Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Etc...

    O ano em que vivemos em perigo
    Equipe MM
    26/12/2016


    Para lembrar que “Viver é negócio muito perigoso”, não é preciso que nos remetamos a Guimarães Rosa, autor que incluiu a frase no seu “Grande sertão: veredas”, livro que completou 60 anos em 2016. Basta olharmos ao redor. O moribundo 2016 pôs essa verdade diante de nós o tempo todo. Viver no Brasil, em si, já é perigoso. Em 2016, foi mais. A História trabalhou bastante. Não nos foi leve, como diria o outro grande escritor. E nos assustou. Não conseguimos desligar. Não sossegamos.

    Janeiro: clima quente. Zika vírus no ar, alarmismo, preocupação: as Olimpíadas do Rio começarão em oito meses. Pedido de impeachment aceito. Mas o Congresso está de férias. As negociações informais sugerem que o processo vai fracassar. Dizem que foi só um ato de vingança daquele sujeito, Cunha, com quem o governo do PT, veja só, tentou negociar até o último minuto. Nos EUA, quem diria, o pré-candidato bufão Donald Trump não para de crescer. Analistas começam a duvidar de que ele seja só uma piada (de mau gosto). Enquanto isso, David Bowie morre. Seus muitos admiradores pelo mundo, é claro, lamentam.

    Fevereiro: sem clima para carnaval. Recessão econômica, a pior desde 1990. Desemprego, insatisfação. Triplex no Guarujá e sítio em Atibaia. Não entendemos: como Lula, que se diz perseguido pela “elite”, pode receber benesses de empreiteiros envolvidos no Petrolão e ainda ocultá-las? Andar de jatinho, tomar bons vinhos, ter amigos megaempresários? Clima confuso. E o que Cunha continua fazendo na presidência da Câmara? Enquanto isso, morre o escritor e teórico italiano Umberto Eco, e o filme “Spotlight” ganha o Oscar, para nos lembrar de uma das grandes missões do jornalismo: descobrir e contar boas histórias.

    Março: o que não faltam são boas histórias para contar. No fim do verão, aí mesmo que o clima ferve. Do alto de seus 10% de popularidade, Dilma, a mulher sapiens, se segura para não cair. Crise política e econômica, marqueteiro de campanha preso, perda de apoio no Congresso, e a capa da Istoé: “Delcídio conta tudo”. Ela teria nomeado um ministro do STJ com a tarefa expressa de soltar Marcelo Odebrecht, empreiteiro que, se contasse tudo o que sabia, poderia causar um baita estrago. Obstrução de justiça? Lula, ainda segundo a delação premiada do então senador, teria sido o mandante da tentativa de comprar o silêncio de um dos envolvidos no esquema de corrupção. Para piorar, ele é levado para depor à Polícia Federal, em condução coercitiva interpretada pelos militantes de seu partido como “prisão”, “arbitrariedade”, “perseguição”, “golpe”. As redes sociais tornam-se cada vez mais antissociais: coxinhas pra cá, mortadelas pra lá, e o bom gosto tentando achar lugar aí no meio. Bobagens e opiniões infundadas proliferam. E vem a maior manifestação popular das últimas décadas no Brasil. Três milhões de pessoas saem às ruas, no domingo 13 de março, para pedir o impeachment da presidente e defender a Lava Jato e o juiz Sérgio Moro. A situação já está ruim o bastante? Não. Três dias depois, Dilma dá a Lula o cargo de ministro da Casa Civil (e, por consequência, um belo foro privilegiado), e Moro libera gravações de telefonemas do ex-presidente investigado. Num deles, Dilma lhe diz que vai mandar o assessor “Bessias” entregar o termo de posse, para ser usado “em caso de necessidade”. Lula agradece e se despede: “Tchau, querida”. Mais uma tentativa de obstrução de justiça? Protestos irrompem nas ruas. No dia seguinte, o STF suspende a posse do novo ministro, e a Câmara instala a comissão do impeachment. Que semana. Vale pelo mês inteiro.

    Abril: para o governo, é exatamente o que pontificam as palavras de T.S. Elliot: o mais cruel dos meses. É também para quem tenta manter a calma. A polarização da sociedade brasileira atinge nível quase insuportável. Artistas entram na guerra: Regina Duarte, Bruno Barreto e Ferreira Gullar, a favor do impeachment. Letícia Sabatella, Kleber Mendonça Filho e Chico Buarque, contra o que chamam de “golpe”. Amizades rompidas. Comissão do impeachment conclui que processo deve continuar. Governo se liquefaz. Nomeação de ministros de quinta categoria e suas mulheres “Miss Bumbum” só consegue provocar risos. Chega o dia da votação, 17 de abril, domingo. Em vez do futebol, brasileiros se reúnem para assistir à transmissão na TV. Cunha, réu por corrupção, preside a sessão. Deputados votam em nome da cidadezinha, do filho, do Pai, do bichinho de estimação. Oratória não é o forte deles, nem da presidente acusada de fraude orçamentária. A tentativa desesperada de Lula, Dilma e Cia. de virar votos de deputados não surte efeito. Prosseguimento do impeachment aprovado, depois de uma longa e tumultuada sessão. Vai para o Senado.

    Maio: mais comissão do impeachment, mais crise, mais desemprego, mais nervos à flor da pele. Vamos ao que realmente interessa? Discutir Shakespeare, morto há 400 anos. Se pudéssemos, faríamos só isso. Mas a realidade brasileira nos chama. Suprema Corte decide, até que enfim, remover Eduardo Cunha da presidência da Câmara. Vice-presidente, um tal Waldir Maranhão (quem?), assume em seu lugar. E (o quê?!) anula a votação do impeachment. Mas o Senado não aceita, para gritaria de Gleisis, Vanessas e Lindberghs. Dias depois, começa a sessão. O nível dos discursos dos nobres senadores e senadoras é um pouco mais alto que o dos deputados. Às 6:30 da manhã de 12 de maio, decide-se: Dilma deve se afastar do cargo para ser julgada por crime de responsabilidade. Michel Temer, seu vice, figurão do não menos comprometido PMDB, toma posse interinamente. Começam as mesóclises. O ministério comporta suspeitos de corrupção. Um deles, Romero Jucá, é gravado falando que quer “estancar a sangria” da Lava Jato. Cai. Mas ele nunca sai de cena, mesmo: já foi aliado de FHC, Lula e Dilma.

    Junho: Nos Estados Unidos, o populista falastrão Donald Trump vence as primárias do partido Republicano. Vai concorrer com Hillary Clinton, do partido Democrata. Morre Muhammad Ali, um dos maiores esportistas do século 20. Na Europa, uma surpresa – desagradável: britânicos optam, em plebiscito, por deixar a União Europeia. Parecem gostar de viver perigosamente. No Brasil, inverno para esfriar os ânimos? Que nada. Desavenças políticas prosseguem. País quebrado. E a delação da Odebrecht ainda é só um esboço. Propina para Renan, Sarney e Jucá, mesada para secretário particular de Dilma, pagamento de reforma no sítio de Lula que não é de Lula... O Rio de Janeiro continua lindo, mas na paisagem. A dois meses dos Jogos Olímpicos, o governo estadual decreta falência, e o caso do estupro coletivo de uma moça, numa favela, choca o país.

    Julho: mês de espera e desconfiança. Olimpíadas dobram a esquina, impeachment entra na fase final. Na França, novo atentado terrorista. No Brasil, violência urbana. Vivemos em perigo. Enquanto isso, morre Hector Babenco, um dos poucos diretores do cinema brasileiro que valem a pena.

    Agosto: pausa nas brigas políticas e nas preocupações, para assistirmos de camarote ao maior evento esportivo do planeta. As Olimpíadas tomam lugar no Rio. Cerimônia de abertura muito bonita e bem executada. Michael Phelps, o maior nadador de todos os tempos. Usain Bolt, o imbatível. Isaquías Queiroz, três vezes medalhista. E o Brasil é ouro no boxe e no salto com vara. Perde no vôlei e no futebol femininos; em contrapartida, ganha no futebol masculino, finalmente. Seleção brasileira volta a empolgar o torcedor. Nadador americano inventa que foi assaltado, mas a mentira não dura muito. Nos estádios, assim como nas relações sociais e políticas, o brasileiro demonstra a cordialidade identificada por Sérgio Buarque no octogenário “Raízes do Brasil”: vaias desnecessárias a atletas estrangeiros, improviso, jeitinho. No geral, contudo, faz uma festa bonita. Para guardar na memória, neste ano já repleto de fatos inesquecíveis.

    O mês também traz a conclusão do processo de impeachment. No dia 31, sob comando do presidente da Suprema Corte, senadores decidem pela cassação de Dilma. Mas, opa, os direitos políticos dela são mantidos! Lei aplicada pela metade. Mesmo assim, petistas persistem na tal narrativa do golpe. É “golpe” um processo previsto na Constituição, supervisionado pela Suprema Corte e que garante direito de defesa? Justamente: é “golpe jurídico-parlamentar”, bradam. A criatividade humana não tem limites.

    Setembro: a vez das Paralimpíadas, no Rio. Destaque para o nadador brasileiro Daniel Dias. Cunha é cassado, Lula é apontado como comandante do petrolão, Antônio Pallocci é preso. Temer, o Sr. Mesóclise, agora presidente efetivo, lança reforma no ensino médio (por medida provisória). Debate – ou a palavra seria ‘briga’? – no meio cultural brasileiro: “Aquarius”, exibido em Cannes e de diretor petista, ou “Pequeno segredo”, escolhido para tentar indicação ao Oscar e de diretor que não se mete em política? Polarização passional, para variar. Poucos buscam afastar a celeuma politiqueira e se concentrar no que interessa: o que os dois filmes têm a oferecer ao público.

    Outubro: eleições municipais. Presumivelmente, PT recua; PSDB e candidatos de (simplifiquemos as coisas) “direita” avançam. Cunha é preso em casa. Lula é indiciado de novo. E que história é essa de querer anistiar caixa dois, deputados? Nos EUA, Trump segue uma máquina de disparar declarações infelizes. Ele não vai ganhar a eleição, né?... Na Europa, escritora italiana Elena Ferrante parece ter sua verdadeira identidade revelada em reportagem. Pergunta-se: o fascínio que sua obra exerce nos leitores diminui com isso? A grande discussão literária do ano, porém, ainda está por vir. O Nobel de Literatura 2016 não vai para Philip Roth, Ian McEwan ou Haruki Murakami, grandes escritores contemporâneos - vai para o compositor e cantor Bob Dylan. Letra de canção é literatura? A resposta a essa questão é um simples e sincero “depende”. O Nobel da Paz, por sua vez, vai para Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, pelo acordo com as FARC.

    Novembro: o inimaginável acontece – Trump vence a eleição nos Estados Unidos. O candidato do muro na fronteira, das deportações em massa de imigrantes ilegais, do protecionismo, da simpatia por Putin. America Great Again?... Hillary ganha no voto popular, mas não no colégio eleitoral. Eleitores de Trump parecem ficar na tal “bolha” formada pelas redes sociais e não tomam contato com o contraditório. É o fenômeno da “pós-verdade”, a palavra do ano. Fatos e lógica não importam mais; o que importa é minha crença. O Brasil, claro, também proporciona cenas constrangedoras. Grupo de desmiolados invade a Câmara para pedir “intervenção militar”. Ex-governador fluminense Anthony Garotinho é preso, passa mal e esperneia na ambulância que o levaria do hospital de volta à cadeia. Outro ex-governador, Sérgio Cabral, também é preso. Sua esposa, Adiana Anselmo, parece adorar umas jóias da H Stern. A velha malandragem carioca faz o Rio chorar. O estado está quebrado, o RS também: governo gaúcho lança pacote para tentar salvar as finanças. Ministro da Cultura sai e acusa outro, que também sai. Enquanto isso, morre Leonard Cohen, o grande cancionista canadense. Hey, that’s no way to say goodbye, Cohen! Morre ainda Fidel Castro, o homem que comandou Cuba de 1959 a 2006. Uns o chamam de ditador, outros, de presidente. Pode, entretanto, ser considerado “presidente” alguém que fica quase 50 anos no poder e persegue opositores? Presidentes não têm mandato determinado, não precisam respeitar direitos humanos?...

    Quando todos achavam que 2016 já tinha sido intenso o suficiente, surge a notícia de que o avião que levava um time de futebol brasileiro, o simpático Chapecoense, e equipes de imprensa caiu na Colômbia. Tristeza. Dezenas de mortos, seis sobreviventes. Acidente causado porque o piloto e dono da companhia aérea queria... economizar gasolina??? Viver é muito perigoso. O luto mistura-se com a indignação política: na madrugada seguinte à da tragédia, deputados desfiguram projeto de medidas de combate à corrupção, proposto pelo Ministério Público. Timing péssimo, para dizer o mínimo. A explicação de um deputado: “não estamos pensando em ganhar eleição, estamos pensando em não ser presos”.

    Dezembro: para fechar 2016, mais uma cena patética em Brasília. Em duvidosa decisão monocrática, ministro do STF ordena que Renan Calheiros, réu em um processo, deixe a presidência do Senado, mas ele não deixa. Mais essa, agora: Suprema Corte e Senado se estranhando. Até que chegam a um acordo tipicamente brasileiro, conciliador, tapinha nas costas: Renan pode ficar, mas tem de sair da linha sucessória da presidência da República. A intenção é apaziguar os ânimos, diz-se. Só se forem os deles, porque a população volta às ruas em mais um domingo de passeatas contra a corrupção e a favor da Lava Jato. A PEC do teto de gastos, porém, é aprovada, e enfim é firmado o acordo de delação da Odebrecht, a “delação do fim do mundo”, por atingir praticamente todos os partidos. A nota cômica se depreende dos apelidos dados aos políticos, nas planilhas da empresa: Todo Feio, Campari, Caju, Caranguejo, Amigo...

    O fim do ano reserva ainda outro fato triste. Morre Ferreira Gullar, o último grande poeta brasileiro, dono de uma obra que não perdeu qualidade com o tempo e exemplo de espírito crítico. Indivíduo sem reposição à altura. É dele um dos mais celebrados poemas da literatura brasileira, o “Poema sujo”, em cuja parte inicial o eu lírico tenta se lembrar de uma mulher bela bela mais que bela que passou por sua vida: “Perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia/ perdeu-se na profusão das coisas acontecidas”. Em 2016, conseguimos nos lembrar de nós mesmos, de nossas vidas, da importância de cultivar projetos e afetos, nessa profusão de coisas acontecidas? E a sensatez e a honestidade intelectual de muitos não se perderam na confusão de tanta noite e tanto dia? Sugestões de reflexão para o fim deste ano inolvidável. Rosa nos ajudou a começar este texto-balanço, Gullar nos ajuda a encerrar. Livro terminado; que comece outro.



    Leia também
    D. - Paulo Polzonoff Jr. - 21/12/2016
    O cinema e a guerra (Sniper Americano) - Muriel Paraboni - 24/04/2015
    Que crítica?!... - Carlos Fernando e Frederico Barbosa - 18/03/2015
    Bibliotecas pessoais - Helena Terra - 08/04/2014
    Lobos e tijolos - Fabiano Schüler - 11/07/2012
    Minhas objeções ao politicamente correto - Carlos Orsi - 28/09/2011
    Sobre internet e postes de borracha - Juliano Rigatti - 05/08/2011
    H.L. Mencken - Moziel T.Monk - 26/04/2011
    O uso crítico do senso crítico - Carlos Orsi - 12/04/2011
    TODOS OS TEXTOS