- Paulo Polzonoff Jr.
A frase
— Por quê, meu Deus?! Por quê? — se perguntava a assassina viúva. Era teatro. Rebeca sabia muito bem por que tinha matado o marido. Foi por causa da frase. Da frase e da concepção da frase. Mas isso ela jamais admitiria.

— Por quê, meu Deus?! Por quê? — se perguntava a assassina viúva. Era teatro. Rebeca sabia muito bem por que tinha matado o marido. Foi por causa da frase. Da frase e da concepção da frase. Mas isso ela jamais admitiria.
As pessoas seguem as micaretas literárias pelos mesmos motivos que as levam a seguir as micaretas-micaretas, isto é, diversão e sexo, aquele hedonismo juvenil vulgar e, com sorte, passageiro. Mas elas vestem o abadá também porque buscam uma sensação de pertencimento.
Reza a lenda que Salinger deixou de publicar porque queria que um livro fosse apenas um livro, isto é, um meio de transmitir histórias e conhecimento, sem o auê em torno do objeto e do autor. Mas há livros que são muito mais do que um livro. Ou melhor, muito menos.
Um texto que, me sussurra o superego aqui no ouvido, nada mais é do que uma reprodução mais aprimorada, elegante e extremamente bem-escrita de um lugar-comum: o texto sobre não ter ideia do que escrever. Talvez seja um rito de passagem para todo cronista.
Lembro do episódio e do menino (a quem chamarei apenas de “D.”) sempre que o vejo na televisão, o sotaque carregado, o narcisismo messiânico, o humor sem graça, os olhinhos encantados com a própria virtude, guiando a turba em sua cruzada contra a corrupção. E concluo: aquele soco teria feito bem a nós dois.