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    Toca-disco

    Um toque de Billie
    Lucas Colombo
    08/07/2008


    Billie e Kurt Weill
    (Fotos: Allmusic)


    Você já deve ter percebido, leitor. Há vários casos de músicas pertencentes a trilhas sonoras de filmes, peças de teatro e séries de TV que acabaram ganhando vida própria e ofuscando a obra de que se originaram. Só na música brasileira, os casos são muitos. Ou alguém, por exemplo, associa imediatamente “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque, à sua “Ópera do Malandro”? Ou “Mulheres de Atenas”, do mesmo Chico, à peça “Lisa, a Mulher Libertadora”, dirigida por Augusto Boal nos anos 1970? E ao ouvir “Luz do Sol”, de Caetano Veloso, alguém logo a vincula ao filme “Índia, a Filha do Sol”, de Fábio Barreto? É difícil. Essas são composições que desenvolveram vida independente das obras para as quais foram escritas, mesmo que tenham muito a ver com as histórias que embala(ra)m.

    Nenhum outro estilo, talvez, apresente tantos casos de músicas-tema rebeldes como o jazz. O gênero de Louis Armstrong e Duke Ellington já foi trilha sonora de diversos filmes e peças, e, é claro, algumas vezes as canções se descolaram do roteiro. É o caso, por exemplo, dos temas escritos pelo alemão Kurt Weill (1900-1950) para seus musicais. O músico erudito-jazzístico compunha óperas com o dramaturgo Bertolt Brecht em Berlim – a mais conhecida é “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”, de 1930 –, até que uma outra ascensão, desta vez a do partido nazista, obrigou-o a fugir para os Estados Unidos. Lá, acabou tornando-se um dos maiores compositores da Broadway. Do musical “Um Toque de Vênus” (“One Touch of Venus”), de 1943, para o qual compôs todas as canções, faz parte “Speak Low”, um dos maiores standards do jazz. A música, que tem letra do poeta Ogden Nash, foi depois gravada por Ella Fitzgerald, Chet Baker, Gerry Mulligan, Gato Barbieri e Billie Holiday, entre muitos outros. No Brasil, a cantora Marisa Monte a interpretou, em inglês e com ritmo de bossa nova, no seu disco de estréia, “MM”, de 1989.

    “Um Toque de Vênus” apresenta a história de Rodney, um homem que dá vida a uma estátua (quem será?) ao colocar no dedo dela a aliança que comprara para a namorada. Vênus, interpretada na primeira versão por Mary Martin, passa então a persegui-lo, deixando o homem encantado com os prazeres que ela proporciona. “Speak Low” é, na peça, um apelo de Vênus para que ela e Rodney aproveitem o romance: “Speak low when you speak love/ Our summer day withers away/ Too soon, too soon/ (...) I feel wherever I go/ That tomorrow is here/ Tomorrow is near/ And always too soon” (algo como “Fale baixo quando você fala de amor/ Nosso dia de verão se esvai/ Cedo demais/ (...) Eu sinto, onde quer que eu vá/ Que o amanhã está aqui/ O amanhã está próximo/ E sempre cedo demais”). A pergunta inevitável: com Billie Holiday cantando isto, quem se importa que “Speak Low” era tema de uma peça de teatro?

    Ouça, então, à fabulosa Billie interpretando a canção de Weill e Nash, no mp3 abaixo. E ouça logo, porque o dia se esvai cedo demais.





    * Faixa extraída da coletânea “All or Nothing at All” (Verve/1995)

    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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