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    Quem tem medo do Acordo?
    Fabiano Schüler*
    17/10/2008


    O presidente Lula assinou, no dia 29 de setembro, um cronograma para a implantação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, cujo texto original é de 1990. Sim, o acordo já é hominho e pode tirar carteira de motorista: seu debate e os trâmites para a sua adoção se arrastam há 18 anos, e ele ainda está longe de ser unânime mesmo entre os que o propõem.

    Há quem diga que a mítica batalha do Armagedom, que irá selar o destino da humanidade, vai ocorrer entre as forças do bem e do mal. Para outros, será disputada no Olímpico ou no Beira-Rio pelas hostes coloradas e gremistas. Já eu sempre achei que esse embate apocalíptico será mesmo entre os gramáticos e os lingüistas. Os primeiros sempre catando erros na escrita e fala das pessoas; os últimos tendo orgasmos múltiplos quando escutam um “nós vai”, porque as variações socioculturais tornam a língua viva e democrática e blábláblá.

    Mas a nova reforma ortográfica é tão polêmica que mesmo nessa clássica rivalidade está conseguindo provocar deserções. De um lado, há gramáticos não vendo sentido nas novas normas e acusando-as de só complicar a vida de professores e alunos num ensino que já é deficiente. Do outro lado, há lingüistas, mesmo reclamando de não terem sido consultados, dizendo que a unificação é boa do ponto de vista diplomático, porque a uniformidade da escrita vai facilitar a redação e tradução de documentos oficiais, entre outras vantagens.

    No geral, porém, as novas regras, que incluem a extinção do trema, exceto em nomes próprios (como o meu), são motivo de debates acalorados entre os mais libertários e os que são favoráveis à unificação das normas pela comunidade lusófona. Por exemplo, um abaixo-assinado feito em Portugal tenta barrar a implantação das mudanças, numa clara reação protecionista ao que seus autores chamam de um “atentado à essência da língua”.

    Aqui no Brasil, as críticas em comunidades do Orkut vão para o outro lado, sendo predominantemente pautadas pelo discurso antinormativista da lingüística, que condena os ditames da gramática tradicional e é praticamente uníssono nas academias. É o laissaiz-faire, laissaiz-passer do livre-mercado aplicado ao uso da língua.

    Mas a reforma trata da escrita e é nela que deve ser analisada e julgada. Não há dúvidas de que a unificação da escrita é uma boa coisa para qualquer idioma. O Brasil é a maior prova disso. Sem uma norma culta única, em pouco tempo o sujeito que escreve um e-mail no Rio ia penar para ser entendido pelo vivente de Porto Alegre e vice-versa. O Brasil é também a prova de que uma consolidação como essa não interfere na liberdade de uso da língua falada, que vai muito bem, obrigado.

    Além de continuarem livres no uso cotidiano da língua, portanto, as mais de 210 milhões de pessoas que atualmente falam português não serão as únicas a escrever com uma norma unificada. Quem também vai começar a escrever do mesmo jeito, em todos os oito países da comunidade lusófona, são caras como Camões, Machado, Pessoa e Saramago. Novas edições desses autores de relevância mundial serão feitas dentro das novas regras, facilitando o trânsito dessas obras mundo afora. Isso é importante não só para nós, falantes nativos, mas principalmente para a percepção do português pela comunidade global de letras e humanidades como uma língua mais forte, com uma fortuna literária compartilhada igualmente entre as nações que a adotam.

    No frigir dos ovos, embora isso não garanta uma explosão global de interesse pelo vernáculo, parece que os benefícios ainda são maiores do que o esforço exigido nas mudanças. Que, convenhamos, nem são tantas assim – e vão facilitar a aproximação daqueles que escrevem na nossa língua e aqueles que os lêem. Ou leem.


    * Fabiano Schüler é redator publicitário e tradutor. Mantém o blog InAbrupto, em que este texto foi originalmente publicado.


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    Comentários dos leitores


    Muito boa a abordagem sobre a importância de diferenciarmos a língua falada da língua escrita. Parabéns. Cristina Alves