Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Etc...

    Parem de culpar a vítima
    Carlos Orsi*
    11/08/2011


    Tenho algumas reservas quanto ao uso amplo que às vezes se dá à expressão “não culpe a vítima”. Afinal, há casos em que a vítima é, efetivamente, culpada: motoristas embriagados que se esborracham em postes são um caso óbvio.

    O título desta postagem, no entanto, se refere à tendência de “pôr a culpa na vítima” que alimenta boa parte do que passa por cultura de autoajuda no mundo atual – indo desde as versões evangélicas vendidas nos cultos da prosperidade às formas mais (cof! cof!) sofisticadas de “O Segredo” e quetais.

    Nesta semana, por exemplo, apareceu no quadro de avisos do meu condomínio uma “mensagem edificante”, provavelmente impressa da internet, com o título “Se não quiser ficar doente...” e que enumera uma série de atitudes que as pessoas que têm a boa saúde como meta devem tomar.

    Ali não há nada, entretanto, sobre lavar as mãos antes das refeições, comer vegetais frescos, evitar o álcool e o tabaco ou manter uma rotina de atividade física. As dicas da mensagem são, fundamentalmente: não reprima suas emoções; fale sobre seus sentimentos; seja sincero; não seja perfeccionista.

    Primeiro, fiquei pensando em que mundo viveríamos se esses conselhos fossem seguidos à risca. Imagino pessoas saindo no tapa nas filas de caixa de supermercado (não reprima suas emoções), hordas de chatos insuportáveis babando dores de cotovelo intermináveis no ouvido de vítimas que responderiam chamando-os de vermes nojentos e chutando-os para longe (fale sobre seus sentimentos; seja sincero) e, claro, um aumento brutal no número de acidentes aéreos e automobilísticos, de erros médicos e na condenação de inocentes pela Justiça (pilotos, motoristas, médicos e juízes teriam deixado, junto com todos nós, de ser perfeccionistas).

    Analisada friamente, essa utopia da sinceridade e da espontaneidade é, de fato, uma distopia de preguiçosos, relaxados e malcriados. Mas o principal fator aí é que essa linha de conduta é recomendada para quem não quer ficar doente.

    De fato, o texto joga a velha cartada psicossomática: só fica doente quem “merece”, seja por conduta, seja por algum tipo de fraqueza de caráter. Essa ideia já foi muito bem explorada na ficção, principalmente na ficção gótica – por exemplo, no excelente “Ligeia”, de Edgar Allan Poe –, mas é absolutamente falsa.

    Sim, existem hipocondríacos e existe gente (100% da população, eu diria) que poderia se beneficiar de um pouco mais de força de vontade e disciplina quanto à saúde, mas, primeiro: disciplina e força de vontade são exatamente o oposto da espontaneidade e do espírito deixa-pra-lá; segundo: pessoas que contraem câncer ou úlcera – as doenças favoritas dos teóricos da causa psicossomática, a despeito da descoberta de que a gastrite, por exemplo, está ligada a uma bactéria – já têm o suficiente para se preocupar sem que precisem ficar se sentindo culpadas por o que quer que tenha dado errado em seus organismos.

    Culpar a vítima é atraente, em última análise, porque oferece aos acusadores uma sensação de controle: ele ficou doente porque é um estressado; eu, que levo a vida na flauta, não corro esse risco.

    Desculpe, gente, mas esse controle não passa de ilusão. Somos todos peões do acaso e, embora algumas atitudes – lavar as mãos, fazer exercícios, não fumar, não misturar álcool e direção – possam reduzir riscos, não há como controlar nada. O mundo é uma galeria de tiro e todos, cedo ou tarde, acabamos abatidos. Aprenda a viver com isso e pare de culpar os outros.

    @carlosom71


    * Carlos Orsi é jornalista e escritor e vive em São Paulo. Publicou os romances “Guerra Justa” e “Nômade”. Mantém um blog, em que este texto foi originalmente veiculado.


    Mais Carlos Orsi
    O uso crítico do senso crítico - 12/04/2011


    Leia também
    Sobre internet e postes de borracha - Juliano Rigatti - 05/08/2011
    Google, o Grande Irmão? - Renato Guimarães - 03/06/2011
    Arqueologia no presente - Tobias Vilhena - 01/06/2011
    H.L. Mencken - Moziel T.Monk - 26/04/2011
    2010 foi um ano ruim - Lucas Barroso - 18/12/2010
    Sim, eu tenho preconceito - Leandro Narloch - 17/12/2010
    Twitter não-revolucionário - Leonardo Schabbach - 20/07/2010
    Trinta Minutos com o Repórter do Século - Jeison Silva - 11/06/2010
    Uma paranoia patológica - Moziel T.Monk - 26/05/2010
    TODOS OS TEXTOS