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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Páginas da TV
    19/06/2008




    Para saber sobre televisão, não é necessário ligar o aparelho: basta abrir os cadernos de cultura dos jornais. Televisão é um dos temas mais freqüentes nesses cadernos. Alguns até criaram espaços específicos para o meio, em páginas separadas, com descrição de toda a programação das emissoras, além de resumos de novelas e comentários dos capítulos. Funcionam como uma espécie de 'dicionário' da TV brasileira.

    Um texto interessante a esse respeito é a tese de doutorado "Interesses cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro" (Unisinos, 2004), de Sérgio Gadini. Conforme o autor, a forte presença da temática "televisão" nos periódicos é uma questão de mercado, pois vários dos principais jornais do país integram grupos de comunicação que, geralmente, também possuem redes de TV. O que acontece é um agendamento ou um inter-agendamento: os programas televisivos têm destaque nas páginas dos jornais, e os jornais também são referências e fontes para os programas. Ou seja: um meio divulga e alimenta o outro.

    Neste mesmo trabalho de Gadini, é apresentada uma entrevista com Luiz André Alzer, então editor do Sessão Extra, caderno de cultura do jornal Extra, do Rio de Janeiro. Alzer comenta que "A televisão é 70% da pauta do Sessão. Música e cinema também, mas aí entra mais como serviço. Agora, televisão não é cobertura, propriamente, mas a vida, a intimidade do artista, comportamentos do artista, o modismo ligado ou decorrente da televisão". Seria essa uma sugestão de que o interesse maior dos leitores é a vida privada de atores e apresentadores de TV? Se for, que pena. Dedicar 70% de um caderno de cultura para o "mundo das celebridades" é, sinceramente, uma subestimação do intelecto do leitor. Mas talvez seja uma forma simplista e prática de preencher as páginas desses cadernos. Aí o buraco é mais embaixo.

    Creio, porém, que, ao contrário do que diz Gadini, os cadernos de cultura não estão somente seguindo uma lógica de mercado ao darem tanto espaço para televisão em suas páginas. Não estão apenas se apropriando da 'audiência' dos personagens televisivos ou divulgando a programação da emissora do grupo a que pertencem. Estão, isso sim, contribuindo para o vazio que muitas 'personalidades' da televisão representam. E não contribuindo com a inteligência dos leitores. A idéia de que esses querem saber principalmente sobre a intimidade de atores e apresentadores de TV é falsa. Quem abre um caderno de cultura está muito mais interessado em conhecer a obra de um artista, os valores e as características de seu trabalho, e não se Fulano casou com Cicrana ou qual é o tipo de roupa que Beltrana costuma usar. Para isso, existe a Caras. Espaço para cultura em jornal precisa levar informação e opinião de qualidade para os leitores, a fim de estimular debates sobre os assuntos abordados e, por conseqüência, sobre a sociedade em que o leitor está inserido. Aliás, é isso que ocorre em outras editorias: Política, Mundo, Esporte...

    Se não qualificarem seu conteúdo, os cadernos de cultura, mesmo sendo a segunda parte mais procurada dos jornais, correm o risco de perder leitores. Ou pior: correm o risco de perder sua principal função, que é a de reportar cultura. É possível, sim, ligar entretenimento com informação, mas sempre com o cuidado de não nivelar por baixo.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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