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    Toca-disco

    Meu nome é Gal, novas cantoras. Muito prazer
    Lucas Colombo
    13/08/2008


    (Foto: Daniel Klajmic)


    Dias atrás, a revista Veja de 11 de abril do ano passado me caiu nas mãos, e eu reli a (boa) matéria sobre as novas cantoras da MPB, assinada por Sérgio Martins. A chamada na capa da edição dizia: “As donas da voz – por que as mulheres dominam a música brasileira”. Elas são fundamentais, hoje, na divulgação de novos compositores e também na preservação das coisas boas de nossa música. Roberta Sá, Mariana Aydar e Luciana Alves foram algumas das entrevistadas na reportagem. O texto apontou as características das “escolas” de canto inauguradas por Elis Regina, Clara Nunes e Marisa Monte, três intérpretes marcantes da MPB, e identificou, no atual cenário musical brasileiro, as seguidoras de cada uma – como Daniela Procópio, no caso de Elis; Mariana Baltar e Mônica Salmaso, no caso de Clara; e Roberta Sá e Adriana Deffenti, no caso de Marisa.

    Até aí, tudo bem. A única coisa que estranhei – e não gostei – foi o fato de Gal Costa não constar na lista de cantoras consideradas ‘parâmetro’ pelas jovens intérpretes. Segundo a reportagem, Gal desperta nas cantoras contemporâneas “um certo enfado”. Peraí: como assim “Gal Costa desperta enfado”? Quer dizer que as novas cantoras não ouvem Gal, não a tem como referência? É isso mesmo? Se for, what a pity... Gal é a cantora que mais deveria ser ouvida pelas novas gerações. Aliás, já ouvi o João Bosco dizendo isso. Ok: Elis, apesar do repertório so, so, fazia o que queria com a voz e tinha sensibilidade para lançar novos compositores. Tudo bem: Clara era dona de um canto poderoso e tinha grande habilidade para montar repertório. Certo: Marisa possui uma bela voz e é criativa, embora já tenha sido mais (atualmente ela faz música-tribalista-para-tocar-no-rádio-e-agradar-a-garotada). Tudo bem. Mas... e Gal? Posso citar aqui vários elementos da arte da intérprete baiana que a fariam referência obrigatória para quem quiser se meter a cantar na MPB: a musicalidade e a “técnica” (ela encara “Bem bom”, uma bossa nova de Arrigo Barnabé e Carlos Rennó cheia de dissonâncias e ‘entradas’ difíceis, com total afinação e, ainda, muito swing), o talento para conciliar em um mesmo álbum canções de compositores desconhecidos e daqueles já consagrados, a presença em quase todos os “movimentos” que a música brasileira gerou a partir da década de 1960 (bossa nova, tropicalismo, o chamado “rock” nacional; “movimentos” entre aspas mesmo, no primeiro e no terceiro caso), os discos-tributo a grandes mestres (Caymmi, Ary, Tom, Chico e Caetano), as novas versões para clássicos (é imprescindível ouvir as interpretações de Gal para “Falsa baiana” e “Pra machucar meu coração”, entre outras). Gal é a Ella Fitzgerald brasileira. Com todas essas importantes características, ela não conta nada?

    Desculpem-me, novas cantoras, mas ter “enfado” em relação a Gal Costa é de uma miopia desoladora. A baiana é a mais importante intérprete da música brasileira nas últimas décadas. A mais plural (“Plural”, inclusive, é nome de um ótimo disco seu). Se vocês estão fazendo o que estão fazendo – mesclar várias influências, vários ritmos, aliar compositores novos aos já consagrados –, foi Gal quem abriu caminho. Antes de sentirem “enfado”, ouçam o mp3 abaixo: a versão pop que Gal fez de “Alguém me disse”, bolero de 1960 composto por Evaldo Gouveia e Jair Amorim. A cantora reinventou totalmente a música. “Alguém me disse” é uma faixa do “Plural”, disco de 1990 produzido pelo saxofonista Léo Gandelman. Ele também responde pelo arranjo, e pelo belo solo de sax, da canção.

    Novas cantoras: ouçam “Alguém me disse” e o disco “Plural” inteiro. Escutem também “Gal a todo o vapor”, “Cantar”, “Aquarela do Brasil”, “Gal – 1992”, “Mina d’água do meu canto”, “Todas as coisas e eu” e “Hoje”. Mais do que isso é lucro.





    * Faixa extraída do CD “Plural” (BMG/1996)

    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Cara, que legal você ter essa opinião sobre nossa grande diva e, mais que isso, contestar os criticos da Dona Veja, que sempre metem o pau em Gal/Bethânia sem dar a menor importância ao que elas representam. Um crítico de merda que não sabe nada, fica com a bunda colada na cadeira e picha nossos artistas sem a menor piedade e, o que e pior, que não é verdade. Eu deixei de assinar a revista por causa desta matéria "enfadonha"... Marcelo Bonome

    Caro Marcelo, obrigado. Mas vale frisar que não foi o crítico da Veja que considerou Gal "enfadonha". Foram as jovens cantoras que ele entrevistou para a reportagem. A matéria, para a qual inseri um link aí em cima, deixa bem claro isso: "Bethânia é lembrada com veneração por umas poucas, (...) mas Gal parece despertar um certo enfado." Meu texto não é uma crítica à opinião do Sérgio Martins, autor da matéria, e sim à das novas cantoras, que, repito, deveriam ouvir mais Gal. Lucas Colombo

    Enfadonhas são elas, que não passam de filhas da elite e passaram uma vida em conservatório para aprender o que Gal aprendeu sozinha - CANTAR, com todas as letras maiúsculas! Viva a maior voz que esse país já ouviu e ouve! Lucas Franco

    Lucas, parabéns pelo excelente artigo. Você tirou as palavras da minha boca. É lamentável ver essas novas cantoras meia-boca acharem Gal enfadonha. Por isso é que elas são assim, tão sem graça, tão óbvias e tão descartáveis. Gal é explosão, essa nova geração é tédio. Luana

    Quando li a reportagem referida na matéria acima, na época pesquisei aquelas cantoras de quem ainda não ouvira nada. Resultado: a maioria faz uma dessas saladas russas multicoloridas, onde os sabores se misturam tanto que você não sabe o que está comendo. Ademais, citar Marisa Monte como "escola" é demais. Ela própria é "filhote" do jeito singular (contudo, fanhoso) de cantar de Gal (veja a versão dela para a Música "Balança Pema"; a voz é imitação de Gal). Gal Costa é um exemplo de profissionalismo e musicalidade ímpar na MPB, por isso reverenciada em todo o MUNDO. E as outras, onde são? Antonio Carlos dos Santos Andrade

    Xará: nem todas as novas cantoras apontadas pela Veja são enfadonhas. A Roberta Sá, por exemplo, faz um trabalho bem interessante. E ela estudou canto, teve a "passagem pelo conservatório" que você menciona. Há problema nisso? Muito pelo contrário. É ótimo que um artista estude para aprimorar sua técnica. Ele é um profissional como qualquer outro. E desvalorizar alguém por ser "da elite" é uma atitude muito maniqueísta, pra dizer o mínimo... Luana: obrigado, mas repito o que escrevi ao Lucas - nem todas as jovens cantoras são descartáveis. Torno a citar a Roberta Sá, criteriosa e competente. Antonio: belo comentário. Realmente é preciso competência para se fazer uma salada saborosa. Pode ficar muito boa se os ingredientes forem misturados com talento. As novas cantoras não cantam como Gal, Elis, Eliseth (estas ainda são imbatíveis), mas elas têm a vida toda pela frente. Lucas Colombo

    Na verdade, acho que o crítico da revista também contribui, porque às vezes a cantora elogia a Gal e ele não publica. Há uma espécie de implicância por parte do crítico da revista também. Maurício

    É lamentável um ícone de mudança de comportamento que marcou uma geração e marca toda a história da MPB ser considerada enfadonha, quando quase todas as novas cantoras tem um timbre de voz bastante igual e que certamente se não demonstrarem para o que vieram não estarão nem daqui a 5 anos sendo artigo de qualquer polêmica. Nossa GAL é única, veio de uma geração de peso pesado como Bethânia, Elis, Nana e depois trouxe outras grandes como Simone, Rita, RôRô, Marina, Zizi Possi e mais. Pergunte a Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan e outros grandes quem eles consideram e quem são as melhores intérpretes de suas músicas. GAL é a maior cantora do Brasil de todos os tempos. A grande preocupação que depois dessas citadas e outras dessa geração, apenas apareceu como boa cantora a Marisa Monte, não desmerecendo outras como Ana Carolina, Zélia, Vanessa, etc. Mas fica uma pergunta: quem tem cacife para substituir nossas divas, nossos ícones? Essas que estão aparecendo? Pode ser, eu pago para ver. Viva GAL!!! Volte GAL!!! Ah!! Por favor escutem a música que Gal canta na novela Viver a Vida. Luiz

    Essas meninas que estão surgindo no cenário musical têm ainda muito chão a vencer para chegar perto de Gal. Devem tomar mais cuidado na hora de abrir a boca. Falando asneiras como essa acabam deixando dúvidas em relação ao talento delas; porque um grande artista não se faz apenas com um belo tom de voz. Que mancada! José Maria Alves Nunes

    Eu não sou crítico de música e na verdade não tenho formação técnica na área. Acho que o Brasil teve e tem boas cantoras. A Gal é a que mais toca a minha sensibilidade. Ouvi-la me faz rezar. Por outro lado, acho que as novas cantoras podem sim expressar sua opinião, não considero falta de respeito. Eu, por exemplo, não me sinto tocado em minha sensibilidade ouvindo a maioria das interpretações de Elis. Rinaldo Francisco

    Rinaldo, obrigado pela leitura, mas em nenhuma parte do texto eu disse que as novas cantoras não tinham direito de expressar suas opiniões. Lucas Colombo

    Acho que GAL COSTA nasceu com a missão de ser a maior cantora do Brasil e uma das maiores do mundo. Começa pelo timbre, vários (Avarandado, Eu sou terrível, Língua do P, Mãe da Manhã, Milho Verde, Lágrimas negras, Autotune auto-erótico e Lindeza - observe as notas graves -, Deixa sangrar, Raiz, a belíssima Triângulo amoroso, que quase ninguém conhece, e Passarinho - observe a beleza da emissão da voz, ambas do Tuzé de Abreu, Assum Preto e Acauã). A vasta extensão vocal (Índia, Meu nome é Gal e O amor). Pesquise a trajetória e constate: qual a cantora que passou basicamente por todas ou quase todas as tendências musicais, do chique ao brega? Qual a cantora que mais arriscou trazendo o novo, por vezes até errando? Acho que a capacidade dela em tornar canções definitivas é tão grande que ela mesmo nem sempre se supera (Baby, Não identificado, Futuros amantes, Tema de amor a Gabriela - um veludo na voz). Shows: Fa-tal, O sorriso do gato de Alice - o show mais vanguardista, completo e perfeito, além de surpreendente e ousado, que nem mesmo a crítica que se diz "competente" entendeu. O show mais completo de uma cantora brasileira que eu assisti foi Gal Tropical, o mais internacional, passando por diversos gêneros da MPB. E para finalizar, próximo aos 70 anos de idade, Gal aceita uma proposta tão moderna e atual do Caetano, Moreno e Kassim. E a música "Borzeguim" do Tom Jobim (a considerava sua cantora preferida), com harmonias complexas, desafiadora?
    Direta e indiretamente, todas as cantoras surgidas após, de Fafá de Belém, Zizi Possi, Vânia Bastos, Marisa Monte e Vanessa da Mata a Tulipa Ruiz (apenas alguns exemplos), devem a Gal.
    Quando à matéria, as novas cantoras afirmarem que Gal é um enfado já foi comentado acima - absurdo equívoco. Quanto ao competente crítico Sérgio Martins, da revista VEJA: não vou tirar seu mérito, acho que também influenciou, talvez na forma de perguntar, redigir a matéria, pois faz bom tempo que observo que ele não é muito chegado a Gal, Maria Bethânia (outra tremenda injustiça).
    Para mim as maiores cantoras escolas do Brasil, respeitando e reconhecendo outras, são: Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia.
    Apenas uma observação: em países como os Estados Unidos, quanto mais os artistas sedimentam a carreira, tornam-se mais velhos (Ella, Ray Charles, Sara, Billie, Stive Wonder, Etta James), são mais valorizados, mesmo realizando trabalhos esporádicos. No Brasil, parece-me ao contrário.
    Pouco falam na divina Elizeth Cardoso e em Marinês, que tanto fez pela música nordestina, Waldick Soriano, Teixerinha, considerados bregas e muitas vezes hostilizados pela crítica mas de um poder imenso de influências (podem nem gostar, nem ser seu estilo preferido, mas ter a grandeza em reconhecer, é uma virtude). Núbua Lafaiette, Jackson do Pandeiro, Assis Valente, e outros que parte da mídia torce o nariz e as novas gerações não conhecem, e quem perde com isto é a memória do Brasil, que depois dos Estados Unidos possui a melhor e mais variada música do mundo.
    Muito obrigado e desculpe alguns erros de português pois estou digitando apressado.
    Cristoval Meira

    Obrigada por esse artigo, também sempre pensei isso - não desprezem a Gal! Não entendo muito de técnica, mas você disse muito bem: ela é a mais plural. Nunca teve nem tem medo de nada, e em todos os estilos soa perfeitamente natural! Para mim ela é a maior do Brasil, não sou ninguém para julgar mas é ela quem toca mais a minha alma... E a musica "Alguém me disse" também é entre as minhas preferidas, bela como um vento que vem do mar, e a voz de Gal, como um passarinho, uma flauta, um riacho de água cristalina... como tudo o mais lindo que existe nesse mundo. Tem a naturalidade que poucas conseguem ter, ela canta, vive a música sem pose, sem pretensão, com amor e alegria... Amo isso nela. Catherine