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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Cinema de calçada
    03/07/2008




    Eu estava a caminhar pelo centro de Porto Alegre e – coisa típica deste começo de inverno – fui surpreendido pela chuva. Acolhi-me sob uma marquise em frente à Praça da Alfândega. No local, havia alguns hippies vendendo seus peculiares artesanatos e um vendedor de livros e discos de vinil, além de muito cheiro de urina. Olhei para as portas do prédio, as quais estavam lacradas, e percebi que ali havia sido os cinemas Guarany e Imperial. Em 2005, seguindo uma tendência de todo o Brasil, esses que eram os cinemas de calçada mais antigos de Porto Alegre fecharam suas portas, após mais de 70 anos de atividades.

    Minha última lembrança do Imperial não é nada agradável. Uma das sessões a que compareci me deu repulsa, e não é exagero. Havia uma verdadeira orquestra de sacos de pipoca e latas de refrigerante, acompanhada de conversas em tom muito alto e celulares tocando seguidamente. O senhor da lanterninha já não existia mais, as poltronas estavam desconfortáveis e velhas, o áudio trazia ruídos estridentes misturados à trilha sonora do filme e o ar-condicionado estava longe de funcionar perfeitamente. Eu decretei: esses cinemas de calçada estão obsoletos. E, a partir daquele dia, após muito relutar, me rendi às salas de shopping.

    Entretanto, lendo o livro do amigo jornalista Cristiano Zanella, “The End – Cinemas de Calçada em Porto Alegre” (Idéias a Granel, 2006), que relata a ascensão e decadência dos cinemas de calçada da capital gaúcha, submergi em profundas nostalgia e tristeza. A mesma tristeza que senti ao ver o prédio do “Cinema Paradiso” se acabando em chamas, naquele grande filme de Giuseppe Tornatore. Lembrei-me, então, dos bons tempos dos cinemas de calçada. Eles foram especiais. Têm lugar na história de vida das pessoas e do desenvolvimento das cidades.

    Lembro que, no tempo em que freqüentávamos essas salas, em Porto Alegre, ficávamos esperando ansiosamente o projecionista iniciar o filme. Quando a exibição finalmente começava, então, só se ouviam suspiros. Ir ao cinema era mais do que mágico. Muitos dos cinemas de calçada preencheram nossa infância com sonhos e fantasias. Acabaram, porém, tornando-se economicamente inviáveis, frente à concorrência das salas de shopping e dos videocassetes e DVDs. Depois do fechamento desses cinemas, muitas comunidades ficaram tristes e sem opções de entretenimento. Locais como o Centro de Porto Alegre perderam aquela bonita movimentação das pessoas em busca de um bom filme para assistir.

    Desde o surgimento do cinema – com a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em 1895 – os cinemas de calçada tiveram profundas relações com suas cidades. Em Porto Alegre, parece que agora estamos entendendo a importância disso, com a restauração do cinema Capitólio, que se tornará a Cinemateca Capitólio, e do Imperial, que fará parte do Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. Os centros da maioria das capitais brasileiras estão em decadência, e um passo importante para a revitalização desses locais pode ser a volta do trânsito das pessoas em busca de cultura. Quem sabe um “cineminha” não dá novo ânimo para a vida nas cidades?


    leandro.s@minimomultiplo.com



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