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    Ativismo é a segunda pauta


    Artista tem de ser ativista da arte. É uma sentença um tanto óbvia, afinal, arte é a bandeira, a “causa”, de quem a produz. Como toda afirmação envolvendo o tema, porém, essa não é definitiva. Digo isso porque, hoje, no cenário confuso da internet e mídias sociais, a participação dinâmica na resolução das coisas – o significado de ativismo, segundo o dicionário – não está concentrada em seu fim.

    Parece loucura, mas não é. Antes é necessário ressaltar que FacebookTwitter etc. permitem um contato direto com o público, eliminando intermediários; portanto, são ótimas ferramentas de divulgação. Também é importante salientar que, ao mesmo tempo, são espaços pessoais, que cada um usa como bem entender. É curioso, contudo, que muitos artistas não estejam utilizando suas páginas, ou utilizando pouquíssimo, para falar sobre arte.

    Em um país como o nosso, onde os meios de divulgação de cultura são tão raros, é de se lamentar que alguns artistas de relevância, com milhares de “seguidores”, percam tanto tempo com temas “menos relevantes”, sendo que, na maioria dos casos, há especialistas de maior calibre e bagagem para abordá-los. Acontece assim: em vez de o cantor falar sobre música, por exemplo, ele prefere gastar uma dose considerável de sua energia para comentar – o mais correto seria palpitar – sobre política partidária, posando de entendido sobre o assunto. Será que seu público não acharia legal saber que disco ele gostou de ouvir recentemente? Ou, então, receber uma sugestão de bom show de um novo músico ou banda?


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    Desconfio que a razão desse posicionamento não seja só a paixão pela causa. É, também, uma atitude mercadológica. Há uma forte tendência, atualmente, de adesão a uma “segunda pauta” por parte dos artistas. Isso garante uma maior visibilidade, já que os cadernos culturais, como escrevi, estão escassos. Você já deve ter se deparado com o exemplo citado acima (um reconhecido cantor-cientista político), mas, além dele, há muitos outros: o cineasta-ombusdman-da-imprensa, a escritora-arquiteta-especialista-em-mobilidade-urbana, o poeta-psicólogo-de-casais-que-dá-dicas-amorosas-na-televisão, o jovem-ator-comediante-formador-de-opinião...

    Essa “especialização” da classe artística – todos os exemplos lembrados não têm formação nas áreas de interesse, ou seja, são apenas curiosos e entusiastas – garante aos envolvidos a possibilidade de serem fontes (pouco críveis, mas aí é um problema do jornalismo) nos veículos de comunicação. Uma artimanha patética, que, infelizmente, está sendo utilizada em profusão.

    O que resulta disso? Em quase todos os casos, a arte, matéria-prima a partir da qual também se podem discutir questões sociais e políticas, fica delegada a um segundo plano, e não é só o artista que perde com isso, o público também. Ficamos mais pobres, mais sedentos por cultura. Definitivamente, essa postura não tem como curtir.

    @lsbarroso


    lucas barrosoLucas Barroso

    Jornalista e escritor, autor de "Virose" (2013), "Um Silêncio Avassalador" (2016), "Um Gato Que Se Chamava Rex" (2018) e "O Tempo Já Não Importa" (2020).



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