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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Reta final
    08/11/2012


    O publicitário riscou da lista os itens Esportes, Comidas Típicas e Músicas. Seria arriscado fazer seu cliente cantar a essa altura da batalha, pensou, desinteressado, ao eliminar o último. Estava entre o sono e a vigília. Entre uma vontade louca de sair para beber e o dever de se concentrar para dormir. O primeiro turno havia deixado todos da equipe exaustos! Ele ainda mais, pois, mesmo que física e psicologicamente esgotado, não conseguia desacelerar os pensamentos que ora o levavam a crer na derrota anunciada, ora numa reviravolta que também para ele seria um ganho de ânimo para lavar a alma. Não dormia direito há dias!

    A voz do candidato assessorado pela agência que o empregava não era das melhores. E tinha maneirismos: falava como se explicasse pela primeira vez ao mundo o significado de cada uma de suas frases: “Mais escolas. Maior comprometimento com o transporte público. Atendimento de qualidade na área da saúde”. As pausas entre uma palavra e outra eram irritantes e soavam professorais, mas isso era ponto fora de questão, dada a teimosia do homem e a dinâmica dessa eleição. Não havia como controlar a enxurrada de flashes das câmeras de celular que colocavam o candidato em situações escabrosas nas redes sociais, nem como convencê-lo a fazer mais sessões com a fonoaudióloga e a preparadora de elenco. Essa última detestada pelo político, que quase a demitiu ao ouvir que deveria tirar a máscara e deixar que os olhos do eleitorado se aproximassem mais de seu verdadeiro Eu. “Ela é psicóloga? Quanto pagamos para essa mulher falar essas asneiras?”, gritara com o dono da agência.

    A ideia de fazer o candidato subir num skate tinha sido dele, um destemido e confiante publicitário, assistente do número um da campanha. Ideia horrorosa, disseram seus chefes, depois do escorregão do candidato trainee de skatista. Alegou que deveriam ter ensaiado com ele mais vezes. Argumentou que o candidato se recusou a usar tênis no dia do incidente. Nada adiantava. Lidava com tubarões usando rede para sardinha.

    Não tinha a mínima desconfiança de que sua agência não era concorrente da agência do marqueteiro do outro partido, e sim propriedade do mesmo grupo empresarial. Os candidatos também não deviam saber que pagavam fortunas à mesma pessoa jurídica. As estratégias eram quase que sorteadas entre os chefes das equipes. Adversárias aos olhos do público, mas companheiras de longa data no mundo da publicidade e do marketing político. Uma aberração só tolerada na mais funcional das democracias. Para quem isso funcionava, era algo a saber.

    Naquela noite de alívio temperado com desesperança, o jovem publicitário ansiava pelo final de tudo. Seu humor oscilava entre o contentamento pelo candidato ter chegado ao segundo turno e o empenho para uma surpreendente vitória. O que desmentiria todas as pesquisas, além de suavizar os estragos de suas táticas malsucedidas para tornar o insosso mais palatável.

    Há oito anos, então estagiário, havia trabalhado para o marqueteiro que hoje liderava a campanha do adversário. Sentia orgulho de estar no time oposto (como acreditava). Buscava nos manuais e em exemplos de campanhas de outros países e na história política da cidade algum fato que pudesse usar. Onde estava aquele artifício que poderia mudar o destino da eleição, da sua vida profissional e... de mais nada.

    Consultou as pesquisas que haviam apontado o terceiro colocado numa vitória esmagadora já no primeiro turno. Insondáveis os motivos. Ele sabia que as explicações dadas pelos analistas, pela empresa responsável e pelo candidato eram todas obtusas porque ninguém sabia o que realmente acontecera.

    Abriu um dos livros de J. G. Ballard no prefácio e releu pela milionésima vez: “vivemos num mundo regido por ficções de todos os tipos – o consumo de massa, a propaganda, a política conduzida como um ramo da propaganda, o pré-esvaziamento operado pela tela da televisão, de qualquer resposta original à experiência. Vivemos no interior de uma enorme novela”.

    Nesse capítulo de sua vida o mundo em que ele vivia parecia diminuir. Se seu candidato perdesse, não poderia continuar bancando os estudos do irmão mais novo numa escola para crianças especiais. Nem contratar a companhia caríssima e terapêutica de amigas divertidíssimas e super open minded! Ele sabia que essa era uma terapia pré-depressão. Teria logo que encarar sua dificuldade com relacionamentos e intimidade.

    Trabalhou os dias seguintes com afinco e disposição. Poder e dinheiro não eram tudo. Não em alguma aldeia indiana ou à beira do rio São Francisco, mas aqui na metrópole não poderia viver sem eles. Como faria se fosse desligado da agência? Afastou essas questões mergulhando no trabalho; tratava a todos com atenção e delicadeza.

    O dia que não poderia evitar chegou. Seu candidato leu uma carta breve e respeitosa. Alardeava uma energia que parecia estar só na carta. Desejos de sorte ao vencedor. Palmas da plateia. Nenhum truque cênico mais arrojado.

    O publicitário desligou seu tablet e enviou pelo smartphone uma mensagem a uma antiga namorada dos tempos da faculdade: “Podemos marcar algo essa semana? Encare como um reencontro com o passado recente e uma abertura para algo que não precisamos saber o que é”.


    @rafaelfaisjorn


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