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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Édipo revisitado
    20/08/2008




    Depois de encenar “Hamlet”, em 2006, e “Medéia”, em 2007, o diretor Luciano Alabarse marca o panorama teatral de Porto Alegre em 2008 com a montagem de mais uma obra clássica: “Édipo”, de Sófocles. A peça reúne dois textos da chamada Trilogia Tebana do autor grego, “Édipo Rei” e “Édipo em Colono”, escritos há 2500 anos (“Antígona”, já montado por Alabarse em 2004, é o terceiro texto da trilogia), para que o público possa acompanhar a trajetória do personagem até o final. Sucesso de público e crítica, “Édipo” é o mais bem construído trabalho do diretor, uma montagem cheia de surpresas e ousadias.

    Após o assassinato do rei Laio, a cidade de Tebas é degradada pela peste e pela desordem. Segundo o oráculo de Delfos, apenas a punição do assassino do rei poderia livrar Tebas daquela condição de caos, que seria uma maldição dos deuses. Édipo, sucessor de Laio, assume então a incumbência de encontrar o assassino. Esta busca realizada pelo personagem é o eixo da peça.

    Na encenação de Alabarse, a história do rei que matou o pai, sem saber, e desposou a própria mãe, também sem saber do parentesco, é pontuada pela trilha sonora formada por músicas dos Rolling Stones. Seria impensável associar o trabalho dos roqueiros ingleses a uma peça de Sófocles, mas o diretor consegue fazer a arrojada combinação funcionar. Em alguns momentos, porém, a trilha passa despercebida, ofuscada pela excelente atuação dos atores. Rafael Mentges, Marcelo Adams e Carlos Cunha Filho compõem as diferentes fases do personagem principal, interpretando, respectivamente, Édipo jovem, Édipo adulto e Édipo velho. No total, a peça conta com mais de 20 atores.

    O majestoso cenário – característica das montagens de Alabarse – é composto por duas estátuas gregas gigantes, posicionadas nas extremidades do palco. No início e no final da encenação (momentos retirados de “Édipo em Colono”), é utilizada uma imitação de um bosque, um cenário verde sustentado por uma estrutura de ferro instalada entre as cortinas. São duas horas e trinta minutos de espetáculo – e este é um problema para a maior parte do público, que não está acostumado a assistir a peças longas e densas. A dispersão de algumas pessoas na platéia é visível. As explicações para isso são muitas: falta de educação, de cultura, de senso artístico... Mas, como a reversão de um quadro ‘sociológico’ desses demanda tempo, a solução mais imediata seria, vá lá, uma pequena redução no texto – mesmo que uma tragédia grega não fique a mesma coisa se encenada em, digamos, 90 minutos.

    O ápice da montagem acontece quando duas ações simultâneas, em tempos diferentes, se formam no palco: no centro, Édipo adulto, abraçado às filhas ainda crianças e com os olhos banhados de sangue por tê-los perfurado; e, no canto direito, Édipo velho, muito debilitado, amparado por suas filhas já adultas, conformado com seu destino. Este é o momento mais emocionante de toda a peça, em que a platéia não disfarça os suspiros.

    A versão de Alabarse para o texto de Sófocles destoa de tudo que está sendo encenado no teatro gaúcho atualmente. É, sem dúvida, uma superprodução. Vinte e cinco séculos depois de ter sido escrita, “Édipo” continua atual, provocando reflexões sobre nossos medos e pecados, nesse mundo em que o ser humano parece temer a realidade que o cerca e, também, a sua própria realidade. Édipo perfura os olhos ao receber do profeta Tirésias a confirmação de que é ele o grande culpado pela desordem em Tebas, por ter matado o pai e casado com a mãe. O personagem-rei tira a própria visão porque percebe que foi incapaz de ver ao seu redor, incapaz de ver com quem andava. E o “não vi, não sabia, não percebi” é facilmente identificável na retórica dos políticos de hoje. O Brasil que o diga. Assusta a cegueira de nossos governantes diante das mazelas do país e das malversações realizadas por seus funcionários mais próximos. Assim como espanta o talento de Sófocles em criar uma obra que sobrevive aos séculos com seu valor artístico inabalado.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Leandro, parabéns pelo texto! Impecável! Já havia lido sobre a peça, e adoro os comentários que Milan Kundera faz sobre Édipo em sua obra "A insustentável leveza do ser". Como leitora do Mínimo Múltiplo, é muito bom ver que ainda existe gente capaz de contextualizar tão bem, sem a carga do jornalismo tradicional, com pitadas de literatura. Parabéns! Vanessa Reis