de Invenção (2019) e O Cinema de Walter Hugo Khouri (2025). É colaborador dos jornais O Estado de São Paulo e Folha de S.Paulo e professor do departamento de Cinema e Audiovisual do Centro Universitário Belas Artes (SP). É criador do canal Uma Teia de Ideias, no Youtube.
| Informações Adicionais Ano: 2026 ISBN: 9786599856013 Edição: 1ª País: Brasil Páginas: 100 Formato: brochura Dimensão: 14x21cm Peso: 0,200 |
Leia trechos:
Do capítulo "Khouri e a (in)condição humana"
"Para Khouri, o mais importante era continuar filmando, a despeito das condições gerais e da recepção. Por isso, passou a realizar obras cada vez mais pessoais e sempre com poucos personagens, prezando uma estética do silêncio, dos olhares ricos em discursos mudos e da beleza de suas atrizes, fotografadas como se fossem esculturas gregas – muito diferente da nudez que alimentava ascomédias e dramas eróticos da Boca do Lixo, no mesmo período. São dessa fase obras como As Deusas (1972), O Último Êxtase (1973) e O Desejo (1975), tríade a que chamo 'Trilogia do Abismo', por investir nas relações diretas de dois ou três personagens encerrados em espaços intimistas, questionando e remoendo calos relacionais incuráveis. É a fase em que Khouri examina a imensa cratera existencial da classe burguesa, expondo a hipocrisia, a alienação e as obsessões que resumem a condição humana. Também é quando o próprio cineasta passou a reconhecer que dificilmente atrairia grandes plateias para seus longas, já que a crítica exaltava sua destreza estilística, mas o público não compreendia seu discurso.
Entre um trabalho pessoal e outro, Khouri se envolveu em produções de gênero, esperando capitalizar novamente nas bilheterias. Dirigiu os dois filmes de terror psicológico e sobrenatural esmiuçados nos próximos capítulos deste livro: O Anjo da Noite (1974) e As Filhas do Fogo (1978). O público ainda reagiu de forma tímida, uma vez que o gênero de horror sempre parece ter sido um tabu no cinema nacional [...].
Embora fosse Khouri completamente avesso à ideia de um 'sentido' ou 'mensagem' embutidos em seus filmes, preferindo defini-los como exercícios de 'atmosferas', residem justamente na névoa dessa atmosfera as várias pistas para desvendar os comentários sociais e existenciais que, se em sua época faziam dele alvo de críticas ácidas por parte de alguns, hoje se provam mais atuais do que poderia se supor. Longe de mero diletantismo ou monotonia temática, o que o cineasta construiu entre O Gigante de Pedra e Paixão Perdida se coloca num âmbito de ideias e estilos pouco comum aos estudos do cinema nacional, por isso tanto estranhamento. Um estranhamento que se desfaz na constatação de quea arte é sempre universal, em primeiro lugar e para começo de qualquer conversa."
Do capítulo "Hic Habitat Numen"
"'Cuidado com estas crianças. Estas crianças são frágeis, quebradiças', adverte a governanta da casa a Ana [de O Anjo da Noite], que retruca, incrédula: 'Não parecem'. Novamente os elementos de um bom suspense de horror: a vítima que não crê no insólito do ambiente que habita. Um ambiente, aliás, rodeado de uma decoração que conjumina armas de fogo, móveis exageradamente rococós e muitas, muitas imagens de vários tamanhos no mais puro estilo barroco brasileiro. Uma herança de Aleijadinho a partir das origens italianas, passando pela tradição ibérica. O tal 'anjo', se quisermos pistas materiais da analogia, se apresenta diversas vezes, em imagens de tamanhos variados, em cômodos distintos na casa. Casa de cujo teto pende sobre aqueles que a adentram um formato inconfundível de tampa de caixão vista de dentro da mortalha. Por sinal, uma tampa que lembra a de esquifes utilitárias, sem muito esmero."
Do capítulo "Khouri Expressionista: transferências psicoeletrônicas"
"A exemplo da construção do suspense em O Anjo da Noite, em As Filhas do Fogo Khouri nos coloca numa posição de observadores que, embora onipresentes, não sabem o que exatamente perpassa os personagens. Diferente, porém, da Ana que transita na rodoviária do Rio de Janeiro seguida por uma câmera nervosa, quando a Ana que chega a Gramado narra toda a sua viagem, o cineasta cria uma montagem que alude a uma fronteira entre o mundo palpável e um mundo suspenso. Um cruzamento de dimensões análogo à viagem de Hutter aos Montes Cárpatos, em Nosferatu (1922). Desde o primeiro momento, Ana se sente observada – como a própria verbaliza – e vê a estranheza no rosto daqueles que não a reconhecem como uma pessoa local. Os campesinos da área rural lembram figuras deformadas pelo peso da vida dura, como nas pinturas de Velázquez e Rembrandt."


