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    Redemoinho
    by Flávio Aguilar

    Pout-porrit argentino
    11/09/2008


    Comentários despretensiosos sobre dois grandes livros da literatura argentina: “Ficções”, de Jorge Luis Borges, e “Rayuela”, de Julio Cortázar. Te gustan?


    Jorge Luis Borges – “Ficções”
    Meus textos sempre têm citações ao universo borgeano – ou ao próprio escritor. Sim, sou grande fã. Já li umas quantas coisas do velho mestre argentino, mas, com certeza, esta é a obra dele que mais me marcou. Provavelmente por reunir as características narrativas e inventivas que o consagraram: escrita concisa, frieza, criatividade, temáticas de mistério e mitologia, confusão entre real e imaginário – o famoso Realismo Fantástico, por ele alçado à condição de grande movimento da literatura no século 20. “Ficções” é composto por 18 contos inesquecíveis, nem que seja para aqueles todos que não os engolem. Borges brincou com as formas literárias e abusou de referências à história antiga e a estudos teológicos. Erudito ao extremo, usou nesse livro o máximo que pôde de um conhecimento sabidamente fantástico.

    “Como todos os homens da Babilônia, fui pro-cônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se no meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth. Esta letra, nas noites de lua cheia, confere-me poder sobre os homens cuja marca é Ghimel, mas sujeita-me aos de Alep, que nas noites sem lua devem obediência aos de Ghimel. No crepúsculo do amanhecer, num sótão, jugulei ante uma pedra negra touros sagrados. Durante um ano da Lua, fui declarado invisível: gritava e não me respondiam, roubava o pão e não me decapitavam. Conheci o que ignoram os gregos: a incerteza...”
    *(trecho de “A loteria da Babilônia”)


    Julio Cortázar – “O Jogo da Amarelinha (Rayuela)”
    Muitas pessoas já me ouviram babando: “bah, o Cortázar, esse é foda”. Ele é, ao lado de Borges, o escritor que mais leio. Foi um problema escolher apenas um de seus livros para comentar aqui. Cortázar é conhecido principalmente por seus contos, mas o romance “O Jogo da Amarelinha”, um dos poucos escritos por ele, foi sua obra que mais me marcou. Constantemente listada entre o melhor do século 20 na literatura, tanto por leitores comuns quanto pelos críticos, “Rayuela” é uma viagem impressionante pelo pensamento de Horácio Oliveira, pretenso intelectual argentino que vive (na primeira parte) em Paris, com sua misteriosa Maga, e depois volta à sua pátria (na segunda parte), na tentativa de se reencontrar.

    A analogia com o tradicional jogo infantil da amarelinha nasce da construção pouco comum do romance, dividido em capítulos de diversos tamanhos, que podem ser lidos a partir de duas ordens diferentes e também separadamente – pois se sustentam às vezes como contos, crônicas ou ensaios curtos. Antes de tudo, “Rayuela” é uma leitura pesada, com referências a diversas áreas do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, Psicologia e Música. Mas o esforço compensa.

    “(...) Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”
    *(trecho do capítulo 7)


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