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    Um Capra contemporâneo contra o Zeitgeist


    A Vida em Si (Life Itself, 2018), escrito e dirigido por Dan Fogelman, é um desastre de crítica e um fracasso de público. A maioria dos textos que circulam por aí a respeito do filme o chama de dramalhão, diz que é tudo um grande exagero, acusa a imprecisão temporal da narrativa e ataca as interpretações um tanto quanto “pouco contidas”. Houve até quem dissesse que o único alívio do filme é quando sobem os créditos finais, por motivos óbvios.

    Me surpreendo, mas não muito. Do começo ao fim, A Vida em Si vai contra o Zeitgeist. Não só isso, o roteiro parece esfregar na cara do público, críticos incluídos, a possibilidade de que todas as crenças deles (nossas) estejam cobertas por uma fétida e persistente camada de niilismo. Essa é a maior, mas não única, qualidade do filme. Em nenhum momento ele cede às ideias centrais do cinema norte-americano atual: a de que o homem é essencialmente mau, a de que os que não são maus acabam corrompidos pela sociedade e, por fim, a de que a redenção, se existe, só pode ser alcançada dentro de um limite muito restrito de tempo entre o nascimento e a morte.

    Se vivêssemos sob outra égide que não a do cinismo, tenho certeza de que todos estariam fazendo filas às portas do cinema para assistir a este filme que tão bem presta homenagem aos bons “dramalhões otimistas” de Frank Capra. Mas, repito, é impossível admirar A Vida em Si (toda a arte, eu diria, correndo o risco de soar mais hiperbólico do que o normal) sem se despir desta sensação tão presente de que tudo, absolutamente tudo, pode ser reduzido a termos maniqueístas e de que todas as questões humanas são passíveis de uma explicação simples, geralmente política.


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    E o roteiro de A Vida em Si, escrito pelo mesmo roteirista da série This is Us (outro dramalhão, dirá alguém), passa ao largo de qualquer discussão política para afirmar que não, não temos controle sobre nossas vidas e somos suscetíveis a todo tipo de acaso, mas nada, nenhuma tragédia, trauma ou história pessoal pode servir de desculpa para perpetuarmos o ciclo nada virtuoso de ressentimento e vingança. Bem ao contrário do que os filmes de super-herói insistem em dizer.

    Mais do que isso, A Vida em Si propõe desde o começo que o espectador duvide de todos os narradores que contaminam nossas vidas, desde o primeiro narrador da história, passando pelas histórias que nós mesmos legamos aos nossos filhos e culminando na Grande História que é a narrativa “coletiva” na qual acreditamos às vezes cegamente. Ao reforçar a ideia de que a técnica do narrador não-confiável permeia mais do que nunca nossa existência, até porque vivemos cercados por histórias o tempo todo, A Vida em Si poderia muito bem ceder ao discurso cínico de que todos habitamos uma mentira (como quer certa audiência que aprendeu a assistir a filme depois de Matrix). Mas não. Ele prefere o caminho mais difícil, ousado e destinado ao fracasso (e às críticas) de criar um hiper-realismo metalinguístico no qual os papéis tradicionais de vilão e herói são postos em dúvida o tempo todo.

    Antimaniqueísta, anticinismo, antiniilista, A Vida em Si é tudo o que o espectador contemporâneo – acostumado às intermináveis contendas verbais na internet, incapaz de refrear aquele comentário o mais sarcástico e perverso possível, descrente de tudo e de todos (e até de si mesmo), mas paradoxalmente crédulo de que existe uma grande conspiração social contra a cor da sua pele, sua classe social, sua preferência sexual, sua religião, etc. – não quer ouvir: as pessoas são muito mais complexas do que parecem e, se as reduzimos a uma dicotomia fácil, é só porque estamos desesperados para entender o caos que inevitavelmente nos rodeia. E, não raro, recorremos a atalhos para isso.

    Na Era do Ressentimento, A Vida em Si é um alento justamente por voltar a câmera para a admirável (sim, admirável!) alma humana: cheia de expectativas e medos e sonhos e traumas e pequenas alegrias que culminam em tragédia e de mentiras que nos contam e que contamos para nós mesmos a fim de justificar nossos erros, acertos e sobretudo aquilo que enxergamos como injustiça.

    Tudo para, já no fim, evocar de uma forma bastante sutil aquela que talvez seja a mais poderosa força civilizatória, algo que anda fora de moda, possivelmente assustado com o urro e a cara feia e amarga do Zeitgeist: o perdão.


    paulo polzonoff jrPaulo Polzonoff Jr.

    Jornalista, crítico literário, tradutor e escritor, autor de "Manuel Bandeira" (2006) e "O Homem que Matou Luiz Inácio" (e-book, 2016).



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