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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    A arte do aterro
    24/02/2011


    O aterro sanitário de Gramacho, no município de Duque de Caxias (RJ), já foi cenário de “Estamira”, documentário de 2004 em que o diretor Marcos Prado apresenta uma senhora com problemas mentais que sobrevivia como catadora no local. Agora, esse que é o maior depósito de lixo da América Latina volta a aparecer num doc. Foi nele que o artista plástico brasileiro Vik Muniz, um dos nomes mais comentados da arte contemporânea, desenvolveu o projeto abordado por “Lixo extraordinário” (trailer aqui), produção indicada ao Oscar de melhor documentário e que já arrecadou prêmios nos festivais de Sundance, Berlim, Dallas, Seattle, Durban, Paulínia, São Paulo e Manaus. Vinham de Gramacho os materiais – de garrafas pet a chinelos de dedo – com que Vik, auxiliado ativamente pelos catadores, compunha instalações de grande tamanho, as quais depois fotografava e transformava em painéis.

    Coprodução Brasil/Inglaterra, “Lixo extraordinário” foi dirigido por Lucy Walker (inglesa), João Jardim e Karem Harley (brasileiros) e levou quase três anos para ser feito. Poderia ser sarcasmo dar o título “A arte do aterro” a um texto sobre o filme, caso o autor não gostasse dele. Mas este autor aqui gostou, e pôs tal título porque realmente o documentário expõe bem como Vik conseguiu fazer arte de valor com materiais recicláveis retirados do lixo e, também, a dimensão que o projeto atingiu para os catadores envolvidos.

    “Lixo extraordinário” não chega a ser tão perturbador quanto “Estamira” nem tão ousado quanto “Ilha das Flores” (1989), curta de Jorge Furtado em que o assunto “lixo” também é trabalhado, foi para a época. E poderia ser pouco concebível a ideia de enfocar dois lados completamente (?) afastados e indiferentes: o do requinte das artes plásticas, frequentado por Vik, e o de pessoas à margem da sociedade, que sobrevivem do lixo. Mas esses lados, unidos em um mesmo projeto, rendem um acertado roteiro e uma distinta história.

    A contundência do filme está justamente na abordagem da relação que Vik criou entre os dois universos, não numa suposta questão marxista entre “fracos” e “fortes” que traria à tona (comentou-se muito que o artista teria se aproveitado da situação dos catadores para se autopromover). O projeto de Vik começou quando ele, em momento de questionamento sobre sua forma “correta” de produção artística em Nova York (ele tem um estúdio no Brooklyn), soube de Gramacho por meio de um amigo brasileiro e resolveu aventurar-se naquele lixão completamente insalubre. Ao chegar lá, percebeu que alguns catadores de materiais recicláveis poderiam colaborar na montagem de trabalhos seus e ainda servir de modelos fotográficos para suas obras. No fim, ambas as partes ganharam com o projeto: Vik, após a conclusão da sua ideação artística e social, levou Tião – presidente da associação dos catadores do aterro – para acompanhar o leilão, em Londres, de uma peça na qual ele mesmo era o modelo retratado. A obra foi arrebatada por um bom lance, quase R$ 100 mil, e Tião utilizou o dinheiro para comprar uma casa.

    Vários críticos afirmaram – foi questão muito discutida no festival de Paulínia – que o começo do documentário seria “arrogante”, por exibir Vik se decidindo pelo lixão de Gramacho após vê-lo apenas pela internet, no que pareceria um “conquistador europeu”. No entanto, o que “Lixo extraordinário” oferece é o “mergulho” dele na situação dos catadores, que o faz rapidamente perceber uma realidade diferente das que vivenciara até então, como artista. Após conhecer os personagens da narrativa fica fácil condenar Vik por falar, logo no início do filme, que Gramacho seria um lugar de drogados e marginais. Mas o desenrolar do filme mostra seus preconceitos sendo quebrados.

    Vik já tinha realizado um projeto social parecido, chamado “Sugar Children” (“Crianças de açúcar”), em 1996, quando fotografou filhos de trabalhadores de lavouras de cana-de-açúcar no Caribe e reverteu a renda para eles (algumas imagens podem ser acessadas no site do artista). A intenção inicial de “Lixo extraordinário” era mostrar a história de Vik, que também é de origem pobre. Mas a dimensão dos personagens com que ele conviveu no projeto mudou a ideia. Ainda que vivam em condições muito precárias, são pessoas que parecem afortunadas. Vemos que o próprio Tião, 32 anos, “frequentador” do lixão desde criança, leu obras de Maquiavel e Nietzsche encontradas nos resíduos, e que outro catador, Zumbi, montou uma biblioteca com os livros que achou por lá. Sabemos ainda que a catadora Isis foi viver da reciclagem após uma depressão ocasionada pela morte de seu filho de três anos. Conhecemos também Irma, Magna e Suelem. Todos participaram do projeto de Vik; foram fotografados por ele e estiveram na exposição do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro como convidados especiais, para conferir as telas com seus retratos. É relevante constatar o quanto os catadores foram influenciados positivamente pelo trabalho com o artista, já que passaram a vislumbrar novas possibilidades para suas vidas. Dificilmente saberemos se Vik quis mesmo usar o projeto para autopromoção, mas essa acusação é bastante representativa do Brasil – aqui, quando alguém faz o que ninguém teve coragem de fazer, não raro é alvo de crítica.

    Se documentar um lugar insalubre, e que é um problema invisível para a maioria da população brasileira, já é um desafio, imagine pensar em iluminação, som e composição de planos cercado por roedores e aves de rapina. Mas “Lixo extraordinário” tem uma direção equilibrada. Por exemplo, as tomadas em planos fechados de caminhões descarregando os detritos, seguidos por uma disputa acirrada de centenas de pessoas para recolher a melhor parte do material, são comoventes, não apelativas. O roteiro também foi bem construído. Uma cena talvez dispensável é a da conversa entre o artista, sua esposa e um amigo sobre qual seria o destino dos catadores após o término do trabalho. Eles discutem se fizeram certo ou errado em entrar na vida daquelas pessoas e se, com o fim do projeto, não teriam obrigação de mostrar um outro “mundo” a elas. É certamente uma cena que destoa da linha do roteiro. Já abrir o filme com imagens de Vik sendo entrevistado no “Programa do Jô” e encerrar com Tião no mesmo programa não atrapalha e não é demérito, pois substitui talvez um off ou outra cena demonstrativa, sem tornar o conteúdo menos interessante.

    As mesmas condições desumanas representadas pela “vida” no lixo foram bem retratadas nos premiados documentários “Boca de lixo” (1993), de Eduardo Coutinho, e “À margem do lixo”, de Evaldo Mocarzel (2008) – este mais um relato sobre catadores de lixo de rua –, afora os já citados “Ilha das Flores” e “Estamira”. A diferença do também premiado “Lixo extraordinário” é que ele vai além da intenção daqueles filmes de “despertar” consciência ambiental e social. Mesmo exibindo o tamanho assustador do aterro de Gramacho e os urubus misturados entre os catadores, o doc mostra especialmente como o projeto de Vik trouxe novas possibilidades para os esquecidos que vivem do lixo. E, mais ainda, como certas ideias sobre arte devem ser questionadas. Com “Lixo extraordinário”, vemos que não há limites para a criação artística, pois esta pode se dar até a partir dos resíduos que produzimos.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Ótima visão, Leandro. O lixo é mais mental que material. O lixo é como nos relacionamos com as coisas. Quanto ao doc, creio que o Oscar ficará com o The exit through the gift shop, do Banksy, embora isso represente muito pouco. Gostei do Time lapse, com grua eletrônica, além do talento do Vik Muniz e do paralelo arte-lixo. Duda Keiber

    Excelente teu artigo, Leandro, e oportuno. Muito importante seria fazer arte e poesia em nossa própria casa, na hora de consumir os produtos e juntar estes lixos que acabam sendo destinados aos aterros. Importante que, de alguma forma, filmes como esses abordados no teu texto chegassem às pessoas comuns de todas as classes, e que elas repensassem o seu consumo diário, seus dejetos juntados e a forma como estão tratando seus dois templos absolutos: a mãe terra e o próprio corpo, morada de nosso espírito. É isso aí. Que possamos nós sermos mais "extraordinários" e menos "lixo", posto que boa parte de nós é o que deitamos fora. Talvez, até, a melhor parte! Abraços. Fernando Keiber