Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Notas sobre um escândalo
    18/10/2008


    Uma das coisas mais deprimentes em uma campanha eleitoral é ver um candidato tentando atingir o outro com golpes baixos. Sei, falar de desfaçatez em política é até meio redundante, mas eu não deixo de ficar chocado quando, no desespero de reverter a vantagem do adversário nas pesquisas de intenção de voto, o candidato começa a fazer insinuações sobre a vida pessoal do rival. É a pior das baixezas. E é o que estamos verificando nas duas campanhas eleitorais que mais nos interessam no momento: a presidencial nos Estados Unidos e a municipal aqui.

    Lá, depois que Barack Obama consolidou uma dianteira de dois dígitos sobre John McCain nas pesquisas, a campanha do republicano começou a disparar insinuações contra o democrata. McCain tem perguntado “Who is the real Obama?” em seus comícios, no que a platéia responde com acusações e ofensas. “Terrorist!”, chegam a gritar alguns mais exaltados. Isto porque a candidata a vice de McCain, Sarah Palin, também contribuiu para baixar o nível do debate ao acusar Obama de ter ligações com Bill Ayers, membro do grupo esquerdista Weather Underground, que, nos anos 1970, fazia militância contra a Guerra do Vietnã e realizou atentados a bomba nos EUA. Vários jornais e revistas americanos, porém, informaram que Obama e Ayers se conhecem, mas não têm uma relação estreita (o candidato democrata, inclusive, já condenou os atos pretéritos de Ayers). Parece que, para os republicanos, a discussão em torno da calamidade que virou o sistema financeiro do país nas últimas semanas não interessa. Aliás, não interessa de fato, já que foi o colega de partido de McCain e Sarah, George W. Bush, que deixou a situação chegar ao ponto que chegou. Na verdade, nem Obama nem McCain apresentaram propostas concretas para resolver a crise, mas esta, naturalmente, favorece a candidatura oposicionista. A menos de três semanas das eleições, com as águas da derrota já batendo nos joelhos dos republicanos, o rumo que eles tomaram foi o de sempre: suscitar dúvidas sobre a pessoa do candidato adversário. Nada mais previsível. Nada mais lamentável.

    As mesmas águas que batem nos joelhos de McCain e Sarah nos EUA está atingindo, aqui, a campanha de Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo. E a candidata enveredou pelo mesmo caminho – o de partir para ataques pessoais. Uma atitude tão leviana quanto a de sua campanha, que divulgou vídeo perguntando se o rival Gilberto Kassab (DEM, PFL, enfim) é casado e se tem filhos, numa insinuação de que ele seria homossexual, só pode ser explicada por desespero. Kassab também conta com uma dianteira de dois dígitos sobre Marta, na cidade que é a maior do Brasil e em que se ensaiam os passos para a sucessão presidencial em 2010. É surpreendente que este tipo de insinuação venha do lado de Marta. Ela já esqueceu o que é respeito várias vezes (a sua ‘sugestão’ aos prejudicados pela crise aérea, ano passado, que o diga), mas é uma psicóloga e sexóloga que ‘se fez’ na política combatendo preconceitos e defendendo igualdade de direitos para casais gays. Até colegas de partido de Marta consideraram o material preconceituoso, e a propaganda foi retirada do ar. A candidata minimizou a polêmica, declarando que é um direito da população saber tudo sobre aqueles que lhe pedem voto e que não via preconceito no episódio. Bom, só ela não deve ter visto.

    Quer questionar a trajetória política de um candidato? Excelente. É um dever, aliás, dos seus adversários e de cada eleitor. A vida íntima de uma pessoa, contudo, não interessa a ninguém. Ok, sei que, no caso de ocupantes de cargos públicos – ou de postulantes a tais cargos –, delimitar o que é público e o que é privado é um eterno dilema. Mas fazer insinuações de cunho pessoal, isso é inaceitável em qualquer caso. Esses ataques pessoais a Kassab são um carimbo que Marta exibirá para o resto da vida. Assim como, até hoje, Collor é lembrado, entre tudo mais que ele fez no poder, como aquele candidato que disputava a Presidência com Lula, em 1989, e exibiu no horário eleitoral um depoimento de Míriam Cordeiro, ex-namorada do petista, em que ela o acusava de tê-la pressionado a abortar Lurian, filha dos dois. A própria Marta, inclusive, já foi alvo de insinuações maldosas quando se separou do senador Eduardo Suplicy. E reagiu fortemente a elas. Então, não é contraditório ao extremo o que ela fez agora? Como bem comentou o colunista Klécio
    Santos, do Zero Hora, a campanha petista emulou, com essa história, o estilo Paulo (“não tenho contas na Suíça”) Maluf de fazer política. Só pra citar um exemplo, nas eleições de 2000 o ex-prefeito, em disputa com a própria Marta, distribuiu outdoors e cartazes por São Paulo nos quais ‘recomendava’: “Mamãe, vote em quem é contra o aborto” ou “Não deixe elas ganharem!” (este acompanhado de foto de Marta na parada gay). Apelação total. E agora a ex-ministra vem com essa. Marta, McCain e Sarah podem até pensar que golpes baixos tiram votos de seus oponentes. Mas jogam na lama quem deles faz uso.

    escrevi sobre falta de elegância em política. É triste sempre ter que voltar ao assunto.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



    Mais Lucas Colombo
    Direita - Esquerda - Pare - 26/09/2008
    Sans élégance - 05/09/2008
    Ufanismo de ouro - 22/08/2008
    Exposições - 15/08/2008
    Machado afiado (Especial Machado de Assis) - 21/07/2008
    A Itaguaí machadiana é o Brasil - 18/07/2008
    O que estou lendo - 11/07/2008
    Coisas entre o céu e a terra - 27/06/2008
    Uma crise, um papo - 13/06/2008
    Sobre Lula-lá - 30/05/2008
    TODAS AS COLUNAS