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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Kubrick
    22/03/2012


    Um dos grandes artistas da história do cinema foi um transgressor, alguém que rompeu com as convenções da produção cinematográfica de seu tempo. Foi também, pessoalmente, um enigma, pois, de personalidade reservada, não gostava de aparecer em público nem de dar entrevistas. Teve o privilégio de trabalhar em casa, ao lado da família e amigos. A pré-produção dos seus filmes – pesquisa, storyboard, roteiro, reunião com atores – eram realizados na sua residência, onde trabalhavam ainda seus assistentes de direção.

    Apaixonado por xadrez, levava a estratégia do jogo para sua vida, às vezes com cautela, às vezes com agressividade. Correu riscos, mas sempre conscientemente.

    Nascido em Nova Iorque, em 26 de julho de 1928, Stanley Kubrick viveu 40 anos na Inglaterra, onde morreu, em 07 de março de 1999. Seu pai, médico, tinha um laboratório fotográfico caseiro, no qual o menino Stanley fazia experiências. Esta foi a base para seu primeiro trabalho, como fotógrafo, iniciado aos 16 anos quando vendeu para a revista Look uma foto de um jornaleiro lamentando a morte do então presidente Franklin Roosevelt. Contratado pela revista, teve oportunidade de experimentar novas perspectivas de retrato. Entretando, seu interesse maior viria a ser pelas imagens em movimento.

    A estreia de Kubrick no cinema foi com o documentário de curta duração “Day of the Fight”, em 1950. Após este trabalho, demitiu-se da Look e passou a dedicar-se inteiramente ao cinema. Em 1953, financiado pelo pai, que resgatou o seguro de vida para ajudá-lo, lançou o primeiro longa-metragem, “Fear and Desire”, sobre uma guerra fictícia. Mais tarde, Kubrick renegou o filme e o retirou de circulação. Uma das hipóteses é que ele tenha observado ser esta produção apenas um exercício de aprendizado de um jovem sem experiência e com pouco conhecimento cinematográfico.

    O filme que acabaria por rejeitar, porém, foi “vitrine” para o cineasta autodidata e lhe garantiu um pequeno financiamento para “A Morte Passou Por Perto” (Killer’s Kiss, 1955). Mesmo com poucos recursos para a produção, o diretor demonstra neste noir uma grande desenvoltura no uso da luz.

    Um ano após, em parceria com o diretor James Harris, criou “O Grande Golpe” (The Killing). O longa, além de ter tido sucesso comercial, tornou-se um marco, pela montagem inovadora. Dizem alguns críticos que “O Grande Golpe” foi a referência para a narrativa fragmentada de “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, que Quentin Tarantino lançou em 1994. De fato, os filmes têm estruturas semelhantes. O de Tarantino virou cult, mas talvez não seja tão “genial” quanto seus admiradores acreditam...

    Glória Feita de Sangue” (Paths of Glory), de 1957, foi a produção seguinte de Kubrick. Ambientada na 1ª Guerra Mundial, retrata a relutância do coronel francês Dax, interpretado por Kirk Douglas, em acatar uma ordem para executar soldados da própria tropa, como ‘resposta’ a uma operação fracassada. A cena final deste filme entrou para a galeria dos grandes momentos do cinema: a atriz alemã Christiane Harlan, que se tornaria esposa de Kubrick e o acompanharia até o fim da vida, faz uma cantora alemã que leva os soldados franceses às lágrimas com sua canção (veja aqui).

    Por anos, “Glória Feita de Sangue” não foi exibido na França, com a justificativa de que denegria a imagem do exército nacional. A produção, contudo, é memorável. Há outro trecho célebre, e estudado até hoje nos cursos de cinema, pela perfeição do movimento de câmera: o dos soldados franceses sendo atacados na trincheira (veja aqui). A câmera ora acompanha o coronel a caminhar pelo corredor escavado, por entre os soldados, ora assume o olhar do personagem. Na época, o travelling ainda estava sendo aprimorado. Kubrick, com a cena, deu uma bela contribuição para isso.

    Em 1960, retomou a parceria com Kirk Douglas, em “Spartacus”, filme que também tinha no elenco Laurence Olivier. O épico teve boa aceitação de público e crítica e ganhou quatro Oscars. Mas Kubrick não estava satisfeito com a carreira. Ele se sentia incomodado por dividir o comando de seus trabalhos. Neste longa, por exemplo, Kirk Douglas, também produtor, interferiu diretamente em todo o processo de filmagem.

    Esta ingerência de outros acaba em 1962, com “Lolita”, em que todas as decisões envolvendo produção, direção e outros processos foram de Kubrick. A adaptação do polêmico livro de Vladimir Nabokov, também roteirista do filme, contudo, teve a estreia adiada por seis meses e foi remontado, porque a igreja católica o condenou como “impróprio” e “pecado” para quem assistisse. Só não contou com a tradição das polêmicas de sempre aumentar a expectativa sobre o objeto em questão: “Lolita” acabou sendo sucesso de bilheteria.

    Kubrick provocaria nova celeuma com seu filme subsequente, “Dr. Fantástico” (Dr. StrangeLove, 1964). A comédia, naquele período de Guerra Fria, satirizava o perigo de eclodir uma 3ª Guerra Mundial e fazia uma metáfora sobre as sutilezas do desconhecido sistema bélico dos EUA. Embora existam algumas falhas no roteiro (de Terry Southern), “Dr. Fantástico” traz uma ótima performance de Peter Sellers, representando três personagens caricatos, e expõe toda a habilidade na direção de seu realizador.

    Após “Lolita” e “Dr. Fantástico”, Kubrick, já com o nome consagrado entre os maiores diretores do cinema, atingiu total liberdade criativa, com direito a tocar seus trabalhos sem interferência de estúdios e produtores. O projeto seguinte seria o grandioso “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Mas este, e outros clássicos como “Laranja Mecânica”, “O Iluminado” e “Nascido para Matar”, são assunto para o próximo texto.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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