Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Vasto Mundo

    Menos luz no fim do túnel
    Flávio Aguilar, de Londres
    21/12/2009


    “Imigração ilegal e UE”, de Cristina Sampaio,
    premiado no World Press Cartoon 2007


    Há muitas formas de atravessar o Canal da Mancha, a não muito extensa porção de água que separa a ilha da Grã-Bretanha do continente europeu. As mais cômodas são por avião ou trem, que fazem o trajeto em menos de três horas. Alguns podem preferir ir de carro, e notarão que mesmo assim a distância não é longa – com uma mãozinha do Eurotúnel, é claro. Quem não conta com dinheiro suficiente para pagar por essa praticidade – o que nesses países significa ter pouco, muito pouco dinheiro – pode, ainda, escolher ir de ônibus. Foi assim que parti de Londres, com Paris como destino. Pensando, estupidamente, que não seria tão ruim assim...

    A National Express, maior empresa de transporte rodoviário da Europa, tem linhas cobrindo os cantos mais remotos do continente, desde cidades turísticas mais requisitadas como Paris, Roma e Barcelona, até lugares desconhecidos do Leste Europeu, chegando mesmo à Rússia. Uma viagem entre Londres e Moscou, por exemplo, sai por menos de R$ 400,00 – porém, pode demorar até três dias para ser concluída. Entre Londres e Paris, são cerca de sete horas na estrada.

    Ao entrar no ônibus que viaja entre os dois países, em meio à madrugada, já senti um pouco do atual contraste entre o Reino Unido e a França, no que diz respeito ao problema social que os franceses enfrentam com as levas de imigrantes por lá abancadas. A maioria dos passageiros era formada por esses imigrantes, visivelmente pobres, aparência compartilhada pelo próprio veículo em que estávamos acomodados. A romântica Paris, cidade sonhada por tantos, é também por muitos vivida à sombra de suas luzes e jardins. O francês não vive hoje a pobreza da Idade Média nem o horror das tantas guerras mal-sucedidas; essas dificuldades foram transferidas, ao longo do último século, quase que exclusivamente para os imigrantes legais e ilegais vindos principalmente de suas antigas colônias. Argélia, Costa do Marfim, Camarões e Haiti são algumas das procedências dessa turba que chega, há décadas, ao país. Muitas famílias vivem há mais de três gerações em solo francês e têm direitos civis iguais a qualquer Pierre ou Jean-Paul. Na prática, contudo, são vistos e vivem à parte: como negros, como árabes.

    São muitos os imigrantes que tomam veículos da National Express com seus filhos, imensas bagagens e documentação duvidosa estrada afora. A maioria deles, africanos procurando um lugar para se estabelecer no continente europeu, num nomadismo forçado principalmente pelas leis do mercado. As barreiras culturais e linguísticas, no entanto, também exercem grande influência nesse fluxo migratório. Em geral, cada país europeu atrai em maior número imigrantes vindos de suas respectivas ex-colônias: indianos no Reino Unido, latinos na Espanha, brasileiros em Portugal, etc. Os africanos, assim como foram divididos na partilha colonial, hoje se distribuem por toda a Europa.

    Minha jornada à noite rumo a Paris exemplifica a forma como a maioria dos imigrantes africanos vive nos países em que se assentam. Poltronas rasgadas e sujas, muitas delas estragadas, todas desconfortáveis; sete horas de estrada sem acesso a um banheiro, sem luz; todas as janelas fechadas, o máximo que a National Express oferece para combater esse frio que já chega em novembro. Assim sendo, horas a fio respirando o mesmo pouco oxigênio viciado e sentindo o mesmo fedor impregnado no ônibus. Enquanto eu me sentia incomodado em ser tratado como um bicho, notava também o descaso dos outros passageiros. Todos, impassíveis, dormiam. Muitos roncavam, ajudando a tornar meu sono inalcançável. Era fácil perceber que vários deles já estavam acostumados em fazer aquela mesma viagem com alguma frequência, além de todos já estarem acostumados a fazer viagens diversas nas mesmas condições. Mais que isso, todos se acostumaram a viver em condições análogas. Barrados pelo controle de imigração francês, à porta do Eurotúnel, todos os passageiros foram intimados a apresentar documentos, muitos de nós também convidados a descer do veículo. Alguns voltaram, outros ficaram pelo caminho, sendo fácil escutar algumas discussões acaloradas no frio, à beira do Canal da Mancha.

    A grande maioria seguiu viagem, espalhando-se depois pela periferia parisiense, um imenso bolsão de pobreza que circunda as partes centrais da cidade – e não para de crescer. Foi nesses subúrbios que rebentou, no final de 2005, uma onda de violência há muito não vista em solo francês. Durante 21 dias, Paris e centenas de outras cidades da França foram sacudidas por incêndios, saques a lojas e embates entre jovens imigrantes e a polícia. O motivo dessa fúria teria sido uma tragédia envolvendo dois adolescentes, filhos de imigrantes vindos, respectivamente, de Mali e da Tunísia: ambos morreram eletrocutados, acidentalmente, em uma subestação de energia quando fugiam da polícia.

    A proporção que tais protestos acabaram tomando, resultando em um clima de pânico generalizado, tem raízes fortes, porém, no altíssimo índice de desemprego que ajuda a colocar essa juventude à margem da sociedade francesa. A postura arrogante e insensível das autoridades só serviu para acirrar os ânimos dos dois lados do conflito. Após milhares de carros, lojas e prédios públicos incendiados, além de centenas de pessoas feridas e detenções em massa, os protestos foram controlados pelo governo, e acabaram ajudando a eleger presidente o então ministro do Interior, Nicolas Sarkozy – que, no auge do caos, chegou a se referir aos autores dos atentados como “escória”.

    A escalada de Sarkozy, político conservador, ao poder, reflete o temor e a xenofobia crescente dos eleitores, que culpam os imigrantes pelo arrefecimento econômico vivido pelo país desde a década de 1990, ameaçando as conquistas advindas da política de bem-estar social, obra da social-democracia francesa. Poucos passos para fora do terminal da National Express em Paris mostram ao viajante recém-chegado as feridas abertas de uma sociedade em transição: ambulantes, pedintes, mendigos. Uma raridade na maior parte de Londres, um lugar-comum nos inúmeros pontos turísticos parisienses. Longe de enfear a cidade-luz, constrangem visivelmente seus habitantes que, orgulhosos, fazem seu melhor: empinam seus narizes à brisa do Sena.


    flavioaguilar@gmail.com



    Mais Flávio Aguilar
    Racismo: teoria e prática - 27/10/2009
    Cultura no Underground - 28/08/2009
    Poesia sob o tapete - 30/03/2009
    Cortázar sem bandeiras - 07/03/2009
    Os heróis de 2008 - 18/12/2008
    The President - 13/11/2008
    Pout-porrit argentino - 11/09/2008
    Política é coisa séria? - 21/08/2008
    O (não) fabuloso destino de Rubião (Especial Machado de Assis) - 22/07/2008


    Leia também
    Viagem ao interior da China (final) - Márcia Schmaltz, de Pequim - 07/08/2008
    Viagem ao interior da China - Márcia Schmaltz, de Pequim - 31/07/2008
    Soy loco por ti, Latinoamérica - Lucas Colombo, de Buenos Aires - 25/04/2008