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    A frase


    — Eu… Eu matei. Esfaqueei. O amor. Da. Minha vida. Sangue. Meu Deus, o que foi que eu fiz? Venha! Venha! Acho que não. Morto. Muito sangue. Jesus, quem vai limpar todo esse sangue? Me prenda, me prenda. Venha! Vou deixar a porta aberta.

    Quando os policiais chegaram, encontraram Rebeca ajoelhada ao lado do corpo do marido. Raul olhava para o teto com os olhos esbugalhados e um sorriso agora eterno, o peito mortalmente ferido por instrumento perfurocortante, como dizem os peritos.

    — Por quê, meu Deus?! Por quê? — se perguntava a assassina viúva. Era teatro. Rebeca sabia muito bem por que tinha matado o marido. Foi por causa da frase. Da frase e da concepção da frase.


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    Mas isso ela jamais admitiria.

    *

    Raul estava entrando no banho quando lhe surgiu a frase (tecnicamente uma sentença).

    Começou com uma menina nova junto de um velho, e esse velho foi envelhecendo ao longo da frase, alcançando setenta ou oitenta anos já no ponto final. A menina, por sua vez, no começo era apenas uma adolescente, maior de idade ou com dezessete anos e onze meses, e no pleno gozo de suas faculdades mentais, como se diz. Mas envelheceu, ou melhor, foi obrigada a envelhecer (não muito) para evitar acusações de pedofilia ou coisa que o valha dos leitores oh sempre tão puritanos. Então vamos dizer que a menina tinha lá seus vinte e dois anos recém-completados.

    Aí Raul foi elaborando a coisa, jogando uma pimentinha aqui, um salzinho ali, um vinagre balsâmico acolá. E, quando deu por si, Raul estava num quarto de motel bem cafona, diante do velho e da menina, ela só de calcinha e ele com a pança peluda espalhada pela cama, o pinto murcho ou, pior, naquela semiereção que é só e sempre uma deprimente promessa não-realizada. Aí a menina, com toda a lascívia que lhe era permitida àquele horário e com uma calcinha daquelas, fez o biquinho mais perfeito do mundo e disse:

    — Tio, eu nunca fiz isso…

    (Ela chama o velho de “tio” não porque o veja como um tiozão. Não. Na realidade, a menina gosta do velho. Talvez até o ame. Ela vê nele uma fonte de conhecimento e sabedoria. Ela o admira por tudo o que ele já realizou na vida. Ela se orgulha de entrar com ele nos restaurantes, as pessoas todas pensando que ela, ah, ela é especial, ela é inteligentíssima, ela é a mulher, não a menina, capaz de seduzir um homem. Um homem mais velho. Aquele velho. Ela o chama de tio porque… porque combina com a cena que Raul está imaginando, oras!)

    Ao que o velho respondeu o de sempre:

    — Nunca fez? Tem certeza?

    — Não. Não sei fazer isso. Mas eu quero tanto…

    — Vem cá, sua putinha. Deixa que eu te ensino.

    Aí Raul olhou para o espelho e riu. Da traquinagem, sim. Do palavrão também. Mas sobretudo do malabarismo que ele teria de fazer agora para transformar aquilo numa frase (tecnicamente uma sentença) a mais perfeita possível, quase um aforismo. Já sob a água quente, ele sorriu mais uma vez diante da própria destreza. Em apenas dez segundos ele cortou o sujeito, pegou uns substantivos, umas conjunções, uns adjetivos e até uns advérbios, jogou sobre a mistura duas aspas e concebeu ela, a frase que mais tarde seria a causa de sua morte:

    Soube que estava ficando velho quando todas as suas fantasias envolviam uma mulher mais nova e a mesma fala de sempre: “Deixa que eu te ensino”.

    Raul repetiu a frase duas vezes na cabeça e mais duas vezes para o banheiro enevoado. E ficou contente com sua criação. E, correndo o risco de parecer cabotino e mais ridículo do que o normal, disse de si para si: “Caralho! Eu sou um gênio mesmo”. E teve vontade de ligar para Rebeca naquele exato momento e lhe dizer a frase e ouvi-la rir aquele riso gostoso, esganiçado, quase histérico, ou então dizer “geeeeeente!”, como quem percebe a genialidade da coisa (no caso, da frase), mas não tem muito o que dizer porque, convenhamos, não havia mesmo nada o que ela pudesse acrescentar. Ele já ia fechando o chuveiro e saindo correndo pelado molhado atrás do celular quando a prudência o deteve.

    Porque Raul sabia que Rebeca era, além de esperta e perspicaz, muito ciumenta. Ela invariavelmente perguntaria de onde ele tirou a ideia da frase, por que ele formulou a frase, quem era a menina (porque ele, obviamente, era o velho), quando ele pensou na frase, tava de pau duro, é?, seu canalha, não sou boba, não, Raul, eu não nasci ontem, sei muito bem o que você anda pensando por aí, sei que você curte uma frase de efeito sussurrada na orelha dessas muitas menininhas que ficam olhando pra você e pensando que homem!… E Raul, apesar de ter concebido a frase e de querer compartilhá-la com o maior número de leitores possível, não queria ter de se explicar noite adentro para Rebeca. Ainda mais por causa de uma concepção que não teve nada de erótico, como se verá nos parágrafos seguintes.

    O fato é que Raul estava tomando seu café de todas as tardes na padaria quando entrou uma velha toda perua, com calça de oncinha e saltos altos demais, os cabelos secos e velhos e pintados de um amarelo aberrante, a boca preenchida com ácido hialurônico e o nariz retocado por um bisturi pouco habilidoso. E ela olhou para Raul com olhos de cobiça senil. Raul desviou o olhar e, por um instante, um átimo, uma coisinha assim bem à toa mesmo, imaginou a velha na cama, as pernas abertas, pedindo para ele chegar mais perto. Nessa hora, Raul vomitou um pouquinho dentro da própria boca.

    Logo em seguida, e só pelo gosto algo sádico de fazer analogias absurdas, o cérebro de Raul lhe projetou rapidamente, bem rápido mesmo, tão rápido que Raul quase não se deu conta, a imagem de uma menina, ou melhor, uma mulher jovem, assim deitada na cama, toda entregue como a velha ainda agora há pouco estivera, pedindo que ele, ora, logo ele, lhe ensinasse tudo o que ela não sabia. E, ao imaginar isso, Raul percebeu que tinha ficado velho.

    Não que isso fosse um problema. De jeito nenhum. Raul estava bem com a própria idade. Ou seja, a frase não tinha nada a ver com Raul. Como mais tarde ele diria a uma Rebeca enfurecida e de faca em punho, uns olhos azedos e a boca uma tripinha de lábio, era só uma frase de efeito, uma tentativa de wit, uma provocação algo melancólica e sexualmente sugestiva sobre a velhice. E talvez sobre a persistência da safadeza na velhice.

    Raul, então, saiu do banho, enxugou-se rapidamente e tratou logo de registrar a frase num caderninho, para o caso de precisar dela no futuro. Teve início, então, um longo debate íntimo sobre compartilhar ou não a frase com Rebeca. Raul estava assim meio apaixonado pela frase. Embasbacado mesmo. O que não faz sentido, porque a frase não é tão boa. Não é nada boa. Que porcaria de frase. Nem vale a pena. Por outro lado, se é ruim e não vale a pena, então a frase é inofensiva, e Rebeca a ouvirá com um bocejo e um esquecimento.

    Melhor parar por aqui. Rebeca já mandou mensagem avisando que está saindo do trabalho e deve chegar a qualquer momento. Ah, não disse? É ela abrindo a porta. Oi, amor. Nossa, eu sou um gênio! Você não tem ideia da frase que eu escrevi hoje.


    paulo polzonoff jrPaulo Polzonoff Jr.

    Jornalista, crítico literário, tradutor e escritor, autor de "Manuel Bandeira" (2006) e "O Homem que Matou Luiz Inácio" (e-book, 2016).



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