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Fica até 2018
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Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Tudo está relacionado
    06/06/2008


    (Imagem: Herbert Bender)


    Quem conhece as idéias do físico austríaco Fritjof Capra sabe que essas constituem um modo bastante interessante de perceber o mundo e de explicar a realidade (e, a quem não as conhece, recomendo fortemente que comece a se informar a respeito). Trata-se de um pensamento holístico, que leva ao entendimento de que somos parte de uma teia inseparável de relações. Resumidamente, a chamada Visão Sistêmica, proposta por Capra, opõe-se à idéia de que, para entender o todo, é preciso fragmentá-lo, indo do particular ao geral. Os sistemas são totalidades integradas, e, por isso, temos de pensar em termos de redes, ver as conexões entre as coisas. Devemos pensar em processos, e não em estruturas (pois é, leitor, concordo que, para muitos, isso é bem difícil).

    O livro "O Ponto de Mutação", lançado por Capra em 1982, representa um marco no desenvolvimento desta nova visão de mundo. Considerado um dos precursores da linha de pensamento denominada 'Nova Era', o livro foi adaptado para o cinema em 1991, por Bernt Capra, irmão de Fritjof. "Ponto de Mutação" ("Mindwalk"), o filme, tem a espetacular Liv Ullmann (a grande atriz dos filmes de Ingmar Bergman) no elenco, como a cientista Sonia Hoffmann. A personagem é um tipo de alter ego de Fritjof Capra. Os dois outros personagens principais são o político Jack, interpretado por Sam Waterston (da série "Law & Order"), e o poeta Thomas, vivido por John Heard. Os três estão atravessando crises pessoais, que os fazem reavaliar suas idéias. Vão, então, passar um tempo na abadia medieval de Mont Saint Michel, no litoral da França, onde acabam se encontrando. Sonia apresenta a Visão Sistêmica a Jack e Thomas, e os três discutem política, ecologia, tecnologia e arte, com base nessa teoria.

    A obra é bastante discursiva. Concentra sua narrativa, quase que totalmente, no diálogo entre os personagens, denso de conteúdo durante todo o filme. Há falas bastante significativas, que traduzem alguns pontos da Visão Sistêmica. No início do filme, por exemplo, a filha de Sonia diz à mãe: "Você só fica enclausurada neste castelo, sem perceber as coisas ao seu redor", para, pouco depois, como se fosse uma resposta, Thomas dizer a Jack: "Nenhuma ilha está isolada, ela faz parte do continente", numa referência à famosa "meditação" do poeta John Donne.

    Em uma cena emblemática, os três personagens encontram-se no recinto do castelo onde está exposto um relógio medieval. Sonia usa-o como exemplo, para criticar a visão mecanicista de compreensão do todo por meio de sua fragmentação em unidades básicas. Dirigindo-se a Jack, afirma: "Perdoem-me, mas vocês, políticos, dificultam as coisas. As idéias da maioria de vocês, de direita ou de esquerda, parecem-me antiquadas e mecânicas como um relógio. É como se a natureza funcionasse feito um relógio. Vocês a desmontam, a reduzem a um monte de peças simples e fáceis de entender, analisam-nas e, aí, pensam que entendem o todo. Mas os tempos mudaram. Precisamos de um novo modo de entender a vida. A ciência já passou o pensamento mecanicista. Mas vocês, políticos, parecem ainda ter essa máquina dentro de suas cabeças" (fala muito atual, esta). Ainda, mais tarde, ao discutir os problemas do mundo com Jack e Thomas, Sonia comenta: "Claro que você pode consertar uma peça, mas ela quebrará de novo, porque você ignorou o que se conecta a ela".

    Bernt Capra foi diretor de arte de "Bagdad Café" (1987) e production designer de "Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador" (1993), entre outros trabalhos. "Ponto de Mutação" é seu único filme como diretor. A adaptação do livro de seu irmão não chega a ser uma obra-prima cinematográfica, nem almeja sê-lo. Não deixa, porém, de ser um bom filme e de apresentar muito bem as idéias de Fritjof Capra. O foco da obra, realmente, é a Visão Sistêmica – e isto já é suficiente para tornar o filme altamente recomendável.

    (texto originalmente publicado no site Usina Pazza)


    I wanna be close to you

    Como (quase) tudo o que Bebel Gilberto faz, seu último CD, "Momento" (SonyBMG), é elegante, delicado e sensual. Há alguns 'poréns', como a simplicidade excessiva de certas letras (a faixa-título, por exemplo, rima 'lamento' com 'momento') e o cansativo uso de vozes dobradas. Mas nada que comprometa todo o trabalho. "Momento" é o terceiro disco da cantora – os anteriores são "Bebel Gilberto", de 2004, e "Tanto Tempo", de 2000. Aqui, o ecletismo é a tônica: o standard "Night and Day", de Cole Porter, ganhou uma versão bossa nova; "Os Novos Yorkinos", de Bebel, Didi Gutman e Sabina Sciubba, é um samba de roda; e "Tranqüilo", de Kassin, gravada ao vivo com a Orquestra Imperial, é uma rumba. Bebel também faz uma releitura de "Caçada", imprimindo um caráter grandioso a esta pouco lembrada canção de seu tio Chico Buarque. Em "Momento", Bebel está mais solta, indo mais longe com a voz. O disco é um atestado de sua maturidade artística (e 'maturidade artística' é um bom clichê). A intérprete conseguiu se libertar do estigma de ser "a filha talentosa de João Gilberto e Miúcha" para tornar-se, finalmente e acima de tudo, "a Bebel Gilberto". Coisa que Maria Rita, a filha de Elis Regina, ainda não conseguiu fazer. Sorry.


    Teatro sem cor

    Já o CD de Fernanda Takai, "Onde Brilhem os Olhos Seus", saudado como um dos melhores de 2007, não é tudo isso que disseram. Foi superestimado pela crítica. A vocalista da banda Pato Fu, sob direção artística de Nelson Motta, regravou o repertório de Nara Leão, dando a ele uma roupagem pop. O resultado ficou raso. Os arranjos são simples demais, e as interpretações de Fernanda não arrebatam. Ok, "Diz que fui por aí" e "Insensatez" até ficaram simpáticas (e "Insensatez" não fica bem de qualquer jeito?), mas nada que dê vontade de ouvir de novo.


    Obama rocks

    Escrevi no blog sobre as qualidades de Barack Obama, que finalmente garantiu a nomeação como candidato democrata à presidência dos Estados Unidos. Ele é um político pragmático, moderno e agregador. Fez um discurso memorável sobre 'raça' em março, quando frisou que pensar em uma "América negra" e em uma "América branca" é coisa ultrapassada. Obama é o favorito em novembro, mas, mesmo se não ganhar, já entrou para a História.

    Os EUA se preparam para uma eleição espetacular. De um lado, um democrata negro que não faz da cor de sua pele uma bandeira política, e de outro, um republicano visto com ressalvas pelo partido por ter algumas posições liberais. O debate político será qualquer coisa, menos monótono.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Gostei muito de saber da produção de cinema sobre a obra de Capra. Estava exatamente buscando algo que retratasse a Visão Sistêmica e encontrei o site de vocês e a respeito do filme, feito também por um outro Capra. Muito obrigado e parabéns por falarem de coisas que o ser humano precisa, cada vez mais, perceber. Sidney Oliveira