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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Etc...

    R$ 249,00 por mês
    Leandro Demori*
    06/05/2008


    Andando pela rua – meu esporte preferido depois que decidi nunca mais ter carro –, vi um outdoor que pode sintetizar boa parte de 2008.

    Lá no alto da imagem, uma moça sorridente segura uma chave, ao mesmo tempo em que olha para um prédio novinho. A bela morena usa um capacete de pedreiro, marcado com o logotipo da construtora Tenda. Jamais vi outdoors da Tenda em Porto Alegre, cidade conhecida por ter inúmeras construtoras de sucesso. Em destaque, no canto superior esquerdo, há um balão vermelho: “R$ 249,00 mensais”. É o preço da felicidade. Da independência. Do fechamento da torneira do aluguel eterno. Com míseros R$ 249 por mês, você já pode ter seu apartamento.

    O outdoor da Tenda é apoiado por dois fatores fundamentais da economia brasileira – e desta vez o mérito do governo é inegável. O principal deles é essa espécie de milagre econômico que promoveu boa parte dos miseráveis à classe C. Esse “milagre”, é fato, pode ser considerado enganador por ser inflado com bolsas de auxílio do Governo Federal. É inquestionável, no entanto, os efeitos dessa política de distribuição.

    Hoje, a classe C torna-se o grande alvo dos negócios. É uma massa que jamais consumiu e que ainda conserva aquele olhar ingênuo e deslumbrado sobre talões de cheque, cartões de crédito e de débito, dinheiro vivo. São novos consumidores esperando que alguém lhes diga em que gastar. Essa massa, no entanto, apenas consegue ser feliz graças aos juros baixos. Só assim há condições para construtoras erguerem prédios sem medo de calote. Sozinhas, não teriam condições de financiar moradias a parcelas tão pequenas. A tarefa de liberar a grana fica com os bancos.

    A parte ruim dessa história é que corremos o risco de estar começando nossa crise do subprime, que, se realmente acontecer, só deve estourar bem lá na frente. Avalisando essas operações, os bancos ficam cada vez mais expostos a um número crescente de famílias que, no futuro, não terão condições de manter seus compromissos. Então, virá uma enxurrada de renegociações e ações judiciais, sempre pontos de desequilíbrio na cadeia. Aguardemos os próximos capítulos.

    Tiro na mão

    Um dos mais novos mantras do mercado de capitais é o seguinte: “se os Estados Unidos vão mal, a China vende menos aos americanos. E se a China vende menos, o Brasil vende menos para a China, o que traz a crise mundial para dentro de nossas casas”. A conclusão mais óbvia desse raciocínio – que é, em grande parte, verdadeiro – é que o mercado interno cresce de importância diante do abismo externo que se apresenta por aí.

    Não posso deixar de me espantar quando, diante disso, o governo brasileiro tenha uma mentalidade tão vesga e diametralmente oposta à lógica com essa atitude.

    Não sei como, em pleno século 21, alguém ainda pode acreditar que o culpado pela inflação é o excesso de demanda.


    * Leandro Demori é jornalista e colaborador do (imperdível) Nova Corja.