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    O gosto da beleza


    O cineasta Julian Schnabel já havia antecipado algo de seus desejos mais caros em Basquiat (1996), ao introduzir a dolorosa biografia de Vincent Van Gogh como erro histórico que o mundo da arte preferiria não repetir. Tal ferida seria responsável pela sanha contemporânea de críticos, agentes e galeristas, impelidos a considerar cada mínimo vestígio de produção artística dissonante como o potencial gérmen de outro gênio incompreendido. Com isso Schnabel justificava o coroamento do primeiro pintor negro a figurar na história moderna da arte.

    Seu trabalho mais recente, No Portal da Eternidade (2018) – premiado no Festival de Veneza e indicado a um Oscar –, surpreende, sobretudo se seguirmos na comparação, pela radicalidade da abordagem. Radicalidade que se atém rigorosa aos movimentos composicionais do pintor. Schnabel é antes pintor, da mesma geração que Basquiat, afeito ao espírito espontâneo e expansivo que norteou a produção da época. Seu filme não é uma cinebiografia e isso nem faria sentido. Van Gogh é contemplado em seus últimos anos de trabalho, e a subjetividade do pintor se entremescla com a sensibilidade do cineasta e seus próprios interesses em relação, não tanto à história, mas ao ato mesmo de pintar.

    Essa escolha é decisiva pois dela decorrem as demais. A simplicidade quase rústica da câmera e dos cortes, a valorização medida das cores e dos sons da natureza, as fugas a preto para revelar um pensamento ou emoção. Tudo provém de um raciocínio de pintor, mesmo que fazendo cinema, e nisso o filme se destaca de pronto e sobremaneira a tantos outros esforços em retratar a vida e obra de artistas em filmes, inclusive o próprio Basquiat, realizado mais de vinte anos atrás sob uma ótica um tanto mais juvenil e trivial.


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    Escrito com Jean-Claude Carriére e Louise Kugelberg, o roteiro se estrutura em momentos-chave da biografia de Van Gogh, sem no entanto dar-lhes atenção especial. Tais passagens são reconhecíveis mais pela notória variedade de mitos e versões que abundam a respeito do artista, muitas vezes como artifício para exploração comercial de sua obra. A esses apelos Schnabel contrapõe lapsos e elipses que sempre preferem a lucidez do pintor diante da tela. O filme não deixa opções quanto à simbiose incontornável que Van Gogh partilha com a pintura e com a própria natureza: “Não posso viver sem pintar”.

    O resto são perturbações, fantasmas e medos, projeções de um entorno hostil, que um majestoso Paul Gauguin bem resume numa sentença: “Você está cercado de gente grosseira e ignorante.” É a Vincent que o filme generosamente concede a palavra, talvez pela primeira vez no tribunal da história, o qual não raras vezes lhe caracteriza como louco e suicida. Num filme de poucos diálogos, quando acontecem são de espantosa claridade e precisão, reveladores de um espírito sensível e eventualmente frágil para suportar os próprios desígnios.

    Para não romantizar demais também essa versão, o roteiro não esconde as estranhezas, excessos e internações do pintor, mas as equilibra com a força lúcida dos fatos: uma orelha cortada para evitar que o amigo se vá pode ser um ato extremo, mas não lhe falta propósito quando se vislumbra o retorno ao exílio e à solidão. Schnabel não se esquece de Théo, irmão do pintor, cujo amparo foi essencial em sua sobrevida e produção. Afinal, é disso que em grande parte parece tratar a suposta loucura de Van Gogh: o carinho e compreensão que encontrava em tão poucos que se aproximaram ele sublimava na paisagem que logo iria pintar.

    Deixar tudo isso em segundo plano, porém, é a melhor escolha de Schnabel, que se concentra na intensidade da presença de Van Gogh junto à natureza, captando o modo de ver, trabalhar e viver de um pintor e não de um mito. Com isso, o filme ganha um forte apelo sensorial, expresso tanto no trabalho de imagem como no cuidado com o som, em dosados flertes experimentais. A câmera, a todo o momento, assume o ponto de vista de Vincent, caminhando longos trechos pelos campos banhados de luz e assimilando todas as variações, inclusive arriscando-se numa lente cindida, metade com foco, metade não. Mas a inquietação da câmera é mais do que subjetiva e ultrapassa o olhar do pintor: ela é o pincel pelo qual Schnabel dá corpo às suas próprias visões.

    O filme foi concebido a partir de um apanhado de cenas soltas e outras livremente criadas, cuja amarração se deu pelas cartas de Van Gogh. Delas foi extraído o texto que tanto alimenta as cenas mais biográficas como os melhores diálogos do filme, permeados por contundentes discussões sobre arte. “Pinto com minhas qualidades e defeitos”, defende o artista ao ter seu trabalho posto em dúvida. As vozes de Van Gogh e Schnabel por certo se confundem na edição dos textos e na montagem. A trilha, que opta por um piano lento ocasionalmente combinado com violino, acompanha os crescentes da narrativa, inclusive com abruptas interrupções e oportunos desvios ao abstrato e ao silêncio.

    Willem Dafoe tem um desempenho notável e em momento algum constrange por ter quase 30 anos a mais do que o biografado. Ele revive Van Gogh com a simplicidade de cada gesto, a acuidade de cada palavra, a face límpida e profunda, num trabalho ao mesmo tempo delicado e de grande vigor. Sua figura errando pelas paisagens é cativante por si só e, sob o olhar de Schnabel, cresce em beleza e substância. O filme vibra todo como pintura e envolve numa atmosfera de irresistível imediaticidade. O resultado é uma experiência íntima e intensa, capaz de transfigurar todos os lugares-comuns a respeito do pintor.

    Com a mesma liberdade e frescor com que concebe sua própria pintura, Schnabel faz um sensível retrato do grande artista holandês, liberando-o por um momento de seus conhecidos fantasmas. Com a propriedade de quem conhece o ofício, ele atenta para o esforço, para as caminhadas, para a respiração, para as pinceladas e para as visões extraordinárias que esperam como prêmio aquele que atravessa paciente todo um longo dia de trabalho. No Portal da Eternidade é um refinado tributo ao pintor e sua obra, mas também um brilhante ensaio, que em vez de representar nos põe logo diante da profusão, para que provemos por nós mesmos um pouco do gosto árido que antecede toda a beleza.


    muriel paraboni assinaturaMuriel Paraboni

    Artista visual, roteirista e diretor de cinema, autor do curta-metragem Entardecer (2016).


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