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    Um ensaio priápico sobre a Pornochanchada


    "O gênero Pornochanchada foi um dos carros-chefes da década de 1970. O gênero adquiriu esse nome por combinar erotismo com pitadas de comédia. O grosso da produção vinha da Boca-do-Lixo paulistana, região conhecida por suas boates e bordéis. Eram filmes de baixo custo e rentabilidade alta e atraiam milhares de espectadores. Foi a pornochanchada que lançou Vera Fischer ao estrelato (em ‘A Superfêmea’). Atrizes como Sônia Braga também estiveram no elenco dessas produções. O maior ídolo desse tipo de filme foi David Cardoso, arquétipo do ‘macho brasileiro’, cuja presença era sinal certo de bilheteria rentável. Entre alguns títulos da pornochanchada estão os sugestivos ‘19 Mulheres e Um Homem’, ‘Deu Viado na Cabeça’. ” FREITAS, Marcel de Almeida (Mestre em Psicologia Social e Professor da UNIP/BH)

    Sonho priápico sem lógica. Fragmentos de clássicos da Boca-do-Lixo. Nenhum Oscar, sem metascore no IMDB.

    Alucinação úmida. Tremor após assistir a Histórias que nosso cinema (não) contava (2018). O documentário, roteirizado por Fernanda Pessoa, está disponível na Netflix desde 10 de janeiro de 2019  -  e para sempre ficará no inconsciente púbere nacional.

    A montagem (sugestiva função para o tema) é de Luiz Cruz, o homem das costuras perfeitas, quase o cirurgião da virginal Ângela Bismarchi.


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    Trata-se de uma colagem/mosaico a partir de 30 filmes do gênero imundo, com cenas setentistas picantes e até de cunho político-revolucionário.

    DELÍRIO OBSCENO. 
    Quem sabe eu sou aquele pastor neurótico pregando essa odisseia vulgar aos berros com uma Bíblia na mão. Ou você pode estar vasculhando minha massa encefálica, apreciando o espoucar das sinapses, flanando nas minhas reflexões filosóficas depravadas. Talvez eu seja tão somente outro presidente sadomasoquista e impotente deixando uma carta-testamento, cujo conteúdo eu leio para justificar e destravar a fábula pornô patriótica. Ou, mais interessante ainda, um espírito zombeteiro, um Kiumba-voyeur-participante, cutucando os desavisados caminhantes do Calçadão com minhas partes pudendas, tipo o Vadinho do Jorge Amado. Prazer, eu sou o narrador desta minguada e corriqueira história de perversão urbana.

    CINE PRIVÊ DA BAND.
    Era uma daquelas tarde sem fim, no centro das minhas amarguras citadinas. Depois que a chuva estiou, entrei em outro sebo, em outro e mais outro. Eu não tinha pra onde ir. As pilhas de fitas VHS conversavam comigo de longe, nereidas, me seduziam para os confins da degradação magnética, pros hoteis de beira de estrada do antigo Cine Privê, da Band.

    Esses filmezinhos eróticos comprovam a tese: enredos podem ser vulgares e desencadearem, do absurdo clichê (mulher de calçãozinho jeans desfiado, longas pernas, blusa regata branca, cabelo louro com permanente, pede ajuda sozinha na beira de uma estrada por causa de um pneu furado), um gatilho para as mais esdrúxulas aventuras sexuais. Dava certo com adolescentes dos Anos 80. Coroas misantropos murmuram sob lençóis o nome da musa “Emmanuelle” em flashback. Um grande engodo. Gemidos e contorcionismos demais, pelos e penetrações de menos.

    A coisa tá mais banalizada agora por causa desses xvideos, Red Tube, Porn Dude, Pornhub, FreePorn e tantos outros gratuitos a um clique. Russas desinibidas trabalhando tanto quanto eu ou você para pagar as mesmas contas. Não me venha falar de dignidade. É só o capitalismo em fricção.

    Aponta pra cara da minha solidão. Aquela era mesmo uma tarde de tempo horrível. Eu mereço comiseração. No fundo, o que esperava era que alguém desastrado e interessante esbarrasse em mim, me salvasse da penúria, deixasse livros caírem, iniciasse uma conversa desajeitada enquanto eu a ajudasse a juntar tudo. Terminaríamos na cama, ofegantes, planejando filhos na horizontal. Melhor sair logo daqui. Estes filmes estão me tirando do sério.

    Fui puxando as pilhas empoeiradas de VHS. Era como abrir um chamuscado álbum de fotografias remanescente de um incêndio. Rescaldo das minhas paixões. Nicole Puzzi… Matilde Mastrangi… Sandra Bréa…

    Ria sozinho. Já vi muito intelectual cair de joelhos por elas. Fêmeas objetificadas, títulos estapafúrdios. Falas dubladas sem inflexão, lidas sem fluência, analfabetismo funcional. Não respeitavam a Poética de Aristóteles nem a ditadura do Cânone Ocidental de Harold Bloom. Aliás, nenhuma filosofia francesa vence um estado alterado de vontades inferiores. O que é A História da Sexualidade, A Náusea, O Grau Zero da Escrita e A Dominação Masculina perto de Cada um dá o que tem, Elas São do Baralho, Bem Dotado e Nos Tempos da Vaselina?

    DAVI CARDOSO LÚBRICO.
    Eu tava limpando a capa de umas fitas pra levar, valorizando nosso cinema, e um cara de olhos arregalados se aproximou sorrateiro e bafento, como fosse onça: 
     — Se tu tiver aí uns 200 pila eu te arrumo um cano  - e levantou a camisa pra comprovar que era papo reto.

    Queria sair de perto daquele doente. Que eu me lembrasse não tinha ninguém para assassinar, pelo menos não assim, de sopetão:

     — Se tu não quiser levar o trabuco, e me der só 100 pila eu sento o dedo pra ti na brodagem, só me dizer o nome e o endereço do pato…

    Caramba, tinha mesmo muito maluco nessa cidade. Aquele papo já tava me constrangendo. Muito freudiano pro meu gosto, “meu cano, meu trabuco”. Agradeci, disse que ia só comprar um filme de putaria por hoje. Pedi o cartão dele, só pra tirar uma onda. E ele tinha mesmo um cartão. Era de uma loja de celulares numa galeria imunda a umas duas quadras (assassino com cartãozinho em Corel? Sei não…). Vai saber. Ou eu iria lá pra comprar uma bateria de lítio algum dia ou descontaria minhas frustrações pagando mesmo a ninharia pra sumir com um desafeto. Nada a ganhar. Nada a perder.

    SUPERFÊMEAS ATIVAR.
    Guardei o cartãozinho no bolso da camisa. Peguei uma fita de Oh! Rebuceteio!, disfarçadamente, garimpada a dedo. Uma pechincha. O dono do sebo enrolou numa sacola do Zaffari junto com outras. Saí para tomar mais chuva pelo Centro. Nem aí. Eu já tinha atravessado aquela linha tênue. Bom sinal para minha vida vazia. A um passo de mendigo e criminoso, com ânimo pra vender remédio tarja preta ou documento roubado no Centro Popular, de boas.

    O esgoto em fluxo me abraçava as canelas pelo meio-fio. Sônia Braga, Lucélia Santos, as superfêmeas no saco plástico me enfeitiçavam. Dedos molengas e unhas compridas e coloridas, sem julgamentos, me chamavam pra cama. Nuno Leal Maia, Pereio e Davi Cardoso me intimavam pra tomar uma pinga ao lado de dois garis com banho vencido. Não podia recusar. Era um enredo ruim e era irresistível. Meu único enredo. Lúbrico e cheio de trocadilhos tipo uma pornochanchada do Silvio de Abreu. Não dá pra competir com o mau gosto, nem que você tente. É o que de mais genuíno levamos dentro da alma brasileira. Chovia todas as minhas dores naquela tarde. Eu precisava ver o circo pegar fogo, era muito vazio pr'um homem só.

    O assassino noiado do cartão em Corel bem podia fazer essa mão e passar fogo em alguém que eu não ia com a lata. Assim, sem motivo. Ou dá ou desce. A vida é assim. Os bons tempos voltaram  - Vamos gozar outra vez, com Carla Camurati. Chegava de “ser e o nada”, promessa falsas de filme softcore. Agora ia ser pau-ferro, de verdade.


    jeison carnalJeison Karnal

    Jornalista e escritor, autor de O Negociador de Reféns (2014).



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