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    Jaguar: aprecie com moderação
    Michelle Horovits*
    16/04/2010


    Jaguar e sua criação da época do Pasquim, o ratinho Sig


    Um, dois quadros no máximo, esse é o espaço necessário para um cartunista fazer um estrago. E a charge, como dizem alguns especialistas, é muitas vezes bem mais contundente do que um editorial completo. Pois é assim que o chargista, ilustrador e jornalista Jaguar fez história, com charges de humor (e entrevistas polêmicas). Sergio Jaguaribe fez parte da equipe que criou o aclamado Pasquim, o mais quente e alternativo jornal da época dos anos de chumbo. A publicação fez tanto sucesso no fim da década de 60, que deu origem à chamada imprensa nanica.

    Seu mascote era um ratinho desbocado apelidado de Sig, em homenagem a Sigmund Freud, tirado da anedota da época que dizia que “…se Deus criou o sexo, Freud criou a sacanagem”. Em um país que vez ou outra se esquece de rir, Jaguar continua fazendo suas tentativas, e aproveita para rir de si mesmo. Adora fazer piada das coisas mais idiotas do mundo. Sem saber bem em que ponto da vida se decidiu pelo humor, Jaguar nunca foi um cara extrovertido, na verdade sempre foi tímido e costuma usar a bebida como válvula de escape para a timidez:

    “Eu sou um cara que mexe com humor, né? Também tem tantos anos, que se eu não aprendesse tacava uma bala na cabeça. Eu sou humorista porque eu mexo com esse lado do humor mais crítico. Eu acho o máximo esse negócio do Cristo, falar nisso você viu o que o João Ubaldo Ribeiro escreveu no Globo, uma crônica? Com ele conversando com o Cristo. Ele diz: Eu acho esse negócio de me botar como maravilha uma babaquice, eu lá sou pirâmide para ser maravilha? O senhor falando mal da sua imagem, mas e daí, eu não sou filho de pedreiro. Eu sou filho de carpinteiro, porra. Eu fico ali com aquela cara lânguida, olhando para cima… (risos).”

    Um tipo tímido que fica pegando nos dedos enquanto fala, de olhar melancólico e mãos manchadas pelo tempo. Confessa que a bebida o faz ficar mais alegre. E sempre lembra de uma história engraçada que vem seguida de um sorriso. É impossível não sorrir com as histórias de Jaguar. “Na verdade eu sou tímido o tempo todo. Eu peguei resistência ao álcool. E sou um cara tímido, então a bebida me solta. Agora eu não sou de ficar bêbado, eu fico meio feliz, e eu não sou aqueles caras chatos quando bebem. O máximo que eu faço é dormir. Por isso quando eu tô muito bêbado eu evito tomar sopa, canja e tal. Porque nas duas últimas vezes eu quase morri afogado, dá com a cara no prato.”

    Em sua estreia como jornalista, Jaguar entrevistou a espevitada atriz Leila Diniz, que saiu de toalha na capa do Pasquim. Outras entrevistas também ficaram marcadas. Ele não segura a risada ao se lembrar de quando entrevistou Jânio Quadros. Ambos beberam tanto depois de um bate-papo, que acabaram caindo no sono no jardim do ex-presidente.

    Cartunista, botequeiro, cronista e o melhor conhecedor de aperitivos que eu já vi. O homem bem poderia fazer consultoria para botecos em falência. Sua melhor receita anti-ressaca é uma boa cervejinha gelada. A dieta, há anos, é, ao acordar, tomar um café com pão e manteiga. Lá pelas 10 e meia, come um sanduíche de mortadela e toma uma cerveja. Depois termina de trabalhar, pois só trabalha de manhã, e sai por aí. Bebe um chope aqui, outro ali. Almoça um bom PF com arroz, feijão, bife com fritas. Um lanche à tarde, sopa às seis e a partir daí só destilados e fermentados. Tem 70 kg há 40 anos.

    Frequentador assíduo dos melhores antros do Rio, passou a vida em lugares como o Cabaré dos Bandidos, em Caxias, o Poleiro dos Galetos, o Bunda de Fora original e vários homônimos, botequins da Central do Brasil, clássicos como a Fiorentina 1, o Paladino, o Bar Luiz, o Adônis, o Bracarense, o Petisco da Vila. Ele tem quase tanto tempo de casa no Bar Brasil quanto o mais velho dos garçons.

    Jaguar é do contra. Contra o tombamento da Banda de Ipanema, contra a candidatura de Ziraldo à Academia Brasileira de Letras, contra os que são contra os fumantes, contra o chope sem espuma, contra o governo do PT, contra todos os governos. Contra o desgoverno também. O senhor do contra de jeito simples e olhar tímido, quer se cuidar para não deixar suas cinzas por aí tão cedo. Ele jura que quer ser cremado e que os amigos devem juntar suas cinzas às de um pangaré velho, para dar um punhado para todos os bares bons em que ele bebeu. Tem pensando até em ensaio, mas enquanto o ensaio não sai, ele continua desenhando. O criador do jornaleco mais famoso do país e autor do ratinho mais irônico de todos os tempos tem muitos outros personagens hilários no curriculum, mas, sem dúvida, o mais controverso é ele mesmo.


    * Michelle Horovits é jornalista e vive em Brasília. Texto originalmente publicado no site Amálgama.


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