Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Bolsa-Ditadura
    27/05/2008


    (Imagem: Beto Santos)


    Em certos momentos, fico a pensar no que eu teria feito se tivesse vivido nos anos de chumbo da Ditadura Militar. Se eu fosse um colegial de 17 anos naquela época, poderia não ter idéia da repressão que acontecia. Talvez eu tivesse sido mais um nerd de óculos fundo de garrafa, estudando para o curso de Medicina da UFRGS, devorando enciclopédias inteiras sobre anatomia humana. Ou, quem sabe, concentraria meus estudos no sentido de tentar um sonhado e bem remunerado emprego no Banco do Brasil.

    Ou, então, eu poderia ter vivido trancado no meu quarto, curtindo Jimi Hendrix e lendo revistas do Zero, Tex, Tintin e Asterix. Uma vida sem rotinas, regada a guaraná Tubaína. Sim, se eu tivesse vivido nos anos 1960, eu poderia ter “levado tudo numa boa”, sem grilos, paz e amor.

    Mas... e se eu tivesse sido um rapaz inquieto, atento a tudo ao meu redor? Aí eu penso mais ainda: minha inquietude seria suficiente para participar de passeatas contra os milicos? Eu, na minha ingenuidade, teria querido para o Brasil um sistema socialista igualzinho ao da União Soviética? Ou ao da China? Não custava nada imaginar. Num caso mais extremo, eu poderia, ainda, ter aderido à guerrilha do Araguaia e ter ficado escondido no mato, com a cara coberta de lama e a boca seca de sede, esperando para utilizar meu enferrujado revólver.

    Poderia ter sido muita coisa. Certo é que se, enfim, eu tivesse realmente participado da luta contra o Regime Militar, hoje eu sentiria orgulho por ter perseguido um ideal, algo tão raro no mundo contemporâneo. Contaria para meus filhos e netos que a Ditadura tinha me mandado para o exílio, reprimido meus pensamentos, mas que, mesmo assim, eu resisti. Teria orgulho de não ter sucumbido às cacetadas dos policiais; minha dor estaria abaixo dos princípios de lealdade para com meus companheiros de ‘luta’. Lembraria os amigos desaparecidos, os pais de família que foram ao trabalho e não voltaram, os jornais publicando poemas e receitas de bolo no lugar de notícias censuradas. Lembraria tudo isso e teria a certeza de que meu empenho em mudar aquela situação não foi em vão.

    As lembranças e a certeza de dever cumprido, porém, não seriam o melhor. O melhor seria que, hoje, eu, por ter sido um idealista, poderia desfrutar de uma indenização milionária concedida pelo governo. É. Os jornalistas Jaguar e Ziraldo, por exemplo, recentemente receberam uma bolada, por terem sido perseguidos durante a Ditadura. Mesmo sendo pessoas que retomaram suas vidas normais e que conseguiram ser bem-sucedidos em suas profissões, eles foram contemplados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça com mais de um milhão em indenizações. Jaguar e Ziraldo ganharam, respectivamente, R$ 1.027.383,29 e R$ 1.000.253,24, além de uma pensão vitalícia de R$ 4.375,88 mensais. Esse dinheiro todo proveio dos cofres públicos.

    É muito delicado avaliar quem deve auferir estas indenizações e qual seria o valor correto delas. Toda vítima de perseguição política e familiares de desaparecidos têm direito de receber alguma reparação pelo que passaram. Mas é o caso de perguntar: o valor dessas indenizações não está alto demais? Elas não representam um contraste absurdo num país em que milhares de pessoas recebem um salário mínimo? Ganhar um milhão de reais às custas do trabalho da população não joga no lixo toda a história de resistência política de que eles participaram?

    Só posso concordar com a afirmação de Millôr Fernandes, companheiro de Jaguar e Ziraldo no jornal O Pasquim: “Eu pensava que eles estavam defendendo uma ideologia, mas estavam fazendo um investimento”. Sem mais.


    leandro.s@minimomultiplo.com



    Mais Leandro Schallenberger
    A mordaça da fé - 08/05/2008
    Por um jornalismo cultural menos pobre - 23/04/2008