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    Especial Machado de Assis

    Esaú, Jacó e um genial autor
    Leandro Schallenberger
    25/07/2008


    (Imagem: Faboarts)


    Esaú e Jacó” pode não ser considerado pelos críticos o melhor romance de Machado de Assis, mas mergulhar nele é uma experiência magnífica. O livro fascina, entre outras coisas, pela leveza da linguagem. Sim: experimente ler algumas páginas em voz alta. Pode ser um capítulo inteiro ou apenas alguns trechos. Você perceberá que o texto soa como música para os ouvidos. No romance, Machado oferece um banquete de palavras bem colocadas – como estas, de um parágrafo do capítulo XVII: “A operação de desmamar, podia fazer-se em meia linha, mas as lástimas das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a mãe deu a cada uma delas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa página ou mais. Poucas linhas bastariam para as amas-secas, porquanto não diria se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do oficio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavalinhos de pau, bandeirolas, teatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a quinquilharia da infância ocuparia muito mais que o lugar de seus nomes”. Não é ótimo?

    Quando Machado lançou “Esaú e Jacó”, em 1904, ele estava no auge de sua produção literária – já tinha publicado as obras-primas “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – e se vê, realmente, que o livro foi escrito com palavras matematicamente escolhidas. O texto, independentemente da história, pode ser apreciado até por quem não é muito chegado na obra do nosso autor maior. O que me pergunto é como um livro escrito há 104 anos pode despertar tanto entusiasmo por sua leitura e, além disso, superar tantos outros romances que vieram depois dele. Talvez porque Machado seja um gênio insuperável, dono de uma obra que pode apenas ser comparada entre si.

    Ambientada no Rio de Janeiro do período pré-republicano, a história de “Esaú e Jacó” é narrada através dos manuscritos do Conselheiro Aires, um sujeito que toma a forma de filósofo e psicólogo. Ele também é personagem do enredo, e essa não deixa de ser uma maneira inovadora de Machado contar a história, já que, mesmo sendo narrador, Aires também se apresenta na terceira pessoa. Os protagonistas são Pedro e Paulo, irmãos gêmeos, filhos de Natividade e Agostinho Santos. O carinho que têm pela mãe é um dos raros pontos de contato entre eles. Pedro e Paulo, embora gêmeos, possuem características e ideais bem diferentes: o primeiro é estudante de Medicina e monarquista, e o segundo, estudante de Direito e republicano. Os desentendimentos chegam ao ápice quando eles disputam a mesma mulher, a bela Flora, que gosta igualmente dos dois irmãos, por encontrar neles qualidades que se completam.

    A encantadora e indecisa Flora morre prematuramente na história, e este desfecho que Machado dá para a personagem suscita a impressão de que ela estava ali apenas para aumentar o grau de tensão entre os irmãos. Flora nada parece com outras personalidades femininas machadianas. Não seria possível, por exemplo, compará-la com Capitu, de “Dom Casmurro”, ou Sofia, de “Quincas Borba”, mas parece que a intenção de Machado não foi mesmo criar uma personagem de grande complexidade, como aquelas duas.

    Algo muito interessante é o fato de Machado ter dado o nome de “Esaú e Jacó” ao romance, fazendo uma referência à história bíblica dos filhos gêmeos de Isaac e Rebeca. Tal qual a parábola do antigo testamento, os gêmeos Pedro e Paulo vivem em rivalidade, com a mãe no meio da disputa.

    No aspecto da ironia, uma das mais fortes características da literatura machadiana, “Esaú e Jacó” perde em comparação com outras obras do autor, como “Memórias Póstumas” e “Quincas Borba”, mas o recurso é levemente usado em alguns pontos da narrativa. O mesmo pode-se dizer em relação ao humor: alguns capítulos até fazem rir, mas, no geral, “Esaú e Jacó” não tem tanto apelo humorístico quanto os outros romances da chamada ‘fase realista’ de Machado. Forte, isso sim, é o componente político da obra. Nas suas desavenças, Pedro e Paulo representam as discussões ideológicas travadas naquele Brasil do final do século 19, início do 20: Monarquia ou República? Talvez esta conclusão seja injusta, mas “Esaú e Jacó” também pode ser interpretado como uma resposta de Machado aos críticos que o consideravam (e alguns ainda hoje consideram) ‘passivo’ frente às mudanças políticas e econômicas pelas quais o Brasil passava. No romance, vê-se Machado como ele realmente era: um grande observador das coisas do seu tempo.

    A leitura de “Esaú e Jacó”, enfim, é indispensável para compreendermos melhor a obra deste extraordinário escritor que é Machado de Assis. E para nos compreendermos também, já que a história dos gêmeos rivais nos faz refletir sobre nossas individualidades e impessoalidades. Isto é o melhor de Machado: ele nos provoca, nos incita a descobrir algo novo nas entrelinhas dos seus escritos. E esta é a razão por que lê-lo é sempre um prazer.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Pedro, estudante de medicina e monarquista? Li vários resumos e resenhas que dizem o contrário e outras misturam os dados. O que acontece? Será que ninguém leu esse livro? Daniel

    Caro Daniel: sim, Pedro optou pela medicina e é monarquista; Paulo é estudante de direito e entusiasta de um sistema republicano. No livro de Machado, não há qualquer dúvida em relação a isso. Você pode ter-se confundido com o capítulo XIII, que apresenta as ‘divagações’ das amas e de Agostinho Santos sobre quais seriam as profissões dos gêmeos: “Pedro seria médico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Também pensaram em dar a um deles a engenharia. (...) Santos pensava em fazer de um deles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias. Íntimos da casa entravam nos cálculos. Houve quem os fizesse ministros, desembargadores, bispos, cardeais...”. A história, porém, está recheada de referências claras aos caminhos que Pedro e Paulo efetivamente tomaram. Veja esta passagem do capítulo XCI, em que os jovens, já formados, explicam para Natividade por que ficaram em Petrópolis: “Pergunto-lhes que razão tinham pra ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu consultório médico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum deles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ela e o marido...
    - Justamente eu tenho que fazer uns estudos de clínica na Santa Casa, respondeu Pedro. Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava consultar certos documentos do século XVIII na Biblioteca Nacional; ia escrever uma história das terras possuídas”.
    Quanto às posições políticas dos irmãos, acho que este trecho do capítulo XXIII pode elucidar: “(...) sucedeu que uma delas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dois irmãos que idade tinham. Paulo respondeu: - Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono.
    E Pedro: - Nasci no aniversário do dia em que Sua Majestade subiu ao trono.”
    O sexto parágrafo do capítulo LXV explicita ainda mais as convicções políticas dos personagens:
    “O coração de Paulo, ao contrário, era livre, deixava circular o sangue, como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os princípios se incrustavam, viviam ali tão fortes e quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do jantar bebeu à Republica (...)”.
    Para quem realmente leu o livro, não existe confusão alguma sobre as características de Pedro e Paulo. Boa leitura.
    Leandro Schallenberger